Tarifaço dos EUA não abala PIB do Brasil, mas aperta setores com menos margem, diz Welber Barral

Em entrevista, ex-secretário de Comércio Exterior aponta que móveis e calçados sofrem mais por dificuldade de redirecionar vendas, e prevê disputas judiciais e rearranjo na cadeia de fornecimento

Folhapress
17/Jul/2026
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Tarifaço dos EUA não abala PIB do Brasil, mas aperta setores com menos margem, diz Welber Barral

As tarifas de 25% anunciadas pelos Estados Unidos abriram exceções a produtos que interessam à indústria americana, mas deixaram a conta para parte da indústria brasileira.
Na avaliação do ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, o tarifaço dificilmente derruba o PIB (Produto Interno Bruto), mas aperta justamente setores que têm menos margem de manobra. "Commodities você redireciona. Móveis e calçados, não", diz em entrevista à Folha de S.Paulo.

Alguns setores, segundo ele, podem decidir levar a disputa para os tribunais nos Estados Unidos. O escritório Barral Parente Pinheiro Advogados, do qual é sócio fundador, representou a indústria de café solúvel e a do ferro gusa nas audiências públicas promovidas pelo governo americano, e os produtos acabaram incluídos na lista de exceções. Veja a entrevista: 

O tarifaço será menor do que se imaginava? Qual o impacto dessa nova tarifa?

WELBER BARRAL - Ele deve afetar cerca de 4% das exportações brasileiras.
Os Estados Unidos representam hoje 9% das exportações do Brasil e cerca de 40% dessas vendas estão atingidas pelas tarifas da Seção 232 ou pela nova medida. Como foram excluídos produtos relevantes, como carne, café, suco de laranja, boa parte dos minerais e químicos, fica basicamente a exportação de manufaturados. Não deve haver impacto no PIB, mas haverá um impacto setorial importante.

Quem sente mais?

Móveis, calçados e têxteis. É uma pena porque normalmente são empresas menores. Além disso, elas têm mais dificuldade de redirecionar suas exportações. É fácil de você redirecionar um produto padronizado, varia o preço, mas você vende. Agora, muitas vezes esses produtos são direcionados especificamente, feitos especificamente para o mercado americano, então você não consegue redirecionar muito facilmente.
O setor moveleiro, por exemplo, está investindo mais para exportar ao Oriente Médio e tentando aproveitar o acordo Mercosul-União Europeia. Já subsidiárias de empresas americanas estão deixando de exportar para os EUA e vendendo mais no mercado interno. É um rearranjo da cadeia de fornecimento para evitar tarifas mais altas.

Isso pode aumentar o desemprego no país?

Não de forma generalizada. Você terá impactos setoriais e geográficos. O interior de Santa Catarina já sente a queda de empregos no setor moveleiro. A Serra Gaúcha pode ser afetada pelos calçados. Mas isso não atravessa o mercado de trabalho brasileiro como um todo.

Quais as implicações para o Brasil se o governo Lula decidir aplicar a Lei da Reciprocidade?

A Lei da Reciprocidade não é imediata. Tem que haver uma consulta pública, ela é discutida na Camex [Câmara de Comércio Exterior], depois disso sai uma decisão. Agora, ela faz parte do processo de negociação. A gente tem que entender que a Lei de Reciprocidade não é uma vingança, ela é um mecanismo de forçar o outro país a negociar com você.

Essa disputa está perto do fim?

A negociação bilateral entre os dois governos vai continuar, mas é claro, tem uma pressão eleitoral no Brasil e nos Estados Unidos. Eles também têm eleição lá, então isso acaba tirando o foco das negociações internacionais ou criando pressões sobre os negociadores.
Outra questão é que alguns setores seguramente vão judicializar nos Estados Unidos. Eventualmente o Brasil vai continuar com o processo que já existe na OMC [Organização Mundial do Comércio], reclamando de tarifas americanas, e pode haver aplicação da Lei de Reciprocidade. Tudo isso faz parte do processo de negociação. Não vai ser uma negociação fácil nem rápida.

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