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Para lojistas do Brás, vendas da semana foram por água abaixo


Prefeitura de São Paulo e governo do Estado não investem o necessário na prevenção de enchentes e preferem adotar medidas paliativas, como compensação de IPTU, que não cobrem os prejuízos totais


  Por Renato Carbonari Ibelli 12 de Fevereiro de 2020 às 07:00

  | Editor ibelli.dc@gmail.com


No dia seguinte às fortes chuvas que deixaram a Região Metropolitana de São Paulo debaixo d’água, o empresário paulistano tentou voltar à rotina. Para muitos deles, a semana já é considerada perdida.

No Brás, região do centro da capital paulista, são esperados mais de 400 ônibus por semana levando clientes que buscam as roupas e tecidos vendidos pelos atacadistas deste polo comercial. Porém, até esta terça-feira, 11/02, apenas 30 ônibus estavam estacionados.

A maior parte dos ônibus não conseguiu chegar ao Brás na segunda-feira por causa das ruas alagadas. “Agora só voltam na semana que vem”, diz Lauro Pimenta, que administra a Dejelone, loja de moda que funciona na Rua Oriente.

Ele não teve prejuízos materiais - não perdeu estoque ou equipamentos. O que o preocupa são as perdas intangíveis, as vendas que deixaram e deixarão de ser feitas. Estas não podem ser mitigadas por seguro ou compensações oferecidas pelo poder público.

Esse tipo de prejuízo só será evitado quando os alagamentos forem tratados como prioridade pelas autoridades. Não é o que parece estar sendo feito já que nos últimos cinco anos a prefeitura deixou de investir R$ 2,7 bilhões do total de R$ 3,8 bilhões previstos para controlar as enchentes.

Vale destacar que nesse período, de 2015 a 2019, três prefeitos estiveram à frente da capital paulista: Fernando Haddad (PT), João Doria (PSDM) e o atual administrador, Bruno Covas (PSDB).

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O governo do Estado também gastou menos do que o previsto. Nos últimos 10 anos, dos R$ 6,2 bilhões orçados, R$ 3,6 bilhões foram empenhados. Apenas 42% do previsto e, pelo visto, do necessário.

Em que se pese o volume de chuva da última segunda-feira, acima da média histórica, o fato é que nesta época casos parecidos acontecem ano após ano.

Em março de 2019, por exemplo, pelo menos 53 empresas das regiões da Mooca e Vila Prudente, na zona Leste de São Paulo, perderam juntas mais de R$ 120 milhões em decorrência das fortes chuvas. Onze pessoas morreram naquela ocasião.

“É um problema recorrente, portanto, suas consequências são previsíveis. Em países que enfrentam situações piores, como as nevascas nos Estados Unidos, vemos ações preventivas. Aqui o dinheiro não está sendo gasto corretamente”, diz Antonio Carlos Pela, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e responsável pelo Conselho de Política Urbana (CPU) da entidade.

Ele lembra que a canalização dos rios e córregos da cidade de São Paulo aconteceu há 50 anos, e precisa ser revista. Rios hoje aterrados, como os do Vale do Anhangabaú, não conseguem mais comportar o volume de água de chuva que desemboca neles porque, quanto mais a cidade foi se impermeabilizando com concreto, mais dependência ela tem desses escoadouros subterrâneos.

Antonio Carlos Pela diz ainda da necessidade de se retomarem obras para aumentar a vazão dos rios Tietê e Pinheiros. Durante a chuva da última segunda-feira, foram justamente as empresas que estava nas marginais que acompanham esses dois rios que mais sofreram com os alagamentos.

“A prefeitura oferece isenção de IPTU para imóveis que tiveram prejuízos materiais causados pelas chuvas, mas é um processo complicado, que depende de laudos, e a compensação não chega perto de cobrir o valor das perdas”, diz o vice-presidente a ACSP.

O benefício é conseguido por meio da Lei 14.493, de 2007. Ela limita o valor da compensação a R$ 20 mil.

BALANÇO

O varejo da Região Metropolitana de São Paulo, da Capital, ABCD paulista, Guarulhos e Osasco deixou de faturar R$ 110 milhões por causa das enchentes, segundo estimativa inicial da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomércioSP).

Polos comerciais que recebem grande fluxo de pessoas foram bastante prejudicados. No Bom Retiro, no centro da cidade de São Paulo, 40% das lojas não abriram na segunda, de acordo com Nelson Tranquez, vice-presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) da região.

“Quem abriu não conseguiu vender porque os clientes não conseguiram chegar até o centro da cidade. Foi um dia perdido”, diz.

Em sua loja, a Loony Jeans, que funciona na rua José Paulino, apareceram dez clientes no dia, quando normalmente ele atenderia de 50 a 70.

Na região do Brás, também no centro da capital paulista, o movimento de consumidores caiu 70% na segunda-feira, segundo Jean Makdissi, conselheiro da Associação de Lojistas do Brás (Alobrás).

Ele informou ainda que 30% das lojas da região não conseguiram abrir, muitas por falta de funcionários, que também não conseguiram chegar para o serviço.