Prédios retrofitados começam a mudar o perfil do Centro de SP

Carregados de história, projetos como o Basílio 177 (na imagem) e o Renata Sampaio trazem áreas comuns mais versáteis que as tradicionais piscinas e academias e têm o comércio como âncora

Mariana Missiaggia
21/Mar/2024
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Prédios retrofitados começam a mudar o perfil do Centro de SP

Inaugurado em 1939, o antigo prédio da Telesp, na rua 7 de abril, República, passou mais de uma década desocupado até ser escolhido para fazer parte de um novo empreendimento, o Basílio 177. Trata-se de um condomínio de apartamentos residenciais distribuídos em três torres, que replicará o conceito que teve sucesso no Copan, o de fachada ativa, e terá uma galeria de lojas e restaurantes no térreo.

Tombado em 2012 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), o imóvel, em art déco, foi assinado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, o mesmo que projetou o Theatro Municipal paulistano.

Para viabilizar o Basílio 177, o antigo prédio da Telesp passará por um processo de retrofit, realizado dentro das normas do programa Requalifica Centro (Lei 17.577/21 - regulamentada em 2022), que garantirá ao prédio um novo uso.

No decreto, assinado pelo prefeito Ricardo Nunes, o poder público municipal concede R$ 1 bilhão para os projetos do Requalifica Centro. O objetivo da injeção de recursos é justamente atrair empreendedores do setor imobiliário para investir no Centro ao subsidiar até 25% do valor das obras de requalificação de prédios na região.

De acordo com a Casa Civil da Prefeitura de São Paulo, mais de 30 projetos de retrofit foram apresentados, sendo que 14 já foram aprovados com incentivos, como isenção de taxas municipais e redução do ISS nos custos de engenharia. Além disso, seis projetos estão em análise.

COMÉRCIO E SERVIÇOS PARA ATRAIR MORADORES E VISITANTES

Há poucos metros da estação República, o acesso do Basílio 177 se dará pela Rua Basílio da Gama. Serão cerca de 280 apartamentos com metragens que variam de 34 até 291 metros quadrados.

No térreo, a grande aposta do projeto é a Galeria Ramal: um food hall com restaurantes comandados por renomados chefs de cozinha, lojas de design e serviços. Haverá ainda uma praça interna para feiras e ativações artísticas que conectará a rua Basílio da Gama com a Sete de Abril.

A expectativa é que esse misto de unidades residenciais com oferta de comércio e serviços em um mesmo lugar sirva não só para revitalizar o amplo andar térreo do prédio principal do empreendimento, mas também para atrair o olhar daqueles que não pensariam em escolher o endereço para chamar de seu. 

A presença de uma juventude interessada em migrar para a região com o objetivo de morar, empreender, consumir e se entreter no mesmo espaço, somado aos incentivos da Prefeitura é o que reforça a aposta neste tipo de construção. E a clientela, em grande parte, é formada por moradores entre 29 e 40 anos.

“É algo que remete ao luxo, pela alta qualidade construtiva, o refinamento embarcado no ativo e a exclusividade, pois é um projeto que não pode ser replicado. Além disso, carrega um propósito, que é a preservação do legado arquitetônico da cidade”, diz Bruno Scacchetti, CEO da Metaforma.

Com uma massa de prédios construídos especialmente entre as décadas de 1950 e 1990, muitos estão desatualizados para o uso. Por essa razão, o retrofit se torna uma solução comercial bem mais viável.

A demanda por essa atividade específica vem sendo conduzida por escritórios como a Somauma, Planta.Inc e Metaforma, que veem com otimismo o momento do retrofit na cidade. A justificativa é que, pela primeira vez, poder público, iniciativa privada, os criativos e a sociedade de uma maneira geral parecem empenhados em fazer esse movimento acontecer.

Esses novos projetos trazem consigo áreas comuns mais versáteis que as tradicionais piscinas e academias, além de ter o comércio como âncora e conectar arquitetura com expressões artísticas, enriquecendo a experiência dos empreendimentos.

NOVOS JEITOS DE MORAR

Entregue em outubro do último ano, o edifício Renata Sampaio Ferreira, construído em meados da década de 1950 na esquina das ruas Major Sertório e Araújo, na região central, também recebeu incentivos da Lei do Retrofit.

Edifício Renata Sampaio disponibiliza locação com tempo mínimo de dois dias de permanência (Foto: Emilia Rodrigues/divulgação)
 
Projetado pelo arquiteto Oswaldo Bratke e tombado pela Prefeitura em 2012, o retrofit foi tocado com investimento próximo a R$ 70 milhões. Ali, a conversão de um prédio tombado, antes ocupado por escritórios, em residências foi algo um pouco diferente, além de complexo.
 
São 93 unidades residenciais de 25 a 284 metros quadrados divididos em 5 tipologias: estúdio, um quarto, dois quartos e duplex de dois a três quartos. Com nenhum deles à venda, os apartamentos estão disponíveis apenas para aluguel de curta, média e longa duração, por meio da plataforma Tabas.
 
Além disso, serviços como academia, sauna e piscina são abertos ao público em sistema Day Use e fazem do empreendimento um ponto de encontro ao abraçar não somente moradores, mas quem passa pelo entorno com suas instalações.
 
A poucos passos do Copan, a localização do Renata Sampaio tem certa vantagem nesse processo. Isso porque a Vila Buarque foi a região que começou a transmitir maior sensação de segurança no Centro por ter maior circulação de pedestres e moradores. A lógica de que quanto mais gente morando, mais segurança se tem é reforçada por ali.
 
A cada semana surge um novo bar, café ou restaurante na região, cada um deles com uma proposta ou identidade diferente, buscando atender a públicos distintos. A efervescência na área cultural também é bem relevante, com a abertura de novos espaços culturais de grandes instituições, além da intensa movimentação de coletivos e artistas independentes de diversas áreas.
 
Nos últimos anos, novidades como o Sesc 24 de Maio e o Farol Santander se juntaram a espaços culturais importantes que já funcionam há algum tempo, como Teatro Porto Seguro, Centro Cultural Banco do Brasil, Red Bull Station e Caixa Cultural.
 
A gastronomia, outra vertente da economia criativa, é ainda mais perceptível. A presença de chefs badalados, como Olivier Anquier (restaurante Esther Rooftop) e Jefferson Rueda (Casa do Porco) atraiu uma safra de novos empreendimentos importantes para a capital. Bar dos Arcos, Abaru e Fel são exemplos de negócios que carregam um DNA criativo.
 
Para além dos restaurantes que estão voltando e dos prédios que estão sendo construídos, muitas iniciativas públicas, como mais policiamento, câmeras e bases comunitárias, ressignificam esse novo momento do Centro, segundo Scacchetti.
 
Outro ponto levantado por Isadora Rebouças, CEO da Cita, empresa voltada para requalificação de ativos imobiliários via retrofit para locação de apartamentos, é que esse modelo de negócio traz consigo a integração de práticas sustentáveis com a revitalização urbana.
 
Responsável pelo empreendimento 497 República, na própria Praça da República, Isadora destaca que o retrofit gerou uma economia de 70% no consumo de materiais quando comparado à construção de um edifício novo.
 
Neste reaproveitamento de materiais, as estruturas foram mantidas, as esquadrias reformadas, 60% dos pisos existentes foram reaproveitados, além da preservação dos acabamentos nos halls dos elevadores e da redução mínima de 20% nas despesas com energia e água.
 
 
 
IMAGEM: Reprodução

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