Guerra, sem dúvida

O Brasil ficará fora dela? Dificilmente, a considerar os precedentes desde a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), aquela que “escreveu a sangue o endereço do Brasil”, no dizer do insuperável Gilberto Freyre

Sérgio Paulo Muniz Costa
23/Nov/2015
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O mundo está em guerra. Não aquela formalmente declarada, de grandes enfrentamentos militares convencionais ou salvas de mísseis nucleares.

Estamos vivendo o que pode ser a fase inicial de uma guerra que se estenderá por gerações, assassina como são todas as guerras, porém combatida em distintas frentes e de forma descontínua, mas persistente, da qual o terrorismo é apenas um dos instrumentos, o mais percebido neste século inaugurado no 11 de setembro.

Quando escrevi “Os Pilares da Discórdia” (BIBLIEX, 1995), sobre a interpenetração de fatores culturais, econômicos, políticos e territoriais na germinação de conflitos, propus um modelo de observação que ajudasse a explicar a “perplexidade do momento”, aquele momento dos primeiros anos da última década do século XX, no qual tantas expectativas otimistas geradas pelo fim da Guerra Fria foram revertidas a um sombrio pessimismo pela não superação de velhas questões.

Do encadeamento dos grandes acontecimentos a partir do século XVI - o marco histórico da aquisição da supremacia mundial pelo Ocidente - até a Segunda Guerra Mundial - o conflito que culminou a longa disputa pelo predomínio nesse mundo hegemônico - foi possível identificar os pilares da discórdia que continuavam a inspirar conflitos, crises e guerras por todo o globo. Intervenientes num só eixo para deflagrar a maior guerra da História, esses pilares – espaço, poder, riqueza e cultura – estavam intactos no final do século XX, mas dissociados.

Naquela conjuntura, era razoável concluir: “quem está em oposição política e cultural ao Ocidente não tem riqueza e poder para efetivar um confronto; aqueles que estão em oposição pela riqueza já são suficientemente prudentes para se manterem discordantes apenas nessa área; e outros que se acham engalfinhados em luta mortal pouco representam no contexto do poder e da riqueza mundiais”.

Da apreciação daquele panorama mundial restava evidente que a História não ia acabar, ela estava se acelerando, mas em seu horizonte não se divisava um novo conflito global. O que mudou desde então?

A partir de 2001 o Ocidente assumiu uma guerra pelo espaço, para negar a estados e organizações a base territorial para ataques diretos contra seu próprio espaço e contra seus interesses ao redor do globo.

No Afeganistão, a Operação Enduring Freedom, desencadeada pelos EUA em outubro de 2001, e a organização pelo Conselho de Segurança da ONU da Força Internacional de Assistência e de Segurança (FIAS), atuante desde janeiro de 2002, podem não ter obtido a vitória militar clássica sobre o inimigo identificado, porém, fizeram desaparecer a Al-Qaeda do território afegão, eliminaram Bin Laden (2 de maio de 2011) e puseram de pé um exército nacional de 200.000 homens que contém o Talibã.

No Iraque, palco de uma guerra desastradamente promovida pela trinca Cheney-Rumsfeld-Wolfowitz, a estratégia do General David Petraeus, partir de 2008, enfraqueceu a Al-Qaeda que pôde ser pontualmente caçada em outras partes do Oriente Médio e virtualmente neutralizada. 

Negadas as bases territoriais à Al-Qaeda no Afeganistão e Iraque, transmutou-se o inimigo em nova organização, o Estado Islâmico (EI), de orientação sunita, que proclamou a implantação do Califado no território que controla em partes do Iraque e da Síria, e logo se abriu outra frente de luta, na África.

Com as atenções dos EUA voltadas para o Extremo-Oriente e para o equilíbrio da situação político-estratégica no sudoeste da Ásia e no Oriente Médio, a França teve que conter praticamente sozinha as ações dos jihadistas no Sahel, a região ao sul do Saara, vulnerável à ação de traficantes de armas, de drogas e de migrantes que, desde a queda de Kadafi em 2011, encontraram o seu santuário no Sul da Líbia (HUGEUX, Vincent, 2015).

Em 2012, o Grupo Salafista para Predicação e Combate (GSPC), advindo da mortífera guerra civil da Argélia (1991-2002), reconhecido como a Al-Qaeda no Magreb islâmico (AQMI) e atuante no Sahel, ocupou o norte do Mali, organizando grupos terroristas com as suas vistas voltadas para a costa atlântica, no Senegal e na Nigéria, nesta onde formou e financiou o Boko-Haram, hoje de terrível fama.

Em janeiro de 2013, os jihadistas tentaram conquistar o restante do Mali, provocando a intervenção da França que desencadeou “uma pequena guerra... com grandes efeitos estratégicos” (VINCENT, Pierre, 2015), travada com aviação, blindados, artilharia autopropulsada, paraquedistas, helicópteros de ataque e drones de vigilância norte-americanos, enfim seguindo o figurino completo de uma guerra convencional, que foi da contenção das colunas motorizadas invasoras à conquista da fortaleza da AQMI no maciço montanhoso de Ifoghas, no norte do Mali, defendida até o fim ao custo de centenas de mortos jihadistas.

Dessas guerras, campanhas e batalhas extrai-se que há uma nova geopolítica  de conflito, não mais nos moldes da Guerra Fria entre EUA e URSS, e tampouco restrita regionalmente, como os movimentos das marinhas norte-americana e chinesa no Mar do Sul da China.

Não se pode mais falar de conflito assimétrico, quando o Talibã dispõe de até 300.000 combatentes; o EI emprega carros de combate, artilharia e controla refinarias; os teatros de guerra se transferem de um continente para o outro; e o ambiente estratégico impõe aos países ocidentais a prontidão de forças expedicionárias prontas para combater a milhares de quilômetros de suas sedes.

O campo de batalha multidimensional vai das principais cidades do Ocidente aos confins do mundo, como foi reiterado nos atentados no Mali e nos Camarões, dias depois da 6a feira 13 em Paris. O Global Forecast 2016 preparado pelo Center of Strategic and International Studies (CSIS), um think tank sediado em Washington-DC, assinala que “a África Subsaariana pode ser o próximo centro de gravidade da violência jihadista“ (Global Forescast, 2016, p.78).

Não é difícil imaginar o que pode acontecer ao transporte marítimo de cargas que, do Brasil e da Cidade do Cabo flui pela rota das Canárias até os portos europeus e o Mediterrâneo, se o jihadismo, depois de instalar o caos no Senegal e na Mauritânia, usar as costas desses países como ponto de partida para sequestros de navios e tripulações, nos moldes do praticado no litoral da Somália e que obrigou os EUA e a OTAN a desdobrarem, desde 2008, a pedido da ONU, forças navais para empreenderem ações contra pirataria no Golfo de Áden, Chifre da África e Oceano Índico.

Estamos diante de uma guerra, sem dúvida. O Brasil ficará fora dela? Dificilmente, a considerar os precedentes desde a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), aquela que “escreveu a sangue o endereço do Brasil”, no dizer do insuperável Gilberto Freyre.

De lá para cá, todos os grandes conflitos mundiais atingiram o Brasil, simplesmente por que ele é grande demais para passar despercebido.

Por mais que ele tente e faça de conta que nada está acontecendo.

 

 

 

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