Negócios

O momento é de fazer negócios com a Índia


Representantes do país que sedia a maior fabricante de vacinas do mundo e com economia digital em ascensão fecham acordo de cooperação com a São Paulo Chamber of Commerce, da ACSP


  Por Karina Lignelli 17 de Maio de 2021 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Um país com quase 1,4 bilhão de habitantes, um mercado em que 315 milhões de consumidores ascenderam à classe média, que tem mais de 50 mil startups e projeção de atingir um PIB de US$ 5 trilhões até 2025. 

Esses são apenas alguns números, apresentados à comunidade empresarial brasileira interessada nas novas oportunidades criadas pelo crescimento econômico da Índia, no evento virtual "Índia for Business 2021".

Realizado na última terça-feira (11/05) pela São Paulo Chamber of Commerce da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em parceria com o Consulado Geral da Índia em São Paulo, o webinar é resultado da reunião entre Alfredo Cotait Neto, presidente da ACSP, Suresh Reddy, embaixador da Índia em Brasília, e Amit Kumar Mishra, cônsul-geral da Índia em São Paulo, no fim de 2020, para estimular trocas comerciais entre os países.

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Em tempos de pandemia, ter um primeiro contato ou adquirir conhecimento adicional sobre como fazer negócios com a Índia, país que sedia a maior fábrica de vacinas do mundo e é especializado em alta tecnologia, é uma oportunidade que tem de ser avaliada por qualquer empresa, segundo Cotait. Inclusive as pequenas. 

"É um grande mercado a que temos que ficar atentos. Quem quer participar do comércio exterior não pode deixar de olhar a Índia como destino de negócios fundamental", afirma Cotait, da ACSP. 

Ao citar o tamanho do mercado indiano, o embaixador Reddy, que caracterizou a Índia pela distância e com grandes números 'às vezes difíceis de compreender', destacou a força da economia do pais asiático e as projeções para o médio prazo - como ampliar o PIB de US$ 3,3 trilhões para US$ 5 trilhões até 2025.  

"Estamos bastante confiantes. A pandemia atrapalhou, mas em cinco anos chegaremos lá", acredita. 

Motivos para que isso aconteça a Índia tem, conforme demonstrado pelo embaixador (confira o vídeo baixo). Além da maioria da população ter idade média de 29 anos, o setor privado é bastante dinâmico. Já sua economia baseada em digital continua em ascensão. 

Além das mais de 50 mil startups, o país é o 3° em número de unicórnios no mundo (empresas com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão), sendo que nove adquiriram essa condição em 2020, em plena pandemia.  

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Só em outubro de 2020, o país recebeu US$ 15 milhões em investimentos em plataformas de e-commerce de uma única empresa, no pico da crise, segundo Reddy. "Isso mostra a confiança do mundo na Índia." 

O país também é forte em telecom, o segundo maior em fabricação de smartphones, conta com mais de 100 cidades inteligentes, e acaba de destinar mais de US$ 1,5 milhão para investimentos em infraestrutura.  

Ao afirmar que Brasil e Índia são dois gigantes que 'carregam' suas economias com a força das commodities e do setor privado, o embaixador incentivou novamente os empresários brasileiros e se beneficiarem dessa troca, ao reforçar que o crescimento do país asiático se baseia na maior classe média recente do mundo.  

Reddy lembra que as empresas indianas vêm ao Brasil para ficar e fazer parte da economia e da sociedade local, e as empresas brasileiras que exportam ou estabelecem filiais no país não só identificam seu amplo mercado, como fazem novas parcerias e conseguem chegar a mercados maiores a partir da Índia.  

"Meu conselho para os amigos brasileiros: somos um mercado de 315 bilhões de consumidores na classe média, que querem o melhor em alimentos, vestuários e projetos. Por isso estamos aqui", afirma. "Essa relação pode ser desafiadora devido à distância, mas acreditem: existe coisa boa nisso." 

IMPOSTO ÚNICO, VACINA E OUTROS

Um comércio de US$ 8 bilhões, e que cresceu 3% em meio à pandemia. Apesar da relação bilateral de longa data e das boas relações políticas, isso é pouco perto do potencial da parceria entre as duas economias, lembrou Suresh Kumar, secretário-adjunto de comércio exterior para a América Latina e o Caribe da Índia. 

Ao reforçar a necessidade de diversificar as trocas comerciais entre os países, Kumar citou as reformas realizadas na Índia para facilitar o ambiente de negócios, como o imposto único para bens e serviços (GST). 

Ou os incentivos vinculados à produção (PLI) em diferentes setores, para promover o setor de manufaturas, com queda de 5% a 7% nos custos de produção para quem estabelecer a área de produção no país - em especial nas áreas farmacêutica, de componentes, eletrônica, automotiva e química, por exemplo. 

Para todas, o governo da Índia anunciou melhorias e investimentos de US$ 15 bilhões em incentivos voltados à manufatura ou fabricação. "A ideia é aumentar nossa produção entre US$ 5 e 20 bilhões em 20 anos."

Kumar destacou a similaridade das importações do Estado de São Paulo com os setores contemplados pelo PLI, assim como a necessidade de conscientizar os empresários sobre o potencial dos dois mercados. 

Também lembrou que, nos últimos anos, o país recebeu investimento estrangeiro em torno de US$ 93 bilhões, sendo US$ 32 milhões vindos do Brasil - montante que poderia ser muito maior, apesar de algumas 'barreiras.' 

Outra questão apontada como importante pelo secretário para ampliar as relações entre os dois países são as vacinas: apesar de a Índia ser a responsável por 70% da produção mundial de imunizantes, muitas pertencem a laboratórios multinacionais de países da Europa e Estados Unidos, que possuem plantas fabris por lá. 

Ou seja, mesmo produzidos na Índia, a compra não é feita do país. "Por que a cadeia de suprimentos não é direta com o Brasil? Isso reduziria o custo da medicação, e faria ela chegar mais rápido à população." 

Daí a importância de os países se aproximarem, segundo Kumar: para que suas forças possam ser utilizadas em prol da colaboração bilateral. "Nossa economia cresceu 3%, e atraímos US$ 51 bilhões de investimentos, 33% a mais do que em 2019. Apesar da covid, o mundo mostrou confiança no mercado indiano", completou. 

COOPERAÇÃO

Durante o webinar, a São Paulo Chamber da ACSP e a Confederation of Indian Industries (CII), que já tinham relacionamento e parcerias de longa data, celebraram um Memorando de Entendimento para estreitar relações e fomentar possíveis trocas comerciais entre seus 9 mil membros diretos e 300 mil indiretos. 

Aravind Krishnan, chefe da mesa da América Latina na CII, mencionou setores específicos nos quais Índia e Brasil já são parceiros, como petróleo e gás, farmacêutico e vestuário, entre outros. Mas também citou setores potenciais, como equipamentos para agronegócio, indústria cinematográfica e turismo & hotelaria. 

Há 10 anos no Brasil e fluente em português, Krishnan disse que a CII participa ativamente da colaboração bilateral, tem acordo preferencial com o Mercosul para 450 produtos, e oportunidade de expansão para 3 mil. 

Em sua avaliação, no âmbito privado há uma concentração de investidores muito importante, mas também é preciso formalizar planos entre os governos para tirar 'amarras' ao fazer negócios, como as tributárias.

"Estamos trabalhando com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) para elaborar planos relativos a impostos - especialmente para pequenas e médias empresas, que tanto na Índia como no Brasil são maioria." 

Participaram do evento o embaixador Raymundo Santos Rocha Magno, chefe do Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, Roberto Ticoulat, vice-presidente da ACSP responsável pela área de comércio exterior, e Roberto Paranhos, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Índia. 

Arte: Will Chaussê





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