Negócios

Volta do brasileiro ao 'modo crise' já impacta bens de consumo


Mudanças de hábito provocadas pela pandemia do novo coronavírus fazem consumidor voltar a priorizar itens essenciais e adotar novos. Bom para alguns mercados, desafiador para outros


  Por Karina Lignelli 20 de Abril de 2020 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Mesmo timidamente, alguns setores da economia mostravam sinais de recuperação da crise de 2014-2018, como o varejo. Porém, 2020 chegou e, com ele, a pandemia do novo coronavírus. No Brasil, com o avanço da covid-19, a mudança forçada de comportamento do consumidor já traz impactos ao mercado. 

A cesta básica agora inclui álcool gel, máscaras e luvas. Itens relacionados à beleza, que apresentavam crescimento constante nas vendas, deixaram de ser prioridade de consumo. A necessidade de isolamento social deu novo impulso aos serviços de delivery. 

As consequências econômicas desse cenário serão boas para alguns segmentos (pelo menos por enquanto), porém, desafiadoras para outros. Essas movimentações são apontadas no estudo "O impacto do coronavírus no Brasil: perspectivas desiguais entre as indústrias", elaborado pela consultoria Euromonitor international. 

Segundo o estudo, se há categorias que agora se beneficiam dos picos de demanda, como supermercados e farmácias, a maioria delas, a exemplo de bares, restaurantes e outros serviços, preveem impactos negativos nas vendas em 2020, já que a perda de ocasiões de consumo não poderá ser compensada futuramente. 

LEIA MAIS:Quarentena em SP: comércio não-essencial fica fechado até 10 de maio

Diante disso, os consumidores têm voltado ao 'modo crise' e copiado seu comportamento durante a recessão de 2014-2018, preocupados com o desemprego e a queda na renda. As pistas sobre como o mercado brasileiro de bens de consumo deve funcionar no curto e médio prazo estão detalhadas pela Euromonitor, a seguir:   

ALIMENTOS E BEBIDAS

A corrida aos supermercados agora é para itens essenciais, como água e café em embalagens maiores e econômicas, e alimentos não-perecíveis e embalados (macarrão, arroz, molho e condimentos): o "comer fora" foi substituído pela comida caseira para enfrentar o home office e a quarentena. 

LEIA MAIS: O momento é do e-commerce. Empresas precisam aproveitar

Porém, segundo a Euromomitor, esse cenário positivo para alguns, no curto prazo, não significa necessariamente picos nas vendas no segundo semestre, devido às sobras de produtos com prazo de validade mais longo. 

TECNOLOGIA E CONECTIVIDADE 

A política do "fique em casa" também favoreceu a digitalização, o comércio e os serviços on-line, com as plataformas de comércio eletrônico, entrega e streaming registrando aumento na demanda. 

Por outro lado, itens como smartphones, wearables e outros pequenos aparelhos de consumo, sofreram o golpe da covid-19 com a menor eficiência de produção e distribuição com redução da força de trabalho em logística e menos importados vindos da China, por exemplo.

Mas, há discrepâncias nesse cenário, como periféricos de computadores, aparelhos de preparação de alimentos e videogames, com desempenho positivo à medida que mais pessoas adotarem o home office.

ASSISTÊNCIA DOMICILIAR E HIGIENE

Replicando cenários de outros países, o papel higiênico virou um dos principais produtos demandados nas semanas de quarentena no Brasil, resultando em interrupções no fornecimento e disponibilidade em vários supermercados. Mas, como muitos consumidores já estocaram volumes significativos do produto, o desempenho positivo deve ser seguido por uma queda nas vendas à medida que a situação se estabiliza.

LEIA MAIS:Os cuidados antes de reduzir jornada e suspender contrato da equipe

Na semana após o primeiro caso da covid-19 no Brasil, em fevereiro de 2020, os produtos de limpeza em geral para casa já apresentavam aumentos significativos de volume de vendas, antecipando a quarentena. Para produtos de limpeza doméstica e higiene pessoal, espera-se também alta no volume de vendas em 2020, à medida que os consumidores desenvolvem o hábito de higienizar a casa (e a família) com mais frequência.

MODA

O cenário de pandemia foi um choque para o setor, que crescia a passos lentos por índices macroeconômicos, como o desemprego, nos últimos dois anos. Agora, vestuário, calçados, acessórios pessoais e óculos deixaram de ser prioridades para as famílias, que se concentram em armazenar alimentos e itens de higiene.

Como as operações de moda estão mais concentradas nos canais físicos e os principais varejistas fecharam as lojas por um período indeterminado, tudo depende da duração da quarentena para prever quando e como o setor pode minimizar os impactos. Porém, assim como a Páscoa, o Dia das Mães já deve sentir o baque. 

LEIA MAIS:Sebrae lista opções de crédito emergencial para empreendedores 

BELEZA E CUIDADOS PESSOAIS

Aqui, há dois cenários distintos. Em cuidados pessoais, a procura por sabonetes em barra e líquidos, cujas vendas subiram 20% entre fevereiro e março (dados do Via Pricing, sistema de rastreamento de preços da Euromonitor) devem crescer no curto prazo, refletindo a alta demanda por itens anti contaminação.

Quanto aos itens relacionados à beleza, espera-se um desempenho fraco e provavelmente sem recuperação ao longo do ano, em categorias como cosméticos e fragrâncias, itens mais usados quando se sai de casa. 

SAÚDE

A saúde é uma das poucas indústrias que foram impulsionadas pela pandemia. Os consumidores correram às farmácias para comprar produtos que prometem melhorar o sistema imunológico e, potencialmente, atingir os sintomas da covid-19 - caso da vitamina C, das multivitaminas e produtos naturais, como própolis. 

LEIA MAIS:Cresce procura por capacitação gratuita na quarentena

Da confirmação do primeiro caso, em fevereiro, e no início de março, esses produtos sumiram das prateleiras, e a alta nos preços da vitamina C, por exemplo, chegou a quase 200% semanalmente, segundo o sistema Via Pricing. Porém, com a demanda aquecida, pode faltar matérias-primas para sustentar produção e o suprimento no médio prazo, compensando potencialmente os resultados positivos de curto prazo em 2020.

SERVIÇOS

Ao contrário dos bens que os consumidores podem comprar após a crise, serviços como viagens e turismo e serviços de alimentação ao consumidor não se beneficiarão da recuperação da demanda reprimida.

Embora as atividades de entrega ainda sejam permitidas, mesmo nas cidades com quarentena estabelecida, o mercado de delivery no Brasil é composto por atores independentes que contam com a entrega como uma operação complementar, sendo insuficiente para compensar a perda de receita associada à operação.  

Já o varejo está com a atividade aquecida para a maioria dos canais de supermercado, bem como para drogarias e farmácias. Porém, espera-se que quase todos os outros canais baseados em lojas enfrentem meses de vendas em níveis recorde. Players que demonstrarem robustez nas operações digitais, tanto em termos de experiência do usuário quanto de operações logísticas, poderão mitigar parte do impacto do bloqueio.

LEIA MAIS:Em tempos de coronavírus, o negócio é vender à distância

O comércio eletrônico representou 8% do valor total das vendas no varejo brasileiro em 2019, e espera-se que esse índice aumente em 2020, à medida que a crise aumenta a demanda por esse canal. A expectativa é que o setor de meios de pagamento digitais também se beneficie desse movimento.  

Por fim, a indústria de viagens e turismo vê uma perspectiva muito menos animadora. Com cerca de 80% dos players de hospedagem fechados e todos os parques e atrações turísticas com operações suspensas, o setor espera que o governo ajude a pagar os salários dos funcionários nos próximos meses.

Segundo estimativas de associações do setor, o turismo no Brasil pode perder cerca de US$ 6,2 bilhões sem o apoio do governo. O Modelo de Previsão da Indústria de Viagens da Euromonitor espera que o cenário para chegadas ao Brasil diminua 50% em 2020, enquanto o de recessão profunda deve apresentar queda de 54%.

FOTO: Pixabay /  Arte: Guto Camargo





Publicidade





Publicidade





Publicidade