Toda unanimidade é burra! Pense nisso antes de chamar um psi de seu

A psicanálise não quer normatizar nada; ela foca no indivíduo e o seu desejo, e isso pode ser tão transgressor quanto foi Nelson Rodrigues. O olhar rodrigueano sobre os desejos, contradições e neuroses humanas ajuda a refletir sobre o espaço — cada vez mais estreito — reservado à singularidade no mundo corporativo

Escritor e psicanalista, graduado e pós-graduado em Administração pela EAESP-SP da FGV e membro de Formações Clínicas do Fórum Lacaniano de SP
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Toda unanimidade é burra! Pense nisso antes de chamar um psi de seu

Sou fã de Nelson Rodrigues. Se isso nos dias de hoje pode deixar alguns de cabelos arrepiados, imagina na metade do século passado, quando ele apresentava seus personagens com aquele olhar despudorado para dentro dos quartos e do íntimo das pessoas.

O maior dramaturgo brasileiro faleceu em 1980, aos 68 anos. Era o quinto de catorze irmãos. Mudou-se por volta dos quatro anos para o Rio de Janeiro partindo de sua Recife natal, já não lembro mais se por terra ou por mar. A mudança não foi de avião, que ele passou a temer tanto no futuro, porque em 1916 a aviação comercial brasileira não tinha sequer iniciado.

Quase no fim da vida, ele teve um lançamento em Florianópolis, e percorreu os mais de 1,1 mil quilômetros que separam essa cidade da dele num Opala, tamanho o desconforto nos ares. E ainda pioraria. A venda do evento foi de um livro. O organizador só podia ser inimigo... Um nome já consagrado, um único exemplar... Às vezes me pergunto se o próprio Nelson não armou isso, tamanho fracasso, para incluir no próprio personagem! Mas dentre as várias frases dele, uma se adequa muito bem a coluna: toda unanimidade é burra.

O gigante Nelson merece essa grande volta, e deve ser lembrado nesses momentos de tanta discórdia e falta de diálogo. A psicanálise já tinha sido atacada no livro da Natália Pasternak e do Celso Orsi, o 'Que bobagem!', cujo subtítulo é ainda mais agressivo: 'pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério'.

Ela, que foi importante fonte de informação e combate ao negacionismo durante a pandemia se escondeu atrás de padrões científicos de outra área para comparar psicanálise à constelação familiar, astrologia, homeopatia e outras. Um balaio de gatos muito injusto com um campo que produz muito conhecimento, livros e discussões rigorosas.

No meio de muitos tiroteios me deparei com um vídeo do doutor Táki Cordás, profissional respeitado que com frequência estimula a importância da visão cultural, numa conversa com outra profissional também encorpando a tal conversa das 'Evidências' - não as do sucesso de Chitãozinho e Xororó, as da 'Medicina Baseada em Evidências', que não me julgo capacitado para criticar, mas que tampouco me parece dar aos seus praticantes elementos para criticar a psicanálise.

Declaro aqui preferir os psiquiatras que também entenderam na psicanálise um complemento à sua atuação. Acho-os mais próximos de aceitar a singularidade humana. A psicanálise pode não dar conta de todos os casos de saúde mental, mas reduzi-la a autoconhecimento é um equívoco grande.

O que Freud e outros psicanalistas discutiram é de um grau de seriedade ímpar. Freud meteu a mão num vespeiro e se manteve em constante revisão de sua longa produção, alterando as notas e permitindo um rastreamento; tentou ser claro e sim, quis tratar a psicanálise como ciência.

Mas era uma época muito mais limitada, os scans cerebrais são da década de 1970. A ética psicanalítica, praticada na enorme maioria das clínicas, todo campo tem uma variedade de profissionais e seres humanos complexos e isso não se resolve com diploma, é muito ruim de marketing, sempre conservadora em não praticar o over promise. Sempre se dispondo a encarar a brutalidade e estranheza da vida de frente, sem idealizações. Ela recorreu ao espelho para nos vermos sem maquiagem, sem fantasias, ainda que maquiagens, fantasias e desejos sejam sua essência.

A psicanálise não quer normatizar nada; ela foca no indivíduo e o seu desejo, e isso pode ser tão transgressor quanto foi Nelson Rodrigues. Não há certo e errado, há o que se deseja e como assumir e se ver com tanto. É uma promessa muito distante do universo corporativo com suas padronizações, metas comuns, idealizações e o desejo de um outro, na maioria das vezes, tão distante e desconectado dos indivíduos.

Já trabalhei em médias e grandes empresas, já fui empreendedor. Entendo a importância das tais metas coletivas, do pouco espaço para o sujeito numa empresa, os poucos que conseguem se lambuzam de narcisismo. Sim, estou dizendo, ou redizendo, que psicanálise e universo corporativo não são irmãos siameses - estão longe disso -, mas ela pode ser uma importante aliada dos membros dessas equipes.

Estou dizendo que não acredito em psicanalista que também é coach, duas atividades no meu espectro incompatíveis, e olho várias alas da psicologia com desconfiança. Algumas linhas da psicologia querem melhorar um indivíduo, acreditam que exista um caminho adequado. A psicanálise é mais transgressora.

Não seria possível num espaço relativamente pequeno apresentar uma definição minimamente ampla dos psis existentes. São muitas abordagens e, em teoria, terapia é diferente de análise. Jogo no time dos psicanalistas, dos herdeiros de Freud e Lacan, não proponho a ninguém soluções, melhorias aos olhos dos outros. Talvez a psicanálise não seja mesmo para todo mundo, mas vai muito além do tal autoconhecimento - o que não tenho dúvida que entrega; sim, ela mitiga sofrimento. Mesmo uma pessoa corretamente medicada precisa ser ouvida, precisa se manifestar.

É um erro acreditar que balanço químico dá conta, por mais que seja fundamental na maioria dos casos. Esse sem olhar o inconsciente, que não aparece em nenhum exame já inventado, tampouco possibilita uma vida integrada.

Ah, a psicanálise chegou até aqui se autoregulando, essa história de faculdade é mais uma tentativa de imposição ideológica. Sim, psicanálise e religião também não são irmãs siamesas. Mas são cheias de igrejinhas - vide as linhas e escolas. Psicanalistas não conseguem disfarçar se não leram os livros que têm em seu consultório: os bons leram muitos, discutiram um bocado com seus pares, supervisores. Mesmo sem provas e outros cacoetes de uma faculdade.

Na psicanálise, há o que Lacan chama de desejo do analista: ele é mais forte do que vestibular, provas e canudo com beca no final. Se para quem procura um analista ou terapeuta fica difícil escolher, sugiro conversas, entrevistas, e leituras de alguns livros pensados para leigos. Comece. Não está satisfeito, mude. Mas não em busca de zona de conforto, nem certezas: (Fernando) Pessoa já avisava que viver não é preciso.

A unanimidade é burra, e a humanidade, além de complexa, tem uns tipos que francamente... e nem todo humano quer encarar seu desejo e inconsciente, por mais que devesse. Se os poetas adicionam pequenices que fazem diferença, Caetano lembra que é possível sentir as dores e as delícias de ser quem é...

 

IMAGEM: Arquivo Nacional

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