Nos corredores de Brasília | Para Lula, tarifaço não é problema; seu medo é de tratoraço
Para o Planalto, está disseminado que a taxação norte-americana tem a digital bolsonarista. Achar uma solução para a dívida rural que agrade ao agro é o que preocupa o governo

A sombra do tarifaço
Os Estados Unidos indicaram ao governo que devem oficializar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Lula aguarda a publicação do ato da Casa Branca para conhecer a lista de exceções e medir o tamanho do estrago. A decisão pode acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, mas o governo ainda tenta manter aberta a negociação com Washington. A crise chega em momento delicado: envolve comércio, diplomacia e eleição. No Planalto, a leitura é que o tarifaço tem componente político e carrega a digital da aproximação da família Bolsonaro com aliados de Donald Trump.
Alcolumbre acena ao marco temporal
Questionado pelo senador Dr. Hiran (PP-RR), Davi Alcolumbre (União-AP) prometeu discutir em agosto a PEC do marco temporal das terras indígenas. O presidente do Senado disse que vai reunir líderes para deliberar sobre a proposta e afirmou que “já demos muito tempo” ao tema. O movimento aumenta a pressão sobre o Planalto e recoloca na mesa uma pauta sensível para Lula, para o Supremo e para o agro.
Casadinha no judiciário
Ao mesmo tempo, Alcolumbre freou o avanço de uma pauta-bomba no Senado e passou a condicionar os próximos passos a uma conversa com Lula. A PEC que cria aposentadoria especial para os agentes comunitários de saúde é tratada pelo Planalto como risco fiscal bilionário. O texto chegou a ser aprovado e elevou a pressão sobre o governo, mas a aposta no Planalto é que o STF barre a proposta por impacto nas contas públicas e invasão de competência do Executivo.
Lula em disputa interna
A pré-campanha de Lula também virou campo de batalha dentro do próprio PT. Aliados travam embates que vão do jurídico à comunicação e já alcançam o plano de governo. A disputa é por poder e influência no desenho da campanha: de um lado, petistas defendem nomes mais técnicos para blindar a candidatura; de outro, prevalece a lógica do acesso político ao presidente. A briga expõe um problema conhecido no entorno de Lula: antes mesmo da campanha começar oficialmente, já há mais gente tentando ocupar espaço do que organizar uma estratégia única.
Governo fora do compasso
A reunião do governo com a bancada ruralista sobre o endividamento rural expôs uma disputa de narrativa dentro do próprio Planalto. Enquanto o ministro Dario Durigan (Fazenda) explicava as reduções feitas sobre a proposta inicial apresentada pelos produtores, Paulo Pimenta (PT-RS) interrompeu a fala e tentou enquadrar o anúncio em tom político. O gesto gerou desgaste na mesa e reforçou a leitura de que o gaúcho já está com a cabeça na eleição do Rio Grande do Sul. No tema mais sensível para o agro antes do recesso, o governo mostrou que nem sempre fala a mesma língua.
Motta troca voto por acordo
O presidente da Câmara tentou virar o jogo na solução das dívidas rurais. Depois de segurar o PL 5.122/2023 na Câmara e enfrentar desgaste com a bancada do agro, o presidente da Casa anunciou acordo com o governo para tratar a renegociação das dívidas por medida provisória. A saída tira a pressão imediata do plenário, mas também desloca o protagonismo do Congresso para o Planalto. Para os ruralistas, o teste agora será o texto: se a MP vier menor que a minuta acordada, Motta terá apenas trocado uma votação difícil por uma nova rodada de cobrança em período eleitoral.
Defesa tenta blindar Bolsonaro
A defesa de Jair Bolsonaro (PL) afirmou ao STF que o ex-presidente não sabia que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgaria nas redes sociais a carta em que pedia apoio à candidatura do filho. A manifestação responde à decisão do ministro Alexandre de Moraes, que vetou por 90 dias os encontros. A linha jurídica tenta separar pai e filho no episódio: Flávio teria decidido divulgar o documento sem informar previamente o ex-presidente. Politicamente, a explicação busca reduzir o risco de nova punição a Bolsonaro, mas mantém Flávio no centro do desgaste da pré-campanha.
Ciro organiza o tabuleiro
O recesso parlamentar deve ser usado por Ciro Nogueira (PP-PI) para avançar nas conversas da direita até as convenções. Presidente nacional do partido e copresidente da Federação União Progressista (PP e União Brasil), o senador virou peça central na montagem dos palanques estaduais e na definição do tamanho da direita no projeto de 2026. Com o Congresso em pausa, a disputa sai do plenário e vai para as mesas de articulação: alianças, chapas, tempo de TV e palanques regionais.
IMAGEM: Manifestação do agro em Brasília em 2005 (Sergio Lima/Folhapress)

