Sustentabilidade

Por que os piscinões não funcionam para as enchentes


Apresentação de Vitor Aly, secretário municipal de serviços, na sede da ACSP mostra que esse tipo de infraestrutura ainda protagoniza os projetos do governo, porém traz grandes dificuldades para formação de consensos sucessivos


  Por Mariana Missiaggia 22 de Agosto de 2019 às 14:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Pelo menos 53 empresas das regiões da Mooca e Vila Prudente, na zona leste de São Paulo, perderam juntas, mais de R$ 120 milhões em decorrência das fortes chuvas que atingiram a região metropolitana de São Paulo no início de março deste ano.

O levantamento feito pelos próprios empresários mostra também que mais de 8,6 mil funcionários ficaram parados, e portanto, tiveram sua renda comprometida, assim como o faturamento de seus empregadores.

O problema que costumava ser recorrente nesta época do ano, já não tem mais estação para ser esperado. Em julho, por exemplo, uma chuva persistente e incomum bateu recorde histórico. Em 24 horas, a cidade recebeu quase o dobro da quantidade média de chuva normal para um mês de julho – mais de 100,5mm, que deixaram São Paulo paralisada.

Na tarde da última quarta-feira (21/8), o Conselho de Política Urbana (CPU), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) recebeu Vitor Aly, secretário municipal de infraestrutura urbana e obras de São Paulo para discutir as iniciativas para minimizar as enchentes e alagamentos na cidade de São Paulo.

Tanto transtorno tem diferentes razões para acontecer, de acordo com o secretário. Trata-se de uma combinação de fatores. O acúmulo de lixo e entulho nas vias e galerias da cidade, a falta de planejamento urbano, a desarticulação entre os órgãos responsáveis pela gestão dos recursos hídricos e a ineficiência dos piscinões fazem parte dessa fórmula.

PRIORIDADE PARA OS PISCINÕES

No que se refere aos piscinões, a coisa é um pouco mais complicada. Além de ter muitos problemas induzidos por erros técnicos e de má gestão de uso do solo, a manutenção desse instrumento custa R$ 200 milhões por ano aos cofres públicos.

“Fizemos um estudo com a USP para entender qual a eficiência dos piscinões e saber se eles estão trabalhando no seu limite. Para nossa surpresa, a conclusão foi negativa”.

De acordo com o secretário, esse levantamento ajudou na identificação das obras que trariam maior contribuição na captação das chuvas nos próximos cinco anos e isso tem norteado reformas, limpezas e desentupimentos. Pelo menos, 22 reservatórios precisam de alguma tipo de manutenção, segundo Aly.

Alguns até funcionam parcialmente, mas estão longe de resolver os problemas que a cidade enfrenta com as enchentes. E ainda que estivessem operando a todo vapor não seriam suficientes, afirma o secretário. Entretanto, os piscinões ainda são os protagonistas dos projetos deste governo.

Neste sentido, a atual gestão ainda pensa em conseguir o apoio da iniciativa privada para gerir os 31 piscinões (5 novos) que devem ser entregues até o fim deste mandato. A ideia é permitir o direito de construir sobre piscinões como contrapartida a requalificação e conservação dessas galerias pluviais.

Há também a possibilidade da construção de equipamentos públicos, como é o caso da Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, que está sobre um dos maiores piscinões da capital, que recebe parte das águas das chuvas das regiões central e oeste.

COMERCIANTES

Mesmo ciente da importância dos piscinões para controlar os grandes volumes de chuva, Antonio Carlos Pela, vice-presidente da ACSP e coordenador da CPU, acredita que esse tipo de reservatório não pode ser visto como única solução e que a Prefeitura também deveria investir em outras opções de aumento da capacidade da rede de drenagem da capital.

“É muito interessante a alternativa desses piscinões ganharem funções complementares, além de reservar água, e contribuir para a revitalização de espaços degradados e agregar áreas verdes”, diz. “Entretanto, investir em obras de microdrenagem é fundamental para evitar novas tragédias e prejuízos”.

Para o secretário, o problema não se resume a projetos de engenharia. Ele transfere parte da responsabilidade à própria sociedade e ao comércio, grande gerador de lixo – que na sua opinião, deveria investir em campanhas de conscientização locais e massivas em relação ao descarte inadequado de resíduos.

Em um resgaste histórico, Stella Goldstein, ex-secretária de meio ambiente do estado de São Paulo e integrante do Núcleo de Estudos Socioambientais (NESA) da ACSP, rcorda que o modelo de urbanização e ocupação estabelecido nas várzeas dos rios da cidade de São Paulo foi inadequado.

Ela cita que rios, como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí foram transformados em canais e com a mudança do desenho e a impermeabilização do solo, a absorção das águas fica muito prejudicada e que portanto, não há forma de cessar as enchentes de maneira total.

"Desde sempre, nossas cidades cuidaram de afastar as águas rapidamente, preferindo canalizações subterrâneas, seja para criar espaços edificáveis ou para esconder os dejetos que levam. Sofremos as consequências", diz. 

A especialista também destaca que existem mais de 40 instituições para lidar com a questão das águas e que não dialogam entre si com políticas setoriais que colidem e deixam de criar sinergias. "Não há bom equacionamento para as águas, esgotos, resíduos e drenagem, se pensados isoladamente".