Bares ajudam a vivenciar o Centro de São Paulo

Pontos de encontro repletos de história e cultura, como o Salve Jorge (foto), na Praça Antônio Prado, trazem consigo a missão de apresentar à população uma região em processo de revitalização

Mariana Missiaggia
01/Nov/2023
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Bares ajudam a vivenciar o Centro de São Paulo

Quem tem a oportunidade de caminhar pelo Centro de São Paulo assiste a um momento importante. Depois de anos de degradação, com grande presença de pessoas em situação de rua e aumento da insegurança, a região começa a receber iniciativas que apontam para uma nova perspectiva: a recuperação desse patrimônio histórico e cultural da cidade.

Muito disso tem a ver com a perseverança de alguns empresários, especialmente os donos de bares e restaurantes, que não deixaram de acreditar no potencial desse endereço.

Salve Jorge, Casa Godinho, Bar Brahma estão entre os principais nomes responsáveis por criar uma conexão entre os paulistanos e o Centro por conta de seus serviços e atendimento e também funcionam como uma porta de entrada para quem ainda não descobriu a região.

Desde 2004 na Praça Antonio Prado, a poucos metros da B3, o Salve Jorge se tornou um destino certo na região e é uma das razões para muitas pessoas ampliarem seu tempo pós-trabalho no calçadão do Centro.

Nesses quase 20 anos de funcionamento, Wanderley Romano, sócio-proprietário do Salve Jorge, diz já ter visto a população ressignificar a sua relação com o Centro muitas vezes. Com uma pandemia nesse período, que o tornou ainda mais desigual no pós-pandemia, e com mais problemas urbanos do que antes, Romano acredita que o Centro já superou muito e vive um tempo de comemorar.

Seja em seus restaurantes, na cena cultural ou nos passeios a pé entre os edifícios e monumentos, Romano afirma que esse movimento colabora de alguma forma com a revitalização da região. “Estou aqui há anos, mas todos os dias tem uma coisa nova. Sempre acontece alguma coisa”.

Até 2018, por exemplo, quando o Farol Santander foi inaugurado, muitos turistas chegavam ao entorno do Salve Jorge por querer visitar o antigo edifício Altino Arantes, conhecido como o prédio do Banespa. Desde então, o prédio passou a atrair um público também de moradores da cidade e ainda mais variado com programação cultural e a abertura de um café.

Nesse roteiro, um outro bar mais contemporâneo - o Bar dos Arcos - ajuda a contar essa história. No subsolo do Theatro Municipal, o empreendimento retrata bem uma área marcada pela riqueza do café que permitiu a expansão da cidade para o outro lado do Vale do Anhangabaú, com a construção do Viaduto do Chá, em 1892.

Mesmo construído recentemente, o Bar dos Arcos transmite bem esse momento cultural em que o dinheiro do café fez nascer uma nova cidade.

O nome Arcos surgiu em referência às estruturas do local. Em 1911, quando o espaço foi construído, usaram arcos romanos para sustentar a estrutura, com as pedras ligadas por uma espécie de argamassa feita de conchas, gordura de baleia e areia.

Bar dos Arcos leva público para o subsolo do Theatro Municipal

 

Mantendo o formato original com toda uma atmosfera de taberna do século XIX, a proposta desse bar é valorizar a história e a arquitetura do local, com uma carta especial de drinques e música instrumental que acaba por atrair um público que dificilmente chegaria ao Centro.

Lucas Tolotti, especialista em estética e história da arte e arquitetura da ESPM, aponta que o papel desses bares é fundamental para traduzir ao público a mistura de estilo que faz da região um verdadeiro museu a céu aberto, em que o passado e o presente vivem lado a lado.

Ele cita a presença de construções, como o Pátio do Colégio, do século XVI, o Solar da Marquesa, do século XVIII, e o Theatro Municipal, do século XIX, que refletem bem essa mistura de estilos hoje também sustentada pelos bares, seja na proposta de fomentar uma tradição, como o Salve Jorge, ou ainda ditando tendências, como o novo bar Domo, na rua Major Sertório.

Por ali, a ordem é beber com os ouvidos, um conceito de bar que se autodenomina como listening bar, ou bar de audição. Criado no Japão sob a denominação de jazz kissa, na década de 1920, a proposta ficou conhecida pelo mundo e acabou tomando novos formatos até chegar a São Paulo. Desde julho, três bares do gênero foram inaugurados na região central da cidade.

A ideia desses espaços é agradar os audiófilos (alguém que dá prioridade total à qualidade do som) com um sistema de som de alta fidelidade e uma seleção musical acurada, que importa na mesma medida, ou mais, que a gastronomia. Por isso, o som é reproduzido em uma altura que não atrapalha o papo, mas que passa longe de uma mera trilha de fundo.

Para Tolotti, muitos dos que se estabelecem por ali geram um comprometimento com a região que acaba transformando os vínculos em uma comunidade tão forte que transfere esse sentimento também aos clientes.

“Eu acho que esse é um dos motivos pelo qual as pessoas gostam tanto de andar pelo Centro, é tudo muito inesperado. E a partir disso, no momento em que se começa a frequentar o Centro, ajudamos a conservá-lo também", diz Tolotti.

Além disso, Tolotti chama atenção para o fato de que se São Paulo é uma cidade acolhedora para imigrantes, o Centro tem papel fundamental nisso ao se manter como reduto de pessoas vindas de diferentes cantos do mundo.

Essa mistura, segundo o professor da ESPM, resulta nessa vocação que o Centro tem para empreendimentos de experimentação, com muitas referências diferentes e que se tornam inspiração para todo o resto da cidade ao lançar tendências. 

Por maior representatividade que tenham, o especialista destaca que esses bares não fazem parte de um roteiro fechado, e servem, na verdade, como uma forma de instigar uma primeira visitação à região para que cada um faça as suas próprias descobertas.

Ao recuperar a história do Centro, Viviane Rubio, especialista em patrimônio histórico da Universidade Presbiteriana Mackenzie, enfatiza que até a década de 1970 a região era a referência de onde tudo acontecia. Entretanto, a partir da década de 1980, o Centro foi perdendo população e negócios pois se tornou muito caro do ponto de vista imobiliário.

Com o tempo, a dinâmica urbana perdeu vida, que na última década tem sido resgatada a passos lentos. Por essa razão, Viviane exalta as ações de quem permaneceu. Há dez anos, por exemplo, ela recorda que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inovou ao realizar viradas para a exposição Impressionismo: Paris e a Modernidade. Foram algumas edições de 37 horas ininterruptas de funcionamento, que disponibilizavam horários das 10h de uma sexta-feira até às 23h do sábado.

Enquanto esteve em cartaz, a exposição levou mais de 300 mil pessoas à região. Nesse fluxo, bares e outros comércios acompanharam o ritmo e mantiveram suas portas abertas em um horário fora do convencional.

Trazendo um exemplo mais atual de práticas como a do CCBB, Viviane cita o Playarte Marabá, na avenida Ipiranga, que às quartas-feiras à noite oferece ingressos mais baratos e movimenta o endereço a ponto de incentivar outros comércios do entorno a estenderem seus horários de funcionamento.

"Ou seja, o bar é uma tipologia de negócio de ativação que além de por si só puxar um movimento forte para o Centro, também é capaz de apoiar outras iniciativas por estar sempre aberto, e isso se multiplica em segurança pública e vitalidade", diz.

 

IMAGENS: Divulgação

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