Impasse na Linha 16-Violeta trava R$ 1 bi em investimentos na Mooca
Projeto do Governo de SP prevê desapropriar área industrial de 210 mil m² que engloba as avenidas Henry Ford (foto), Cariri e Presidente Wilson para construção de pátio de manobras do Metrô. Entre as empresas afetadas estão Lorenzetti, La Pastina, Shopee, Mercado Livre e Loggi

Há pelo menos três anos, o projeto de instalação de um pátio intermediário de manobras para a futura Linha 16-Violeta do Metrô preocupa empresários do tradicional polo industrial da Mooca, na Zona Leste de São Paulo. Ocorre que, se avançar nos moldes atuais, a obra ameaça desestruturar a economia local.
Segundo dados do Polo Empresarial Mooca, a intervenção colocaria em risco 228 empresas instaladas em uma área de 421 mil metros quadrados, 70 mil postos de trabalho diretos e indiretos e R$ 12 bilhões em faturamento anual gerado pelo polo.
O impasse ganhou força após o projeto passar por consulta pública em novembro de 2025, ainda sem um desfecho definitivo. De acordo com Anderson Festa, presidente do Polo Empresarial Mooca, o descontentamento dos empresários gira em torno da intenção do Governo do Estado de utilizar cerca de 100 mil metros quadrados na Avenida Henry Ford para estacionamento e manutenção dos trens. Para viabilizar o pátio, ele diz que galpões centenários terão de ser demolidos.
"O temor da comunidade empresarial é que a chegada dos trilhos force a saída de negócios históricos e resulte em demissões em massa, sacrificando a vocação industrial do bairro em nome da mobilidade urbana", diz Festa.
Inicialmente administrada pelo Metrô, a linha passou em agosto de 2022 para as mãos da Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI). No início de 2023, sob a justificativa de restrições orçamentárias e para viabilizar os investimentos, a SPI fatiou o projeto original (que teria 25 estações interligando a Cidade Tiradentes ao Centro) em duas etapas.
Para viabilizar a primeira fase - que sairá da Oscar Freire e terminará na rua Abel Ferreira -, o governo desenhou um pátio intermediário de manobras exigindo 210 mil metros quadrados de desapropriação comercial e industrial, englobando trechos das avenidas Henry Ford, Cariri e Presidente Wilson.
Entre os nomes que mantêm operações por ali estão grupos conhecidos como La Pastina, do segmento alimentício, e a Lorenzetti, do segmento elétrico, além de Shopee, Mercado Livre e Loggi, inquilinas de galpões que seriam desapropriados, com centros de distribuição ativos.
Festa aponta também que a área concentra o maior ecossistema da indústria do aço do país, responsável pelo abastecimento da construção civil nacional, movimentando cerca de 850 carretas com toneladas do material diariamente. A Alumínios Jangada, do setor de metalurgia e transformação de alumínio, que atua no mercado de reposição de peças para eletrodomésticos, é uma das que podem ter os galpões desapropriados e ocupa uma área de 5 mil metros quadrados, conta com 200 maquinários e 100 funcionários.
"Estamos falando de indústrias centenárias, com contratos complexos a serem honrados. Algumas levariam até dois anos apenas para desmontar seus equipamentos. O custo de mudança para essas empresas é simplesmente inviável. Elas teriam que fechar as portas ou ir embora de São Paulo", diz Festa.
Ele destaca que o impacto atingiria também, indiretamente, até o Shopping Mooca, uma vez que a desestruturação do polo afetaria o emprego e a renda per capita de quem frequenta a região. Festa diz que o shopping pensa em expandir em 50% o empreendimento. No entanto, mesmo estando a 700 metros da obra, o plano pode ser engavetado com a chegada do pátio de trens, que pode deteriorar o entorno, afastando a atratividade do bairro.
“Esse risco de ter um pátio de manobras a 700 metros do empreendimento vai afastar a atratividade do local e é por isso que o Shopping está bastante preocupado. O Plano Diretor determina que novos eixos de mobilidade devem respeitar o que já existe consolidado na cidade. Porém, esse projeto foi feito com desconhecimento total do valor histórico e econômico da região."
Investimentos travados
Na visão de Festa, a indefinição do governo estadual já cobra o seu preço no presente. De acordo com o Polo Empresarial, mais de R$ 1 bilhão em investimentos privados estão travados na região devido à falta de uma decisão, que impede as empresas de apostarem em suas linhas de produção.
Outro ponto, segundo Festa, é que os estudos apresentados pelo governo estadual para a futura linha não apresentam os impactos socioeconômicos. Ele diz que existem empresas ali com licenças especiais para operar, mas que hoje não conseguem mais essas autorizações e, possivelmente, devem encerrar suas operações ou mudar de estado.
"Os trabalhadores estão amedrontados. Muita gente comprou imóvel e veio morar na Mooca para ficar perto do trabalho e agora está com medo do desemprego. A situação social começa a sair do controle", diz.
Alternativas
Em outubro do ano passado, durante audiência pública, o Polo Empresarial Mooca enviou 29 sugestões técnicas para o governo. Festa diz que foi contratado um escritório de engenharia para elaborar um pré-projeto com alternativas tecnicamente viáveis e com impacto social e econômico próximo de zero. O estudo foi apresentado oficialmente em dezembro de 2025 ao prefeito Ricardo Nunes e à SPI, ele diz. Duas alternativas principais foram colocadas na mesa do governo.
Uma delas considera o Viaduto São Carlos, em uma área de 144 mil metros quadrados sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que, segundo Festa, atualmente está degradada e ocupada. Outra alternativa seria a antiga área da Antárctica, que o presidente do Polo diz não ter edificações ou áreas tombadas e que poderia revitalizar o local.
Embora classifique o governo estadual como "aberto e receptivo ao diálogo", Festa aponta que o desconforto dos empresários da região está na falta de resposta. Para ele, a fase de debates técnicos já foi superada e o que falta, agora, é uma decisão. "Sentimos que falta vontade política. Já vencemos as etapas de discussão, já provamos os impactos e apresentamos as alternativas técnicas. Mas o governo está evitando e adiando as linhas mais polêmicas", diz. "Vemos um grande risco de empurrar para o ano que vem e o governo mudar, o projeto regredir ao zero e os investimentos continuarem travados."
Para piorar o cenário de indefinições, Festa diz que a Mooca também se vê ameaçada por outra frente: a Linha 6-Laranja, que prevê a Estação São Carlos na região. Segundo o representante do Polo, o projeto da Linha 6 carrega um erro ao planejar desapropriações de indústrias privadas enquanto ignora galpões ociosos que pertencem ao próprio Governo do Estado a poucos metros dali.
"Há um discurso público do governo focado em reindustrializar o estado de São Paulo, mas, na prática, os projetos apresentados não são proporcionais a essa meta. Nós queremos e precisamos de mais celeridade e clareza desse posicionamento", conclui o presidente do Polo Mooca.
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IMAGEM: Adriano Vizoni/Folhapress

