Para presidente da CDHU, repovoar o centro de SP depende do comércio

Criar mais moradias de interesse social de uso misto, como a Júlio Prestes (acima), depende, entre outras questões, de qualificar o comércio de empreendedores locais. ACSP será parceira da CDHU no processo

Karina Lignelli
19/Mar/2020
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Este ano, o Complexo Júlio Prestes, residencial criado na região da Luz como parte do projeto de revitalização do Centro da capital paulista, chega ao quarto ano de operação habitado por 900 famílias. 

O projeto-piloto acabou por levar especialistas a concluírem que o comércio local, qualificado e gerador de emprego e renda, é extremamente importante para garantir a manutenção da qualidade de vida de conjuntos habitacionais de interesse social (ou, no caso acima, para famílias com renda mensal de até R$ 4.344).

A partir de agora, essa qualificação será feita por quem entende tanto de comércio como de empreendedorismo: a Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

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Os aprendizados dessa PPP (parceria público-privada), além da inclusão do comércio em futuros projetos do tipo, foram temas da palestra "Empreendimentos de habitação de interesse social de uso misto: o desafio das atividades comerciais no térreo das habitações", apresentada por Reinaldo Iapequino, presidente da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), na ACSP

A reunião conjunta do Núcleo de Estudos Urbanos (NEU), do Conselho de Política Urbana (CPU), da entidade foi coordenada por Antonio Carlos Pela, vice-presidente de relações municipais da (ACSP) e coordenador do conselho. 

Segundo Iapequino, a repovoação das áreas centrais passa não só pela questão habitacional, mas também pelos equipamentos de comércio, que são geradores de emprego e renda. E inclui outros projetos, como o de atuação em cortiços, o de reassentamento ambiental na Serra do Mar e o de urbanização Guarulhos C-Pimentas. 

"Nesse aspecto, a ACSP terá um papel fundamental na formulação dos mixes de operação, em capacitar os comerciantes locais para começarem a atuar de uma maneira mais propositiva, no sentido de qualificar as discussões com o poder público, para fazer com que a gente corrija alguns rumos", destaca.  

Mas, como disse o presidente da CDHU, há alguns rumos a corrigir. Criado com o objetivo de trazer novos investimentos e mais comércio e serviços para a região da Luz, por exemplo, problemas relatados pelos moradores ao longo desses quatro anos atrasaram o processo, já que o Júlio Prestes fica a poucos metros da região conhecida como Cracolândia.

Tanto que, o boulevard comercial com 67 lojas ainda não está funcionando, isolado dos prédios por muros construídos pelo governo do Estado de São Paulo sob a alegação de que servem para finalizar a obra. A medida dividiu opiniões, e o próprio Iapequino não é favorável, já que ele acredita que deveria seguir a concepção original do projeto, que é de se expandir.  

A seguir, o presidente da CDHU detalha mais a questão das HIS (habitação de interesse social) e o comércio: 

Quais os principais pontos a considerar na implantação do comércio em habitações de interesse social? 

Primeiro penso que a repovoação e a qualificação das áreas centrais passam não só pela questão habitacional, mas também pelos equipamentos de comércio, que são geradores de emprego e renda.

Nesse aspecto, a ACSP tem um papel fundamental na formulação dos mixes de operação, em capacitar os comerciantes para começarem a atuar de uma maneira mais propositiva, no sentido de qualificar as discussões com o poder público e fazer com que a gente corrija alguns rumos. Ela tem expertise para dizer quais as melhores formas de negócios, as mais atrativas, aquelas que podem contribuir para um desenvolvimento urbano e sócio-econômico-cultural relevante de cada região da cidade.

Como fica a participação dos empreendedores locais nesses projetos? 

À medida em que o Plano Diretor trouxe novas discussões, como Fachada Ativa nos empreendimentos imobiliários, os empreendedores precisaram se requalificar para melhorar os equipamentos que servirão para o desenho dos projetos de comércio e serviços de uso mais racionais. E não apenas para seguir um dispositivo legal: o interesse é aprofundar. À medida que surgirem novas ações, a ACSP se tornará interlocutora privilegiada nessa discussão para gerar emprego e renda. 

Então, mais do que reurbanizar regiões como o Centro, é uma política pública para movimentar a economia local. 

Não tenha a menor dúvida. Sem querer me meter em assuntos que são prerrogativas do município, quando falamos nesses projetos, não é só para ter comércio de alta qualificação, de alto valor agregado: é justamente para atender comércio e serviços de uma população empreendedora, que demanda coisas mais à mão no dia a dia do funcionamento da cidade. Na verdade, é fazer com que esse tipo de comércio local se desenvolva como tal. 

Nesse ponto, o Complexo Júlio Prestes está cumprindo o seu papel? 

Começamos em dezembo de 2016 e temos 900 famílias morando. A primeira entrega foi em dezembro de 2016, e estamos indo para o quarto ano. O cronograma é de cinco anos, a última etapa seria no final de 2021. Tudo está rigorosamente dentro do planejado: já tem gente morando, creches funcionando, crianças matriculadas nas escolas da região... pessoas que moravam longe do Centro agora moram na região onde trabalham... Isso criou uma dinâmica diferente para a cidade.  

Mas por que o muro ainda está lá? 

Como é um complexo de implantações, nem tudo está pronto, tem etapas para serem implementadas. Há um movimento que defende que enquanto tudo não estiver funcionando, os muros se mantém. E essa é uma discussão que já está colocada há tempos: há quem defenda mantê-lo e há quem defenda, como eu, seguir a origem do projeto, sua concepção original que é expandir, funcionando como uma "esplanadinha" da Rua Santa Ifigênia até o Largo Coração de Jesus. A cidade ganharia um espaço importante e por isso eu defendo a abertura, mesmo com todas as dificuldades no entorno. 

São Paulo tem outros espaços com o mesmo potencial?

De empreendimentos privados existem vários. Se você olhar para o passado, a cidade já era assim. Temos o Conjunto Nacional, as galerias do Centro, como as da Conselheiro Crispiniano e da 24 de Maio... Elas nasceram com essa concepção, mas depois fomos perdendo isso para outro tipo de implantação habitacional, que passa a fazer só predinhos. O que a gente está fazendo não é exatamente uma grande novidade, mas um resgate, já que o Centro sofreu esvaziamento populacional. Agora queremos trazer outras habitações e comércios, dentro do que a cidade recomenda para funcionar em sua plenitude. 

Já existem dados estatísticos que podem embasar futuros projetos? 

Não.Temos estatísticas quantitativas, mas talvez aí a ACSP pudesse reunir dados, criar um anuário estatístico. Porque a parte de comércio vem em função dos dispositivos estabelecidos pelo Plano Diretor, mas é preciso qualificar a discussão. Porque muitas vezes se faz esses empreendimentos, entrega para as famílias, mas depois elas vendem e vão embora. Se houver um ambiente onde percebam que, por conta do comércio, as pessoas ficarão mais nesses locais, entenderão que terão perdas de qualidade de vida se simplesmente transferirem o imóvel. Porque o imóvel não vai embora, a cidade ganhou. Mas temos criado mecanismos para que as beneficiárias originais se mantenham o maior tempo possível nesses locais.

FOTOS: Larissa Campagner e Site Secr.Habitação do Estado de São Paulo/Crédito: Arquitetos Mário Biselli e Artur Katchborian 

 

 

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