Que tal fecharmos a Rua Palestra Itália para carros?

Ruas para pedestres são uma tendência em muitas das principais cidades do mundo, como Nova York, Paris e Barcelona

Vitor França
08/Jun/2023
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Que tal fecharmos a Rua Palestra Itália para carros?

Antes de começar o artigo, peço um pouco de paciência ao leitor por ter que se deparar logo de cara com uma proposta tão específica, de fechar para carros a Rua Palestra Itália, que aparentemente em nada afeta a vida de quem não mora na Pompeia e arredores ou não costuma frequentar o estádio do meu amado Palmeiras (Avanti, Palestra!).

Uma frase famosa do escritor russo Liev Tolstói, contudo, diz que “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Da mesma forma, acredito que podemos tratar de questões comuns a diversas regiões de São Paulo a partir da análise mais profunda do nosso bairro, que conhecemos melhor por lá passar a maior parte do nosso tempo.

Em outro artigo aqui no Diário do Comércio (“Que tal testarmos novos usos para os parklets em São Paulo?”), comentei que, apesar de o bairro da Pompeia ser arborizado e muito bem servido de transporte público, comércio e serviços, “sinto falta de uma praça para ir a pé por ali, de uma área pública ao ar livre, com brinquedos, para frequentar no dia a dia com as crianças”.

Naquele artigo, a solução que propus foi testarmos novos usos para os parklets, já bastante disseminados entre bares e restaurantes de São Paulo. Caminhando dia destes pelo bairro, no entanto, me veio uma ideia um pouco mais ousada: por que não transformamos logo trechos das ruas Palestra Itália, Diana e Caraíbas, que já costumam ficar fechados para carros em dias de jogos e shows no Allianz Parque, em um espaço público para as pessoas?

Antes que comecem a me atirar pedras, repito aqui o mantra do nosso maestro Abel Ferreira: cabeça fria e coração quente, pessoal. A ideia, afinal, não me parece nem um pouco absurda e segue uma tendência observada pelo mundo todo como parte de um conjunto de medidas para diminuir a poluição atmosférica, os acidentes de trânsito, combater a crise climática e tornar as cidades lugares melhores para se viver.

Um dos casos mais famosos é a pedestrianização da Times Square, em Nova York. Embora inicialmente, lá em 2009, muitos criticassem a medida, ela foi um tremendo sucesso, com queda do número de acidentes de trânsito, expressivo aumento da quantidade de visitantes e, consequentemente, crescimento do movimento do comércio local. Em Paris, a Rive Gauche, uma autopista na orla do Rio Sena, se tornou uma via exclusiva para pedestres e bicicletas. Já Barcelona está colocando em prática um ambicioso projeto de transformar grande parte das ruas da região central da cidade em áreas verdes sem carros. O próprio fechamento da Avenida Paulista aos domingos e do Minhocão aos finais de semana já mostra o potencial deste tipo de medida em São Paulo.

Ok, Vitor, mas por que, especificamente, os trechos ali no entorno do Allianz Parque?

Em primeiro lugar, porque a região tem alta densidade demográfica e vejo demanda por espaços públicos de permanência e convivência por ali, de preferência com muito verde, boa iluminação e mobiliário urbano para todas as idades e diferentes usos.

Em segundo lugar, porque o local já costuma ser frequentemente fechado para carros em dias de jogos e shows, inclusive em dias úteis; ou seja, as mudanças necessárias no tráfego da região já foram testadas e implementadas. Sem dizer que em breve será inaugurada uma estação de metrô muito perto dali, o que tende a diminuir ainda mais a necessidade do carro para quem circula pela região.

Além disso, já é proibido estacionar em praticamente todos os trechos a que me refiro, o que tende a diminuir a resistência do comércio local e dos moradores à implementação da medida – e é claro que o acesso de carro ainda seria permitido para moradores e hóspedes do hotel na Palestra Itália.

Em terceiro lugar, pelo potencial turístico e comercial representado pela proposta. Com todo respeito aos meus colegas corinthianos e são-paulinos, mas o entorno do estádio do Palmeiras é de longe o mais interessante da capital. Para quem não conhece, ele conta com vias relativamente estreitas (a Palestra Itália, a Diana e a Caraíbas, em particular), repletas de bares, restaurantes e lojas pintadas de verde e branco que comercializam todo tipo de produto relacionado ao time. Assistir aos jogos do Palmeiras por ali – mesmo fora do estádio, portanto – já é uma experiência mais do que especial.

As vias fechadas para os carros, mais arborizadas, iluminadas e com mobiliário urbano adequado, assim, seriam um atrativo adicional para quem vem de todos os cantos do Brasil e do mundo conhecer a “casa” do maior campeão da história do futebol brasileiro.

Além do estádio, na Rua Palestra Itália também está uma das entradas do Bourbon Shopping, hoje um bunker cercado por grades e muito pouco integrado ao entorno, com uma medonha rampa de estacionamento em caracol que chega a ofender o prédio do Sesc, obra prima da Lina Bo Bardi do outro lado da Avenida Pompeia. A mudança no uso do espaço da rua, assim, também poderia passar pela maior integração do shopping, com adoção de fachada ativa, por exemplo, com lojas e restaurantes voltados para a rua.

Ah, Vitor, mas no Brasil este tipo de coisa não dá certo... Pois é, este é o tipo de frase que ouvimos muito quando o português Abel Ferreira assumiu o comando do time em 2020; e desde então, como todos sabem, estamos vivendo uma das fases mais vitoriosas e apaixonantes da história do Palmeiras.

Não que técnicos ou ideias estrangeiras sejam melhores ou piores, nada disto. O que a chegada do Abel Ferreira e sua comissão técnica representou foi uma conjunção bem rara de vários aspectos que envolvem um time de futebol, dos técnicos e táticos aos emocionais, da motivação dos funcionários do clube até o envolvimento da torcida.

Entendo que, de forma semelhante, a região das ruas Palestra Itália, Diana e Caraíbas também reúne um conjunto bem peculiar de características que podem levar ao sucesso da pedestrianização do espaço. Como já disse, trata- se de uma área bastante adensada em termos populacionais, frequentada por diferentes classes sociais e que já costuma atrair recorrentemente fluxos muito grandes de pessoas; é também uma região muito rica em comércio e serviços, com fácil acesso ao transporte público (que ficará ainda melhor com a inauguração da Estação Sesc-Pompeia da Linha 6-Laranja do metrô); e o local ainda possui história e identidade muito particulares ligadas ao Palmeiras.

Em Nova York e Paris, as medidas inicialmente enfrentaram muita resistência, especialmente por parte dos motoristas, mas hoje é até difícil acreditar que a Times Square e a orla do Sena um dia foram lugares para carros. Em ambos os casos, porém, a requalificação dos espaços não foi realizada de uma só vez.

Em Nova York, praças temporárias foram inicialmente instaladas em uma parte da Avenida Broadway, com fechamento do trecho para carros. Após o sucesso da medida, ela foi ampliada e tornou-se permanente. Em Paris, a medida teve início com o projeto Paris Plages, que envolvia o fechamento da via durante um mês do verão para transformá-la em uma praia artificial.

Que tal, então, ao menos fazermos um teste e fecharmos trechos das ruas do entorno do Allianz Parque para carros e disponibilizarmos mobiliário urbano por um determinado período, conforme já é feito aos fins de semana no Minhocão? Não precisa ser agora. Podemos estudar um projeto urbanístico para ser testado, quem sabe, logo após a inauguração da estação do metrô, prevista para 2025.

Na pior das hipóteses, se a medida não for bem-sucedida, não tiver aprovação da população e do comércio local, simplesmente voltamos atrás e deixamos tudo novamente como já está atualmente.

Se ela for bem-sucedida, por outro lado, o futuro “Boulevard Palestra Itália” pode ser um importante passo para pensarmos em mais intervenções semelhantes em muitas outras áreas da cidade, o que vai colaborar para transformar São Paulo em um lugar melhor para se viver.

Para conhecer o Allianz Parque e arredores:

Avenida Francisco Matarazzo, 1705, Rua Palestra Itália, 200 – Água Branca. Além de jogos do Palmeiras e espetáculos musicais, é possível fazer um tour pela arena, com visita ao gramado e aos vestiários, realizar compras na loja oficial do clube e ainda comer em restaurantes como o Nagairô, o Braza e o La Coppa.

As ruas Palestra Itália, Diana e Caraíbas contam com diversos bares, restaurantes – muitos fazem referências a ídolos históricos do Palmeiras – e lojas pintadas de verde e branco que comercializam todo tipo de produto relacionado ao time.

Destaque para a Pizzaria Leggera (Rua Diana, 80), reconhecida recentemente pelo “50 Top Pizza World” entre as 100 melhores pizzarias do mundo.

 

IMAGEM: Allianz Parque/divulgação

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