Brasil

Guardia assume Fazenda cercado por receios


De perfil discreto, Eduardo Guardia se transformou numa espécie de "Sr. não" nas negociações políticas com o Congresso; temor é que ele não tenha a mesma autonomia que Meirelles


  Por Estadão Conteúdo 10 de Abril de 2018 às 09:20

  | Agência de notícias do Grupo Estado


O risco de isolamento da nova equipe econômica é a principal preocupação no Ministério da Fazenda.

O temor é que o ministro Eduardo Guardia não tenha canal de comunicação com o Palácio do Planalto e a mesma liberdade de ação que o seu antecessor Henrique Meirelles, que deixou o cargo para tentar viabilizar sua candidatura à Presidência. 

Guardia será efetivado nesta terça-feira (10/04), como ministro da Fazenda em cerimônia no Palácio do Planalto.

Por enquanto, integrantes do primeiro escalão do ministério, que chegou a ser apelidado de "dream team", seguem com Guardia na Fazenda, mas baixas mais à frente estão no radar e ficam dependentes da articulação do governo para manter a direção de política econômica e barrar novas perdas de receitas e aumento de despesas.

A avaliação de integrantes do primeiro escalão da equipe econômica é a de que o protagonismo do Ministério da Fazenda não é mais o mesmo do início do governo e pode diminuir ainda mais.

Uma das cotadas para assumir a secretaria executiva do ministério é a secretária do Tesouro, Ana Paula Vescovi, que também não tem trânsito muito bom com parlamentares da base de governo, o que poderia dificultar o diálogo com o grupo de ministros mais próximos do presidente Michel Temer e aumentar ainda mais a resistência às medidas de contenção das despesas.

A perda de receita significa revisão do Orçamento não só de 2018, mas também em 2019. A meta indicativa de déficit de R$ 139 bilhões para o ano que vem, que contava com uma folga de R$ 10 bilhões, poderia cair para um déficit de R$ 129 bilhões, mas já não há mais espaço agora para essa melhora.

A meta indicativa deverá se referendada no envio ao Congresso na sexta-feira do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o ano que vem.

Os técnicos do ministérios do Planejamento e da Fazenda defendem a manutenção dessa meta, que não considera receitas atípicas que dependem de decisões de política econômica ainda não aprovadas.

Além do impacto dos vetos na arrecadação em 2018, o governo perdeu receitas também em 2019, valor que, num cálculo preliminar, supera R$ 10 bilhões.

A equipe econômica também já não pode contar em 2019 com a arrecadação de R$ 2,2 bilhões com a Medida Provisória que elevava de 11% para 14% a contribuição previdenciária dos servidores. A MP perdeu validade. Também caducou a MP que eleva a tributação de fundos de investimentos exclusivos para investidores de alta renda.

QUEM É GUARDIA

De perfil discreto, Guardia se transformou numa espécie de "Sr. não" nas negociações políticas com o Congresso.

Para fechar o cofre do governo, ele bateu de frente, nos últimos meses, com os aliados do presidente ao buscar restringir as vantagens concedidas aos partidos aliados, principalmente nas negociações para aprovação dos cinco Refis (parcelamento de débitos tributários).

Também teve papel importante nas negociações para os Estados em dificuldade financeira e foi decisivo para barrar um socorro de R$ 600 milhões para o Rio Grande do Norte, o que evitou uma fissura no time econômico.

Por essa razão, já foi "demitido" diversas vezes por políticos no próprio gabinete. A postura linha-dura levou à resistências dos políticos à indicação do ministro Meirelles para substituí-lo.

Além disso, o número 2 da Fazenda sempre foi visto como um nome do PSDB. Ele foi secretário do Tesouro no governo Fernando Henrique Cardoso e depois de secretário de Fazenda de Geraldo Alckmin, em SP.

 

FOTO: Beto Barata/PR