Em Seul, 'cardápio' de produtos brasileiros conquista mercado asiático

Da cachaça aos dadinhos de tapioca, iniciativa do CECIEx e ApexBrasil, com apoio da SP Chamber, da ACSP, levou marcas produtoras à Seoul Food & Hotel 2023 para fechar negócios que devem movimentar US$ 6,69 milhões

Karina Lignelli
07/Ago/2023
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Em Seul, 'cardápio' de produtos brasileiros conquista mercado asiático

Se o k-pop e a gastronomia sul-coreana estão em alta por aqui, os produtos tipicamente brasileiros fazem sucesso no país asiático e foram destaque na Seoul Food and Hotel 2023, uma das maiores feiras de alimentos e bebidas da região, realizada na virada de maio para junho na capital coreana. 

A Coreia do Sul é um mercado desenvolvido, exigente, de alto poder aquisitivo, grande importador de alimentos e considerado a 7ª maior economia do leste asiático. E é aberta a novidades, como cachaça e dadinhos de tapioca, pão de queijo, café verde, cacau e chocolate de origem, açaí, mel, própolis, pimentas e suco de cajú.

Realizada pelo CECIEx (Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras) em parceria com a ApexBrasil, e apoio e participação da SP Chamber of Commerce, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a participação na feira de Seul deu seguimento à missão brasileira que passou por Dubai

"Juntamos as duas ações para otimizar tempo e custos dos empresários, e também ajudá-los a fechar mais negócios", afirma Glória Kang, gerente de comércio exterior da SP Chamber. 

Dentro do espaço Brazilian Suppliers, organizado pelas três entidades, 11 empresas brasileiras, que representaram 36 micro, pequenas e médias indústrias de sete estados (Amazonas, Bahia, Brasília, Goiás, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo), expuseram seus produtos.

Em três dias de evento, o saldo positivo ficou em 230 contratos comerciais realizados, US$ 380 mil em negócios fechados e previsão de movimentar US$ 6,69 milhões nos próximos meses.    

Com uma cozinha de degustação e um chef que montou um cardápio de produtos brasileiros cedidos pelos expositores, bartenders ensinaram a preparar e a beber caipirinha, já que a cachaça não é uma bebida conhecida no mercado coreano. Também foi servido pão de queijo frito em vez de assado, apresentação do produto mais aceita pelos consumidores locais. 

"Além de um mercado bastante exigente e de alto poder aquisitivo, a Coreia virou um país que dita tendência na Ásia", explica Gloria Kang. "É interessante porque, num evento como esse, você encontra desde importadores chineses, japoneses, tailandeses, vietnamitas, filipinos e de Hong Kong, a australianos e até alguns europeus." Ou seja, é possível fechar negócios com muitos outros mercados. 

Clientes da Arábia Saudita, Indonésia, Palestina e Turcomenistão também visitaram os estandes brasileiros como potenciais compradores, conta Maurício Manfré, assessor de relações internacionais da SP Chamber. E até fecharam negócios, mesmo sem ter o produto procurado em exposição.

Uma coisa positiva desses eventos, diz, é "atirar para um lado e acertar no outro" - como uma comercial importadora-exportadora que participou, não tinha o produto procurado (açúcar mascavo) em exposição naquele momento, mas indicou um outro fornecedor no Brasil que representa também, conta.

Ainda que o mercado seja aberto a novidades e interessado em produtos brasileiros, Manfré dá uma dica para quem quer fazer negócios com a Coreia: investir em relacionamento e em desenvolvimento de parceria, para o produto não ser apenas "interessante" ou "novidade", mas que entre e consolide sua imagem junto ao consumidor final naquele mercado. 

"Seja pão de queijo, café ou cachaça, são produtos que precisam de investimento para consolidação. O potencial de consumo é altíssimo, e esse é um público que paga por produtos brasileiros - e paga bem."

Também é um mercado que, apesar de sempre buscar inovação, atua dentro de práticas tradicionais de comércio e adota, como principal instrumento de negociação, a carta de crédito.

"Essa é a importância da construção da parceria comercial com o distribuidor de varejo: para que a Coreia se transforme, definitivamente, em um mercado-destino", completa. 

Gloria Kang lembra que o comprador coreano tende a ser um pouco impaciente. "Se ele tem uma demanda, dúvida ou espera amostras de mercadoria, seja rápido para não 'esfriar' a negociação."   

Luciana, da Ultramares, atende o chef de cozinha palestino Khaled Ahmed, que possui restaurante na Coreia: 'mercado não é para amadores', diz

Essa é a segunda vez que a delegação CECIEx, Apex Brasil e SP Chamber participa da Seoul Food & Hotel. A primeira, para testar a feira e o mercado, foi em 2017, no estande institucional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que participa há sete anos.

"Vimos que a feira era muito boa, tinha um mercado consumidor potencial muito forte, que demanda novidades e produtos de qualidade, e decidimos nos preparar", conta Gloria.

Todos os anos, a Seoul Food & Hotel leva, em média, 1,7 mil expositores e 37 mil visitantes do mundo todo ao Kintex (Korea International Exhibition Center), na cidade de Goyang (dados do MAPA). 

ALÉM DO MERCADO ASIÁTICO

As oportunidades que aparecem para o empreendedor em uma feira como a Seoul Food & Hotel não acontecem só relacionadas ao país-sede, mas também podem se estender para outros mercados em que a empresa pretende entrar, ou talvez nem planejava se inserir. 

Além de identificar o mercado que terá aderência ao seu produto, sempre visite feiras ou participe de missões no Brasil e no exterior e conheça o que a concorrência oferece, além de nível de preços e embalagem, diz Damaris Eugênia Ávila da Costa, presidente do CECIEx.

Para manter a fidelidade da clientela internacional, é preciso atender à risca suas necessidades quanto ao produto, embalagem, pontualidade e regularidade na entrega.

"Os clientes são muito sensíveis à fidelidade do fornecedor", afirma. "A empresa deve ter consciência que, uma vez inserida no mercado externo, deve dar segurança de fornecimento, independentemente das circunstâncias."

Priorizando pequenas empresas de agricultura familiar para a feira coreana, a comercial importadora-exportadora Ultramares levou cerca de 10 marcas para Seul, segundo a diretora-superintendente Luciana Guedes. Entre elas, indústrias e alambiques de cachaça, cooperativas de mel, produtores de chocolates de cacau selvagem do Amazonas e de snacks veganos. 

Lá, conta, atendeu compradores de diversos países e regiões, e com características diferentes do mercado coreano - como o chef de cozinha palestino Khaled Ahmed, proprietário do restaurante Petra, considerado referência gastronômica em Yongsan-gu (bairro conhecido por abrigar estrangeiros).

Ele se interessou por temperos Rabiy (da Bahia), molho de pimenta Virrosa (Amazonas) e mel do Vale do Una (da Cooperativa Coates, de Pernambuco).

Por isso, explica Luciana, é muito importante a quem quer entrar nesse mercado apresentar certificações de qualidade dos produtos de origem, ou embalagens e rotulagens adequadas ao público-alvo, "para mostrar capacitação, profissionalismo e compromisso com o negócio."

Na primeira participação da Ultramares no evento, o saldo, diz a trader, foi positivo, já que todos os produtos foram alvo de interesse. "Não fechamos pedidos, mas as negociações continuam, pois alguns precisam passar pelas barreiras de adaptação daquele mercado."

Ao destacar que questões como logística e falta de volume de produção impactam diretamente na competitividade de quem quer desbravar o mercado externo, Luciana alerta: atenção às tendências do mercado-alvo. "Afinal, o mercado internacional não é para amadores."

FOTOS E VÍDEO: SP Chamber of Commerce/ACSP

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