Empresários refazem projeções após frustração com retomada econômica

Apesar dos avanços na vacinação e a reabertura das atividades, inflação, juros e desemprego elevados frustraram as expectativas de participantes do Comitê de Conjuntura da ACSP

Karina Lignelli
29/Nov/2021
  • btn-whatsapp
Empresários refazem projeções após frustração com retomada econômica

A expectativa era de uma recuperação mais forte da economia com o avanço da vacinação e a reabertura total das atividades. Mas o cenário que se desenha para 2022, ano eleitoral, se mostra complexo e cheio de incertezas. Essa é a percepção dos empresários e economistas presentes à reunião de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada na última quinta-feira (25/11). 

No caso do varejo, há desaceleração nas projeções de crescimento já em 2021, de 5% para 3,8%, por conta do aumento da inflação e o encarecimento do crédito. O que impede uma queda maior, segundo economistas presentes à reunião, é o aumento da ocupação formal e informal e os índices de confiança do consumidor que, em clima de fim de ano, mostram melhora quanto às expectativas futuras.

A pedido da ACSP, os nomes dos participantes dessa reunião não são divulgados.   

O recorte por segmentação dá uma ideia dessa desaceleração das vendas do comércio e da economia como um todo. Um empresário do varejo de material de construção disse que, além da falta de produtos, a alta nos preços afastou o "consumidor-formiguinha", que destinava parte do orçamento para reformas e pequenos reparos. Segundo ele, o comércio perdeu um pouco, pois era um consumo significativo e de compras constantes. 

Apesar da retomada do setor de turismo, um empresário do setor bancário destacou que, a princípio, ela não representa aumento das receitas, mas sim a demanda reprimida de pessoas que compraram pacotes, não conseguiram viajar na pandemia, e estão fazendo isso antes que o prazo de validade expire.

Na construção civil, lembrou, praticamente não há obras públicas em andamento, e no setor imobiliário há uma devolução grande de unidades vendidas em tempos de inflação estacionária. Agora, com prestações proibitivas, esses mutuários optam por devolver, "causando problemas para o setor financeiro", disse.

Nessa toada, destacou a elevação da inadimplência - o que faz os bancos aumentarem as provisões para devedores duvidosos neste final de ano, já que as expectativas com o 13º não devem se concretizar.

Com a antecipação das parcelas para aposentados e pensionistas do INSS, segundo o empresário do setor bancário, não haverá recursos nessa época, e evidentemente esse quadro preocupa o conjunto da economia.

Além do repasse para os salários, o representante dos bancos apontou que a inflação também já atingiu serviços como mensalidades escolares, "prenunciando um mês de janeiro bastante nebuloso."  

CAMINHANDO DE LADO

Um ambiente de falta de previsibilidade, devido à falta de produtos e matérias-primas, aumento nos preços e nos juros, além do alto nível de desemprego e renda corroída dão uma ideia do cenário para final de 2021 e início de 2022.  

Na indústria de transformação, a situação continua bastante desfavorável, e com queda na margem de produção em setembro em níveis abaixo de 2020 e 2019, destacou um representante do setor.

Nos últimos quatro meses, o setor registra queda de 2,6%. Em relação a setembro de 2020, o recuo foi de 3,9%. A única notícia que dá algum alento aos fabricantes é a ligeira melhora na oferta mundial de componentes.

Mesmo assim, olhando para a frente, não há expectativa positiva no curto prazo. Em sua avaliação, a indústria caminha de lado, com ligeira tendência de queda e pressões para o ano que vem - como o preço da energia, que, pelas projeções da Enel, corroboradas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), deve subir de 20% a 25%

Uma representante da indústria de eletroeletrônicos lembrou que, no momento, não há uma dificuldade das empresas do segmento em encontrar componentes, mas sim em absorver a elevação dos preços.

Porém, ela reforçou que este é um problema com o qual será preciso conviver nem 2022 e, junto aos gargalos logísticos, preço do frete e dificuldades na reserva de contêineres, prejudicam a previsão para o próximo ano. 

Há 15 meses a confiança do segmento está acima dos 50 pontos, mas ela vem caindo a cada mês, principalmente de setembro para cá. "A falta de previsibilidade e a incerteza política sinalizam um cenário desafiador", disse.

E O PIB?

Dentro desse cenário, as opiniões divergiram quanto ao crescimento da economia. Um dos economistas presentes à reunião destacou uma certa estagnação, e que em 2021 o PIB deve fechar em 4,6% sobre a base fraca de 2020.

A desaceleração deve ser maior no ano que vem, de acordo com indicadores de confiança empresarial e, ainda que Itaú já preveja queda em 2022, até o momento a previsão é de crescimento fraco, de 0,4%, 0,5%, disse.

Há quem acredite em recuperação a partir de 2023, tendo como pressuposto a efetivação das reformas, afirmou um economista da área acadêmica que também avaliou a conjuntura. Porém, em sua percepção, isso não tem garantia nenhuma de que vai acontecer, já que o cenário eleitoral aponta para dois extremos. "Alguns preveem redução de atividade, mas o crescimento em 2022 será pífio, próximo de zero."

Outro economista presente à reunião da ACSP, por sua vez, foi mais taxativo. Ele acredita que o PIB do 3º trimestre, a ser anunciado pelo IBGE na próxima semana, já deve registrar uma recessão técnica, e destacou previsões da FGV e do Monitor do PIB, que preveem subida de 0,1 e queda de 0,1 do indicador, respectivamente.

"Há um problema sério, que remonta a 1980. A economia cresce abaixo do seu potencial e está em depressão desde 2014", disse.

 

FOTO: Freepik

 

 

Indicadores Econômicos

Fator de Reajuste

ÍNDICE
Mai
Jun
Jul
IGP-M
1,1072
1,1070
1,1008
IGP-DI
1,1056
1,1112
1,0913
IPCA
1,1173
1,1189
--
IPC-Fipe
1,1227
1,1169
1,1073

Indicadores de crédito Boa Vista

Índice
Abr
Mai
Jun
Demanda por crédito
-4,3%
-2,1%
-1,9%
Pedidos de falência
--
--
--
Movimento do comércio
1,1%
1,5%
-0,8%
Inadimplência do consumidor
5,0%
7,5%
-0,6%
Recuperação de crédito
1,8%
-5,6%
2,4%
mais índices

Vídeos

Tarcísio de Freitas participa de ciclo de debates promovido pela ACSP

Tarcísio de Freitas participa de ciclo de debates promovido pela ACSP

Felipe d’Avila, do Novo, foi sabatinado por empresários na ACSP

Márcio França fala em fim da ‘tiriricação’ da política

Colunistas