Inovação

Quem quer ser um unicórnio?


Em tempos de startups que transformam ideias simples em soluções disruptivas, a vice-presidente da ACSP Alessandra Andrade (acima) indica o caminho das pedras para se adaptar à nova realidade - e, quem sabe, ter sua empresa avaliada em US$ 1 bilhão


  Por Karina Lignelli 08 de Outubro de 2019 às 09:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


99 Táxis e o Nubank foram as primeiras a entrar. Mas a Movile e o iFood, a Stone, a Arco, a Gympass e, mais recentemente, a PagSeguro, a Ascenty e a Loggi já fazem parte do seleto clube de startups brasileiras avaliadas em um US$ 1 bilhão - ou unicórnios, empresas de modelo inovador e tecnológico com alto potencial de crescimento.

Embora não sejam necessariamente lucrativas, elas já atingiram o break even - um sinal de que conseguem andar com as próprias pernas, o que as torna mais valiosa para os investidores. E para o mercado em geral, claro.

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Nem toda startup vai se tranformar em um unicórnio - mesmo porque uma das principais características do modelo é se arriscar mais, procurar corrigir o erro rapidamente, se preparar para alterar metas do dia para noite e, algumas vezes, nem sempre ser bem sucedida e ter que voltar à estaca zero. Ou, fazer uma nova tentativa de emplacar.

Mas, para quem quer empreender, ou pelo menos adaptar o seu modelo de negócio, como se destacar nessa nova realidade não-binária, disruptiva e cheia de nuances? Potencializando características comportamentais como fatores de sucesso, apontou Alessandra Andrade, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) nas áreas de relação com a juventude e inovação, em sua palestra "O perfil do novo empreendedor em tempos de unicórnio", ministrada na última segunda-feira (07/10) na Arena do Conhecimento da Feira do Empreendedor do Sebrae-SP.

Com amplo currículo não só como empreendedora, mas como mentora de startups e diretora e empreendedorismo do FAAP Business Hub, entre outras atividades correlatas, o novo desafio de Alessandra é trazer esse novo mundo para a centenária ACSP, e "sem perder o DNA de brigar pelos interesses quem já segue ou quer seguir esse caminho."  

Para dar uma ideia desse novo cenário onde disrupção é a chave, ela cita o conceito de "mundo VUCA", uma abreviação usada pelo US Army War College desde os anos 90, para explicar como as organizações e os profissionais - em especial os jovens millenials - devem se preparar para um ambiente de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (o tal "v.u.c.a", na sigla em inglês).

"Agora, a única certeza é que tudo vai mudar, e que o futuro não é mas uma derivação do passado", diz. 

De olho nesse futuro aparentemente fatalista, onde 70% dos empregos de entrada estão em risco de serem automatizados, e 60% dos jovens estudam para profissões que serão alteradas pela tecnologia, o Fórum Econômico Mundial de Davos passou a estudar, a partir de 2015, as características comportamentais que levam ao sucesso.

"Foi quando se percebeu que nada mais seria como antes, e que, daí em diante, teríamos que nos reinventar para  empreender nosso futuro, sejamos emprendedores ou não", afirma.  

Daí começou a ser delineado o novo "perfil de empreendedor em tempos de unicórnio": o que mescla competências (saber fazer), motivação (querer fazer) e criatividade (fazer mais com menos), com metas claras e desafiadoras (porém alcançáveis). E quando o conceito de hard skill (habilidades que podem ser medidas, identificadas e testadas) deu lugar ao soft skill (habilidades subjetivas, adquiridas ao logo de anos de aprendizado, que interferem nas relações pessoais). 

Para ilustrar essa mudança, Alessandra cita uma "frase clichê" em RH, segundo suas próprias palavras, que diz que um profissional é contratado pela competência, mas  despedido pelo comportamento. "Mas hoje já se sabe que esse é o valor mais importante como fator de sucesso", destaca ela, citando outra frase - desta vez, do escritor russo Dostoiévski - para exemplificar como o comportamento e a atitude fazem diferença na trajetória empreendedora. 

"'As gaiolas são os lugares onde as certezas moram'", menciona. "Portanto, criem asas mesmo que o voo seja curto, pois elas são fundamentais na construção de características essenciais para se tornar bem sucedido." 

A seguir, a vice-presidente da ACSP e diretora da FAAP Business Hub lista as principais competências empreendedoras para quem almeja entrar para a mitologia dos negócios: 

VISÃO Um trabalho mental que liga o hoje ao amanhã, criando o futuro a partir de uma montagem de fatos, esperanças, sonhos, oportunidades e uma boa dose de intuição.

EMPATIA É a habilidade que permite ler as pessoas, se colocando no lugar do outro para entender diferentes perspectivas.

COMPROMETIMENTO Estar disposto a se sacrificar ou despender esforço pessoal fora do comum para concretizar um objetivo. 

PROATIVIDADE Pessoas proativas definem seus próprios rumos, não ficam esperando as coisas acontecerem, independente do ambiente externo. "Falta de recurso não é desculpa. O importante é 'querer' fazer", diz Alessandra.  

ENERGIA Empreendedores não gostam de perder tempo. Sabem que as coisas não acontecem simplesmente. "Eles arregaçam as mangas e fazem o que precisa ser feito."

FOCO  O empreendedor não se perde no emaranhado de oportunidades. Sabe priorizar e concentra-se no que é importante.

RESPONSABILIDADE Empreendedor que se preze busca mudar o ambiente em que está inserido. E se sente responsável pela condição de vida de todos os que, de alguma forma se relacionam com ele. 

LIDERANÇA  É quando se é capaz de agregar pessoas ao redor e movê-las em direção aos objetivos determinados pelo líder. Principalmente em um mundo em que a conectividade aproxima e afasta ao mesmo tempo. "Em resumo, ser líder não significa ter a maior quantidade de seguidores, mas sim o quanto se consegue inspirá-los", afirma a vice-presidente da ACSP.

NETWORKING Associar-se a pessoas-chave, criando uma rede de contatos, desenvolvendo e mantendo relações sociais e comerciais que vão colaborar para o sucesso da sua empreitada. 

PERSONALIDADE O empreendedor deve saber defender seus pontos de vista, estar disposto a lutar por eles e ter voz para sustentá-los. 

RESILIÊNCIA Not today (ou "hoje não"). Alessandra citou a icônica série Game of Thrones usando a frase do personagem Syrio Forel, espadachim e instrutor da princesa Arya Stark, sobre o que se diz para a Morte - ou para ilustrar para quem empreende que os obstáculos existem não para serem contemplados, mas sim ultrapassados.

"Quanto maior o obstáculo, maior o desafio. O Abilio Diniz costuma dizer que não erra, e é nisso em que devemos nos basear: eu não erro, só demoro para dar certo", afirma. "Afinal, errar faz parte do processo de aprendizado."

FLEXIBILIDADE É a capacidade de analisar e avaliar rapidamente determinada situação e reagir a ela, fundamentada na razão. "Afinal, é melhor feito do que perfeito - uma frase clichê, mas que se encaixa totalmente nessa situação", afirma.

CALCULAR RISCOS O empreendedor avalia corretamente as situações, e busca ter estratégias alternativas para minimizar os riscos e controlar os resultados.

CRIATIVIDADE Sempre buscar novas formas de satisfazer o clientes. Muitas vezes, criando até novas necessidades.

INDEPENDÊNCIA Assumir a posse completa da sua vida e dirigir-se para os objetivos que escolheu, sem permitir que influências externas o desestimulem ou desencaminhem. "Não adianta subestimar o capital ou dizer que não precisa de dinheiro, como já ouvi de muitos empreendedores em negócios de impacto social", afirma Alessandra. "O dinheiro traz independência - parte fundamental do liberalismo e da livre iniciativa para ser um empreendedor de sucesso."

AUTOCONFIANÇA Direto ao ponto: o sucesso não ocorre se você subestima o seu próprio valor. 

MOTIVAÇÃO Os verdadeiros empreendedores são entusiamados, apaixonados por aquilo que fazem. Dedicam suas vidas a uma ideia que, em determinado momento, se torna um ideal. "Sempre sonhe grande, mas coloque metas factíveis e nunca perca a visão do todo", orienta. 

MAGNETISMO Está relacionado ao volume de sentimentos, de caráter e de emoção que um empreendedor é capaz de gerar e aplicar em suas palavras, atos e postura. "É saber vender, comunicar, engajar e ser envolvente", afirma Alessandra. 

OTIMIZAÇÃO Utilizar recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos de maneira racional e organizada, buscando sempre maximizar o seu desempenho. 

OTIMISMO "É a crença firme que o empreendedor tem de que pode fazer com que as coisas acabem bem", conclui Alessandra. Anotado? Mãos à obra. 

FOTO: Karina Lignelli