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"Vamos consultar os comerciantes antes de fazer ciclovia"


Quem afirma isso é Sérgio Avelleda, secretário de Mobilidade e Transportes de São Paulo. Nos últimos meses, ele tem se reunido com empresários paulistanos para selar a paz entre ciclistas e o comércio


  Por Mariana Missiaggia 23 de Novembro de 2017 às 09:14

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


As reclamações são sempre as mesmas: "Vai atrapalhar o trânsito" e "Vai tirar as vagas de estacionamento". 

O duelo entre comerciantes e ciclistas parece não ter fim. Os 468 quilômetros de faixas exclusivas para ciclistas ainda dividem opiniões em São Paulo.

No epicentro deste embate está Sérgio Avelleda, secretário municipal de mobilidade e transportes de São Paulo.

Para o secretário, investir em outras formas de mobilidade, como as ciclovias e a readequação das calçadas para incentivar os deslocamentos a pé é a forma mais moderna de se pensar em mobilidade. 

Em São Paulo, cerca de 40% das viagens de automóveis são inferiores a quatro quilômetros – caminhando, isso dá no máximo, 25 minutos. De bicicleta, menos de 15 minutos.

Com objetivo de desafogar o trânsito e os transportes de masssa para pequenos deslocamentos, além de aumentar a sensação de segurança pública na cidade, Avelleda tem como objetivo buscar estruturas cicloviárias que sejam harmônicas com os demais atores da cidade, como, por exemplo, o comércio de rua.

Na quarta-feira (22/11), Avelleda se reuniu com membros do Conselho de Político Urbana (CPU) e do Núcleo de Estudos Urbanos (NEU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em entrevista ao Diário do Comércio, ele conta como comércio e ciclovia podem conviver em harmonia. 

Em algumas cidades do mundo e até do Brasil, as ciclovias funcionam a favor do comércio. O que falta para que o mesmo aconteça em SP?

O primeiro passo é desmistificar a ideia de que consumidor não é só quem anda de carro.

Também é preciso aumentar a malha e conectar um número maior de rotas possíveis na cidade. Partindo do Centro, é possível ir até o Shopping Morumbi, o Parque Vila Lobos, a Lapa e o Terminal Rodoviário Tietê.

Mas ainda falta sinalização, bicicleta compartilhada e a chegada de um elemento novo, que é a bicicleta elétrica. Acredito que à medida que a experiência com o uso de bicicletas for se refinando, o comércio será beneficiado. 

AVELLEDA: CICLOVIA INCENTIVA O COMÉRCIO

Mas, existe, de fato, uma rivalidade entre comércio e ciclovias?

Toda a literatura internacional aponta a ciclovia como uma incentivadora do comércio. O consumidor não é um motorista. Ele é um cidadão que consome a pé, de bike ou de carro.

A necessidade de consumo não é exclusiva aos que tem carro. Aliás, as ruas por onde não passam carros são um exemplo de que o comércio pode se dar muito bem sem a presença deles. 

Curitiba implantou a rua das Flores, em 1973, quando Jaime Lerner era prefeito. Na época houve muita resistência por parte dos comerciantes. Hoje, quem vai até o local vê que não há um ponto comercial vago.

São cinco quadras com lojas abertas e lotadas de gente. É o que acontece na rua São Bento, na XV de Novembro, na Barão de Itapetininga e na Sete de Abril, no Centro de São Paulo.

Estamos falando de um novo modo de deslocamento na cidade. Até o século XX, todas as cidades investiram na estrutura e se desenharam para receber carros. O resultado disso são cidades completamente engarrafadas.

Muitos comerciantes reclamam que foram surpreendidos pela presença das ciclovias em frente à suas lojas repentinamente. Como o senhor vê esse questionamento?

Dialogar é o mínimo que pode ser feito nessa situação. É preciso convencer a sociedade. Fazer audiências publicas é fundamental.

A visibilidade da fachada é um elemento importante no marketing comercial. Quando um carro SUV estaciona em frente a uma loja, ela desaparece. Se esse espaço fica liberado, aquela fachada passa a ter visibilidade.

Um motorista passa pelo comércio de vidros fechados, ar condicionado e rádio ligado. Um ciclista interage livremente com o comércio e ainda aumenta a segurança publica. O que ainda alta é o comerciante aprender a receber esse ciclista.

Como a Secretaria está tratando essa demanda?

Ainda não construímos nenhum quilômetro de ciclovia nesta gestão. E nem vamos fazer nada sem consultar os comerciantes de cada região sobre o assunto.

Estamos avançando e já fizemos cinco reuniões com comerciantes de Pinheiros. E chegamos a um consenso sobre o projeto.

Na primeira noite, havia uma divisão entre ciclistas e lojistas. Três horas depois, alguns comerciantes já estavam achando que a ideia era boa.

A rua Libero Badaró, por exemplo, tem muitos pedidos de retirada de ciclovia. Não vamos retirar – vamos reduzir o tamanho da ciclovia e devolver as vagas de estacionamento para a via. Tudo baseado no diálogo.

A gestão anterior foi muito criticada pelo projeto de implantação das ciclovias. O que mudará nas próximas obras?

Tudo. Muitas ciclovias foram executadas pelas gerencias operacionais da CET, nós não faremos isso. Nenhuma ciclovia será construída, se não pela área de planejamento da CET.

Ocorre que a gestão passada tinha muitas metas para cumprir. Porém, a área operacional tem como função operar o trânsito e não conceber soluções.

Nada será instalado sem debate ou divulgação prévia. Vamos aceitar a contribuição de todos que estão envolvidos para melhorar o projeto.

FOTO: Thinkstock e Estadão Conteúdo