Como se chega lá

Se não formos capazes de tirar lições do grande estudo de caso histórico que é a Segunda Guerra, permaneceremos fora do mundo que sabe muito bem o que ela foi. E como se chegou a ela

Sérgio Paulo Muniz Costa
08/Mai/2019
  • btn-whatsapp
Como se chega lá

Perplexos com a falta de rumos do País, os brasileiros não têm tempo e paciência para se dar conta de que nesta quarta-feira, 8 de maio, comemorou-se o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Mas é bom que encontrem. Se não formos capazes de tirar lições do grande estudo de caso histórico que é a Segunda Guerra, permaneceremos fora do mundo que sabe muito bem o que ela foi. E como se chegou a ela.

Aliás, esse é o grande serviço que a causadora do conflito, a Alemanha, presta à humanidade, não se deixando esquecer do mal que fez a si mesma e ao mundo. Enquanto os alemães fizerem isso, podemos dizer que estamos mais seguros. Mas não apenas eles. Nós também devemos fazê-lo, habitantes desse tempo construído sobre os escombros da maior guerra da História.

A primeira condição para entendermos como a Alemanha desencadeou guerras mundiais em 1914 e 1939, assunto já abordado aqui por ocasião do centenário do armistício, é termos em muito boa conta o poder das ideias numa sociedade em crise.

Depois da derrota em 1918, devido ao desmoronamento do front interno causado pelo levante comunista de marinheiros em Kiel, instalou-se um regime politicamente débil, a República de Weimar (1919-1933), enquanto pipocavam insurreições de toda natureza, indo do golpe liderado pelo capitão Kapp à república bolchevista da Saxônia.   

Em meio à crise econômica marcada por uma das maiores hiperinflações da História, a Alemanha mergulhou durante a década de vinte em um período de grande instabilidade política, no qual se destacou a tentativa de golpe de Hitler, em Munique (1923) que o catapultou à fama.

E para anuviar o panorama social já complicado, a crise mundial de 1929 se encarregou de liquidar a estabilidade econômica alcançada em meados da década.

Assim, no início dos anos 30, era fácil para os alemães, assustados com a desordem, desesperançados de um futuro melhor e irritados com seus políticos, debitarem todo mal que lhes afligia à República de Weimar, na verdade, desde o seu início, uma república sem republicanos.

Sobre o clima da Alemanha nesse período, Karl Jaspers, o filósofo e psicólogo da complementaridade entre as pesquisas filosófica e científica, escreveu a obra luminar sobre o que se passava em seu país “A Situação intelectual deste tempo” (1931), alertando sobre os riscos do mergulho na irracionalidade e no niilismo.

Mas a essa altura, como apontou Lionel Richard (A República de Weimar, Companhia das Letras, 1988), “a ofensiva dos ideólogos nazistas” já tinha impulso muito maior.

Desde 1929, a Liga para a Defesa da Cultura Alemã, fundada por Alfred Rosenberg, ataca o “bolchevismo cultural: isto é absolutamente todas as obras e os autores que não cantam o sangue e solo alemães”.

No mesmo ano que Jaspers publicava sua obra premonitória, o “pseudofilósofo” Rosenberg lançou o livro “O mito do século XX” (1931),  “uma cômica mistura de suas confusas ideias... impingidas como fruto daquilo que passava por erudição nos círculos nazistas” (Ascensão e Queda do Terceiro Reich, William Shirer, 1964).

 
*Hitler cumprimenta Hindenburg

Quando, em 30 de janeiro de 1933, Hitler se tornou Chanceler (na Alemanha equivalente a Primeiro-Ministro) ele já dispunha de uma base ideológica consolidada com alguma penetração na sociedade alemã.

Daí por diante, movendo-se com impressionante oportunismo e implacável determinação, o Cabo Adolfo foi cooptando, descartando, ultrapassando, desmoralizando, intimidando, comprando, enganando, calando e matando quem quer que se colocasse no seu caminho, até antigos e fieis aliados.  

Apenas quatro dias depois (2 de fevereiro) de ter assumido o cargo de Chanceler, Hitler fez um discurso de duas horas para generais e almirantes garantindo-lhes os meios para o ressurgimento militar do país.

Em mais alguns dias, a 27 de fevereiro, um misterioso incêndio atingiria a sede do Reichstag, o parlamento alemão, servindo o episódio como pretexto para as medidas de exceção do Decreto de Proteção do Povo e do Estado.

 

No dia 21 de março, na cerimônia  de abertura do parlamento orquestrada pelo seu ministro da propaganda Goebbels na Igreja da Guarnição de Potsdam, o que se viu foi um Hitler submisso e respeitoso, cumprimentando o presidente da República, o venerado Marechal Hindenburg.

O golpe final no que ainda restava de democracia na Alemanha veio logo em seguida, a 23, quando à custa de muita intimidação e truculência, o parlamento dominado pelos nazistas aprovou, por 441 votos a favor e 84 contra, a Lei para Eliminação do Perigo contra o Povo e o Estado.

Em 14 de outubro, concluindo o ano da revolução nacional-socialista, Hitler retirou a Alemanha da Liga das Nações, a ONU da época; dissolveu de vez o parlamento; colocou exército e marinha em alerta face a possíveis retaliações dos aliados; e convocou um plebiscito, no qual obteve a aprovação, por mais de 90% dos alemães, às suas medidas.

20 de abril de 1939: Hitler cumprimentado por membros do governo nazista em seu 50o aniversário

No ano seguinte, 1934, Hitler consolidou seu poder.

Concluiu o infame pacto com os chefes militares pelo qual, depois da morte do Marechal Hindenburg o cargo de presidente seria extinto, driblando assim os monarquistas que confiavam na restauração do seu regime após a morte do velho herói leal ao Kaiser.

E explorando a insatisfação da população e das forças armadas com os arruaceiros das tropas de assalto S.A., desfechou a 30 de junho o golpe de força bruta que passou à História como a Noite das Facas Longas, durante o qual massacrou generais e membros do partido,  prendendo e neutralizando ainda seu Vice-Chanceler e outros políticos. Sem enxergar o significado do ocorrido, militares e juristas apoiaram o golpe e a sociedade se calou.

Quando Hindenburg morreu em 2 de agosto, os cargos de Chanceler e Presidente foram unidos na figura do Führer, a quem, a partir de então os oficiais das forças armadas foram obrigados a prestar juramento de fidelidade pessoal.      

Foi assim, pela trajetória do homem cercado por uma aura mítica de infalibilidade, que a Alemanha chegou lá: ao poder total que levou à sua perdição.

---------------

*21 de março de 1933: Hitler cumprimenta o presidente Marechal Hindenburg, herói militar da 1a Guerra Mundial, na missa da Igreja da Guarnição de Potsdam, evento de propaganda cuidadosamente montado por Goebbels para marcar a abertura do parlamento alemão depois do incêndio de sua sede em 27 de fevereiro

 

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

 

 

 

 

 

Indicadores Econômicos

Fator de Reajuste

ÍNDICE
Mai
Jun
Jul
IGP-M
1,1072
1,1070
1,1008
IGP-DI
1,1056
1,1112
1,0913
IPCA
1,1173
1,1189
1,1007
IPC-Fipe
1,1227
1,1169
1,1073

Indicadores de crédito Boa Vista

Índice
Abr
Mai
Jun
Demanda por crédito
-4,3%
-2,1%
-1,9%
Pedidos de falência
--
--
--
Movimento do comércio
1,1%
1,5%
-0,8%
Inadimplência do consumidor
5,0%
7,5%
-0,6%
Recuperação de crédito
1,8%
-5,6%
2,4%
mais índices

Vídeos

Tarcísio de Freitas participa de ciclo de debates promovido pela ACSP

Tarcísio de Freitas participa de ciclo de debates promovido pela ACSP

Felipe d’Avila, do Novo, foi sabatinado por empresários na ACSP

Márcio França fala em fim da ‘tiriricação’ da política

Colunistas