Shoshana, o restaurante judaico resgatado por um trio de clientes fiéis

Inaugurado no Bom Retiro em 1991 como Shoshi, e fechado desde 2020, o estabelecimento foi repaginado e reaberto há um ano, sob a gestão de um coletivo de sócios

Mariana Missiaggia
21/Ago/2023
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Shoshana, o restaurante judaico resgatado por um trio de clientes fiéis

Ao assumir o posto de curador e ajudar a reerguer o centro cultural Casa do Povo, no Bom Retiro, Benjamin Seroussi passou uma década provando semanalmente do cardápio do casal Shoshana, responsável até então pelo restaurante Shoshi com clássicos da cozinha judaíca.

Quando recebeu dos próprios donos do estabelecimento a notícia de que o lugar fecharia as portas, Benjamin duvidou. Em seu raciocínio, algum investidor se interessaria pelo negócio, entraria como sócio e resolveria qualquer que fosse o problema. Mas, não foi assim.

Aflito pela possibilidade de não ter mais seu restaurante preferido disponível e sem calcular muito, Benjamin decidiu tomar para si o comando do espaço. Sem saber por onde começar, ligou para outros dois amigos - também clientes do Shoshi - Arthur Hirsch e Ines Mindlin, que abraçaram a ideia.

E foi assim que o trio (junto a um coletivo de outros 22 mini sócios) transformou o Soshi em Shoshana Delishop. Ao liderar o último restaurante judaico do bairro do Bom Retiro, e possivelmente da cidade de São Paulo, Bejamin quer pensar em ações sociais e culturais para o entorno e, quem sabe, torná-lo ainda mais habitado.

Entre reforma, aquisição de equipamentos, consultorias e projeto, o coletivo levantou um investimento inicial de aproximadamente R$ 750 mil.

UM NEGÓCIO PARA MUITOS SÓCIOS

Inaugurado em 1991 e até então sob o comando da mesma família, o estabelecimento passou por alguns problemas que desanimaram os primeiros donos, o casal israelense Shoshana e Adi Baruch - até a chegada de Benjamin.

Sempre na vizinhança, o gestor cultural se tornou sócio dos amigos Inês Mindlin (ligada a projetos comunitários) e Arthur Rirsch (sócio da Carlos Pizza) e, juntos, compraram o restaurante.

Em seguida, tiveram outra ideia para tornar o espaço ainda mais democrático e movimentado - ofereceram 22% das ações para um grupo de 22 mini sócios de diferentes profissões, transformando o negócio em uma espécie de coletivo.

Nessa lista está, por exemplo, Renata Schmulevich, fundadora e diretora de criação da marca FIT, também do Bom Retiro. Entre outras coisas, ela é a responsável pelos uniformes e aventais dos funcionários da casa. 

"Não queria que um restaurante de família fosse de um dono só. Faz muito sentido ser uma comunidade. Tem franceses, coreanos, jovens, sócios mais velhos, judeus e não judeus e todos já tinham uma relação com o Shoshana e o veem como um patromônio".

Desde que foi reaberto, há um ano, o Shoshana Delishop repensou pratos mas preza por preservar a história de uma cozinha que existe há 30 anos.

Para isso, o trio de sócios conversa frequentemente com a família Baruch e compartilharam as receitas originais com a chef e pesquisadora Clarice Reichstul, da Paca Polaca, uma das responsáveis pela seleção do Shoshana. Quem toca a cozinha no dia a dia é a chef Graziela Tavares.

Uma especialidade da matriarca da família Baruch que foi mantida é a shpondre, uma costela ponta de agulha cozida, servida com ferfele (tipo de massa puxada na gordura de frango com cebola caramelizada) e salada da casa.

Com menos cara de restaurante e uma atmosfera mais despojada, Benjamin define a nova versão do Shoshana como um boteco judaico paulistano. Um dos preceitos que permanece segue a orientação da tradição judaica, em que os preparos não levam nenhuma carne suína e nem frutos do mar.

No processo de atualização do menu houve também um cuidado para que a oferta de receitas vegetarianas e veganas fosse ampliada. No geral, o cardápio é enxuto, com entradinhas e pratos para compartilhar.

O visual do lugar é bem paulistano com piso feito de retalhos de azulejos, paredes brancas e fachada totalmente aberta para a calçada. O salão é preenchido com mesas pequenas, algumas fotos antigas, críticas enquadradas de jornais e (muitos) potes enormes de vidro onde os vegetais são mantidos como picles para serem desgutados pelos clientes.

Nas mãos de um grupo bastante criativo, o restaurante deve abrir a opção de encomendas no próximo mês e entrar no delivery até o fim deste ano, além de outras novidades que eles esperam soltar de tempos em tempos.

FORA DO HORÁRIO DE COMPRAS

Tradicionalmente conhecido pelas marcas de moda e muito movimentado pelas sacoleiras, o Bom Retiro há um bom tempo atrai outro público além do que chega ali para comprar.

Repleto de clássicos multiculturais, como o Pho.366 (vietnamita), Acrópolis (grego), Han Kang (coreano) e tantos outros, o Bom Retiro foi eleito o bairro mais descolado do Brasil pela Time Out, em 2019.

Em 2021, a região voltou a aparecer na lista da revista britânica, que considerou a rua Três Rios (na esquina da Shoshana) o 7º lugar do ranking das “ruas mais legais do mundo”.

De naturalidade francesa e morando no Brasil desde 2005, Benjamin descobriu o bairro em 2008, justamente por essa vocação multicultural e por meio dos centros culturais Oficina Cultural Oswald de Andrade e Casa do Povo.

Há dez anos trabalhando no endereço, Benjamin também já morou ali e hoje considera o melhor ponto de São Paulo para gostronomia e fica de olho em tudo o que acontece por lá.

"O Bom Retiro é uma das experiências mais completas do que é São Paulo. Não queremos ser o Jardins (bairro) e nem crescer, mas sim nos consolidar e trabalhar com o bairro, pensar no território, em ações de rua, unir instituições culturais e sociais", conclui.

IMAGEM: Shoshana Divulgação