A decadência do rock e o Centro de SP

Para amigos nostálgicos, o declínio do rock parece coincidir com a degradação da região central da cidade. Contudo, ainda há rock bom sendo feito por aí; assim como há muita coisa nova e interessante para se ver e fazer no centro de São Paulo

Vitor França
08/Abr/2024
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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A decadência do rock e o Centro de SP

“Cara, pode falar o que quiser, mas não se faz mais música boa como antigamente”, afirmou na mesa do bar um amigo ainda embalado pelo terceiro ou quarto show de despedida dos Titãs.

“Lembram quando fomos ao show do Acústico MTV?”, emendou outro. “Por sinal, baita saudade daquela época, quando íamos de Osasco até o centro de São Paulo, de ônibus, depois da aula, e passávamos o dia caçando cd´s na Galeria do Rock. Triste a situação atual, acabaram com o centro...”.

Antes que a conversa desandasse para um saudosismo meio deprimente, praquele papo de que no passado era tudo melhor (doce ilusão...), resolvi interferir.

“Também tenho meus momentos nostálgicos, sei como é, mas não sei dizer se a saudade é propriamente das coisas, músicas e lugares daquele tempo ou simplesmente da nossa juventude, do tempo todo que ainda tínhamos pela frente...”. 

“Que seja”, rebateu o primeiro amigo, contrariado. “De qualquer forma, desafio você a me apresentar uma única música boa lançada, sei lá, nos últimos dez anos”.

Coloquei então para tocar no celular “Dias da Juventude”, do excelente álbum “Gêmeos” lançado em 2022 pela banda paulistana Terno Rei. Não sei dizer se era o excesso de álcool ou a pegada também nostálgica, oitentista da canção, mas os olhos do segundo amigo se encheram de lágrimas – ok, talvez eu tenha exagerado nas lágrimas; mas a canção é ótima e até meu filho de quatro anos, que virou fã, vive me pedindo para colocar a música da “cabeça na lua”.

Não há como negar que, após o auge nas décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000, o rock brasileiro – e internacional – perdeu popularidade entre as novas gerações para gêneros como rap, pagode, sertanejo, funk, k-pop. Menos bandas de rock surgem atualmente em comparação com o passado, as que surgem recebem menos destaque; o que não quer dizer que não haja coisa muito boa no circuito alternativo, como é o caso do Terno Rei.

No clipe de outra ótima canção da banda, “Solidão de Volta” (do álbum “Violeta”, de 2019), temos belas imagens do centro de São Paulo, claramente degradado, é verdade, mas ainda assim vivo, misterioso, interessante, o caos das lojas de eletrônicos na Santa Ifigênia, a linda Estação da Luz, a horrível Avenida Tiradentes, sob a Passarela das Noivas, em contraste com o mural no estilo pop art (recentemente apagado) na empena de um prédio, a beleza e a riqueza da Pinacoteca, a vista da Praça Roosevelt e da Igreja da Consolação do alto de um apartamento vazio, os mercadinhos orientais, os restaurantes e as ruas da Liberdade, o Metrô.

Num domingo recente, por sinal, fomos nossos filhos, minha esposa e eu até o centro. Almoçamos no Bar da Dona Onça – comandado pela Janaína Torres, eleita recentemente a melhor chef do mundo –, passamos na Megafauna para comprar um livro e depois caminhamos até o Sesc 24 de Maio, onde curtimos o espaço de brincar com as crianças, fizemos bonecos de cabaça, assistimos a um divertido show de circo e ainda nos refrescamos no surpreendente espelho d’água que cerca o Jardim da Piscina, todo ele aberto para o centro decadente de São Paulo.

Jardim da Piscina do Sesc 24 de Maio, inaugurado em 2017 (Imagem: SescSP)

 

O térreo do Copan, onde ficam o Bar da Dona Onça, a livraria Megafauna e outros bares, lojas e restaurantes, estava cheio de gente. Já a caminhada dali até o Sesc 24 de Maio pode mesmo ser, digamos, desconfortável para quem não está acostumado ao centro. Não exatamente por falta de segurança – foram instaladas recentemente duas bases da polícia, uma na Praça da República e outra bem em frente ao Sesc; o que falta, na verdade, é mais gente circulando por ali.

Foi durante aquela curta caminhada que me lembrei do meu amigo nostálgico falando que “acabaram com o centro”, assim mesmo, na terceira pessoa do plural, utilizando o sujeito indeterminado na oração – e ele, veja só, nem se lembrava da última vez que tinha passeado por lá.

É claro que a região ainda sofre com problemas relacionados à violência, sensação de insegurança, prédios vazios, cracolândia, moradores de rua, o que tende a afastar frequentadores. Ao mesmo tempo, não podemos ignorar o fato de que também nos tornamos parte do problema quando deixamos de frequentar a área mais valiosa (em termos afetivos, históricos e arquitetônicos) da cidade.

E não deixamos de frequentar apenas por medo, mas também por um certo “aburguesamento” dos costumes. Ao que parece, os rebeldes paulistanos que outrora cantavam Mutantes agora se tornaram essas pessoas da sala de jantar, dos shoppings centers e dos condomínios-clubes ocupadas em nascer e morrer.

Os desassossegados que curtiam o Rappa e se aventuravam pelas ruas agora se escondem atrás das grades do condomínio, sentados na poltrona no dia de domingo procurando novas drogas para assistir na Netflix.

Os malucos beleza que só andavam de ônibus, trem e metrô, que sabiam que um Corcel 73 não lhes traria a felicidade, agora não abrem mão do conforto de suas SUV´s grandes e poluentes.

Pensando nisso, num dia de folga convidei meus amigos para almoçarmos no centro e depois darmos umas voltas pela Galeria do Rock. “Ainda tem alguma coisa de rock por lá?”, um perguntou. Sim, e como tem. Além do prédio lindo, aberto para a cidade e muito bem conservado, não só há muitas lojas dedicadas a artefatos relacionados ao gênero musical como talvez tenhamos ali um dos conjuntos de itens e vitrines mais interessantes e inusitados que você encontrará na cidade.

Galeria do Rock: há muito menos lojas de discos e cd´s do que no passado (embora haja algumas), é claro, mas ainda há muitas vendendo itens de vestuário e todo tipo de artefato relacionado ao gênero musical (Imagem: saopaulo.com.br/galeria-do-rock-sp/)

 

É claro que há muito menos lojas de discos e cd´s do que no passado (embora ainda haja algumas), e a maioria hoje se dedique a vestuário e itens diversos relacionados ao rock, além de muitos estúdios de piercing e tatuagem. A pegada rock’n’roll, porém, segue firme e forte, e a Galeria, que também conta hoje com uma pequena (mas ótima) lanchonete de hambúrgueres e cervejas artesanais, acaba de inaugurar seu novo bar oficial, localizado no subsolo e inspirado nos anos 90 da cidade – um prato cheio para os nostálgicos, portanto. Vale a visita!

O rock perdeu espaço, é verdade, mas segue vivo e se renovando, ainda que mais nichado (a Galeria do Rock e bandas como a paulistana Terno Rei estão aí para comprovar isto). No mais, parte do declínio do rock'n'roll – e do centro – talvez se deva ao fato de que nós, millennials, também estejamos menos rock'n'roll, mais aburguesados, suburbanos.

Sobre a decadência do centro, em particular, somos parte do problema e, consequentemente, parte da solução. De nada adianta apenas reclamarmos do seu estado de abandono se fomos nós mesmos que o abandonamos. Medidas que aumentem a segurança e levem moradia para lá são necessárias e já estão sendo implantadas. Complementarmente a elas, precisamos fazer a nossa parte e voltar a frequentar mais a região, a pé, à toa, conforme fazíamos nos dias da juventude...

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

IMAGEM: Paulo Pampolin/DC

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