Gestão

Após seis anos de queda, produtividade avança


Trata-se de uma alta modesta -de 0,5%, segundo projeção da consultoria Tendências- mas sinaliza o avanço de um indicador essencial para o crescimento sustentável do País


  Por Estadão Conteúdo 31 de Março de 2018 às 08:20

  | Agência de notícias do Grupo Estado


Depois de cair 6,45% nos últimos seis anos, a produtividade brasileira começa a esboçar uma reação. A projeção da consultoria Tendências é de que, em 2018, o indicador deve crescer 0,5%.

Trata-se de uma alta modesta, mas que sinaliza o avanço de um indicador essencial para o crescimento sustentável do País. 

Essa recuperação é resultado de uma combinação de três fatores. Um deles é o chamado “darwinismo econômico”: durante a recessão, muitas empresas ineficientes vão à falência e trabalhadores com baixa qualificação são demitidos. “

A produção cai num primeiro momento de forma mais rápida do que as demissões, já que as empresas não sabem a extensão da crise”, explica Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. “Quando a economia volta a crescer, o mercado de trabalho demora para responder, o que favorece o ganho de produtividade no pós-crise.” 

Além disso, para sobreviver, ou para se preparar para a retomada, muitas empresas investiram na melhoria de processos, corte de custos e otimização dos recursos. Quando a economia se recupera, elas estão mais eficientes e a produtividade aumenta. 

Na semana passada, por exemplo, a montadora Mercedes-Benz [na foto que abre esta reportagem] anunciou uma série de inovações na fábrica de caminhões e ônibus de São Bernardo do Campo, resultado do investimento de R$ 500 milhões nos últimos três anos, período em que também demitiu 5 mil pessoas.

Com a modernização da unidade e a adoção de conceitos da chamada indústria 4.0, a empresa anunciou um ganho de produtividade de 15%. 

A construtora paranaense Plaenge também investiu na melhoria de processos durante a crise. Um dos focos da Plaenge foi reduzir o tempo ocioso da mão de obra, provocado por falhas na distribuição de material para construção, como tijolos ou cimento.

“Uma construção que custava R$ 31 milhões, agora custa R$ 1,8 milhão a menos”, diz Marcelo Resquetti, gerente geral da Plaenge. 

O impulso no indicador de produtividade também veio da macroeconomia, com juros e inflação convergindo para mínimas históricas.

Segundo Alessandra Ribeiro, da Tendências, as mudanças na legislação trabalhista e a Lei de Responsabilidade das Estatais ajudaram a melhorar o ambiente de negócios, estimulando investimentos. “Os efeitos dessas reformas devem aumentar ao longo do tempo.” 

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Mas ainda há muito a fazer para livrar o Brasil da síndrome de “voo de galinha”, em que o crescimento é sempre baixo e de curta duração.

Para o País emplacar um crescimento ao “estilo chinês”, mudanças estruturais profundas precisam ser feitas. “O aumento de produtividade envolve três aspectos”, explica o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Columbia, nos EUA.

“Aumento da educação dos trabalhadores, do estoque de capital na economia e, também, maior eficiência na forma como capital e trabalho são usados de forma combinada.”

Esse terceiro ponto depende de melhorias no ambiente de negócios. Trata-se de uma agenda que envolve redução da burocracia, investimentos em infraestrutura, criação de regras e marcos regulatórios que deem clareza e previsibilidade no cumprimento de contratos, aumento da competição entre os agentes econômicos e simplificação tributária.

Posto em números, é possível ver o tamanho do desafio. A pedido do Estado, o banco Santander calculou o esforço que o País precisa fazer para aumentar o potencial de crescimento do PIB, ou seja, o quanto a economia consegue crescer sem exaurir sua capacidade e provocar alta da inflação – que depende de mais produtividade. 

Estudos do banco indicam que, hoje, o teto está próximo de 2% ao ano. Para crescer 4% de forma consistente, a taxa de investimentos terá de sair dos atuais 15,6% para 21% do PIB – e a produtividade crescer 2,3% ao ano.

“É um ritmo de crescimento que o País não consegue sustentar desde a década de 70”, diz Maurício Molon, economista-chefe do Santander.

FOTO: Malagrine/Divulgação/Mercedes-Benz