Brasil

Azevêdo: Brasil não soube cuidar dos pequenos negócios na pandemia


O embaixador Roberto Azevêdo destacou, em palestra na ACSP, a necessidade de se criar políticas mais efetivas para ampliar o apoio aos negócios de menor porte


  Por Karina Lignelli 26 de Outubro de 2021 às 16:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Dados da PNAD Contínua do IBGE de setembro apontam que quase 600 mil empresas, na maioria pequenas, fecharam as portas desde o início da pandemia, aumentando mais a desigualdade em um cenário crítico.

A quebra de empresas em meio à crise da covid-19 foi um fenômeno mundial, mas ao contrário de outros países, o Brasil não soube tirar lições sobre como proteger os pequenos negócios nesse período. Essa é a visão do embaixador Roberto Azevêdo, vice-presidente para assuntos corporativos da Pepsico Global e presidente da Organização Mundial do Comércio (OMC) até 2020.

Ele esteve presente, na última segunda-feira (25), em reunião do Conselho Político e Social (COPS) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Azevêdo citou o pacote de benefícios dos Estados Unidos, que incluiu linhas de crédito para pequenas e médias, além do pagamento de parte dos salários para as empresas não demitirem.

No Brasil houve algo semelhante, mas por aqui, para os pequenos negócios, o custo de manter o funcionário, segundo o embaixador, não compensou. Segundo ele, o governo poderia fazer mais em termos de diferenciação entre pequena e grande empresa na área laboral, quanto aos custos trabalhistas, por exemplo.

Segundo o embaixador, é regra geral aos governos criar leis e incentivos pensando sempre na grande empresa. A pequena que se adapte. "A pequena não tem capacidade de arcar com tantos custos como a grande. Todas são tratadas iguais, mas é preciso matizar um pouco essa relação para equilibrar a balança."

Para Alfredo Cotait Neto, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), a migração de empresas e trabalhadores de áreas tradicionais para dinâmicas, ou seja, baseadas em tecnologia e profissionais qualificados, acelerou com a pandemia, o que, segundo ele, 'destroçou' a economia das micro e pequenas empresas.

"Muitas fecharam, e o nível de desemprego das tradicionais não será absorvido pelas da área dinâmica", destacou. Diante desse cenário, Cotait perguntou a Azevêdo como o setor privado poderia intervir para diminuir a desigualdade e evitar tensões sociais.

Lembrando que o setor privado sempre se prontifica a entregar resultados e cobrir hiatos de implementação de políticas públicas - como as montadoras, que passaram a produzir respiradores para atender à alta demanda da pandemia -, o embaixador afirmou que, em geral, os tratamentos são 'tópicos e temporários.'

Na avaliação do embaixador, o ideal é capacitar a pequena e a média empresa para torná-la integrante do mercado de maneira estável e perene, com perspectivas de futuro e maior probabilidade de prosperar e se estabelecer. "Mas também é função do Estado e das associações ajudar a diminuir os custos dos pequenos negócios."

Azevêdo destacou também que os incentivos para que os pequenos negócios entrem no mercado internacional aumentam as probabilidades de sucesso dessas empresas. Para quem se mantém no mercado interno, tradicional, as chances de vingar e progredir são menores, disse. Mas, se conseguirem viabilizar os negócios nas plataformas digitais, a probabilidade de serem bem-sucedida é muito maior.

"É questão de foco, é preciso criar instrumentos para capacitar essas empresas, um marco regulatório que as ajude. Mas não digo novidade nenhuma: o que falta é vontade política e determinação para fazer isso."

 

FOTO: Gabriel Daniele/ACSP






Publicidade


Publicidade



Publicidade



Publicidade




Publicidade



Publicidade




Publicidade