O albatroz e o pavão
Da metáfora do poema de Charles Baudelaire às exigências do mundo corporativo, reflexão propõe um olhar sobre o preço de sufocar a própria natureza para se adaptar às expectativas alheias

“O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia, que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar; exilado no solo, em meio ao riso e à vaia, suas asas de gigante impedem-no de andar.”
Esse é o trecho final do poema 'Albatroz', de Charles Baudelaire, reconhecido por muitos como um dos fundadores da tradição poética moderna. Buscando inspiração para a coluna ouvia lá no Fórum Lacaniano dois colegas apresentarem um texto de Freud: 'Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica.'
Um deles falou do 'Homem cordial', de Sérgio Buarque de Holanda, como um exemplo de como os tipos das teorias não são diretamente iguais às pessoas que encontramos na vida real. Homens de negócio correm o risco de achar que os poetas são desnecessários, atrapalham as metas, o lado pragmático da vida. Será que a vida tem apenas esse lado pragmático? É somente propósito, meta e bônus? Sorte sua se tem obtido bônus a um custo razoável de esforço ou couro pessoal - isso, couro, o mesmo da expressão, 'de tirar o couro.'
A espécie humana não consegue fugir das subjetividades, da singularidade de cada um. Por um lado, isso é ótimo; por outro, motivo de sofrimento. Pior, sem o entendimento e aceitação de tantos que não conseguem se livrar dos discursos e práticas que incentivam a objetividade, acreditam ou simulam acreditar num ideal impossível de praticar por muito tempo, onde o conceito do que é ser bem-sucedido está cada dia menos claro. Para onde vamos?
O mesmo colega que citou o pai do Chico Buarque contou de sua atração por estudar o fracasso e o quanto o francês Baudelaire representava esse “papel”. Na vida prática, não fez esforço para se enquadrar às regras, se viu podado do acesso aos recursos da família por mau comportamento, seu principal livro foi censurado, ele e a editora multados: parte dele considerado um atentado à moral.
O poema citado acima tenta mostrar que a beleza de um albatroz voando se torna uma inutilidade no solo, mesmo que seja num navio, tão perto do mar que lhe é caro. O que você anda fazendo com suas asas? Cuidado, talvez você não seja uma ave de caminhar, ou ainda que consiga, talvez a necessidade de voar te traga estragos bem mais profundos do que gostaria de admitir.
Foco nos dois tipos que os colegas escolheram na apresentação: os que fracassam no triunfo e os criminosos por sentimento de culpa. Se um neurótico adoece pela frustração, pelo conflito entre seus desejos e suas possibilidades, suas fantasias e sua realidade, há os que dão tudo o que podem, dedicam-se como poucos a algo que queriam muito e quando conseguem, chegam lá, ficam doentes, travam, se boicotam. Isso é possível?
Muito mais do que pode imaginar, isso, se não tem uma história pessoal para ilustrar. Seja franco, só compartilhe com você mesmo ou com o seu analista, é claro. Nem todos se permitem triunfar completamente. Temos conflitos com os desejos inconscientes, culpas, fantasias que trazemos da infância, ou proibições que nos foram impostas e sequer sabemos que temos, ou se sabemos, fingimos não ter.
O juiz interno do merecimento não costuma ser alguém bacana! Se tiver disposição, olhe para Lady Macbeth: vale a pena.
O outro tipo, os criminosos por sentimento de culpa, cometem crimes porque já carregam uma culpa dentro de si, ainda que inconsciente. E aí, se me sinto culpado, muitas vezes cometer algum delito passa a ser um alívio, uma justificativa para tal sentimento, uma espécie de calmante. Estranho? Pode parecer, mas atire a primeira pedra quem já não quis ser punido por ter desejado algo proibido.
O nosso inconsciente está pouco se lixando para o RH e as metas arrojadas da gestão da vez. Quem ignora isso arrisca piorar a saúde mental das pessoas. Sim, nós mesmos somos capazes de agir contra os nossos próprios interesses diante de conflitos inconscientes. Sou suspeito, mas aí entra um processo analítico, que objetiva colocar a pessoa em contato com o que carrega dentro de si, deixando de terceirizar suas ações, assumindo seu protagonismo, no bom e no ruim.
Burnouts, culpas, autossabotagens não acontecem apenas na concorrência ou na área do seu par. É preciso estar atento. Quantos albatrozes estão incomodados sem conseguir andar no piso do seu navio?
Onde entram os pinguins nessa história toda? Um pavão na terra dos pinguins foi o primeiro livro que editei. Escolhi, negociei e traduzi. O título não facilita, não foi fácil começar uma editora de livros de negócios com ele, alguns pensavam que era literatura infantil, livro sobre bichos. Era uma fábula empresarial, onde os pavões eram admirados e contratados por sua plumagem colorida. Mas no fundo o objetivo era que vestissem a casaca dos pinguins e ficassem iguais a todo mundo. Já viu algo assim no mundo empresarial?
Para o meu deleite, esse livro virou leitura de muitas pessoas que trabalhavam no Unibanco e foram incorporados ao Itaú, foram elogiados por sua diferença, mas de fato deviam é se encaixar nas regras do novo dono. Pena que na época eu ainda não era analista, não podia atender.
A poesia não ajuda a bater metas, realizar tarefas, mas pode sim te colocar diante do sucesso pessoal, uma visão mais ampla e um bocado de paz.
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