Estamos presenciando o fim da Balenciaga?

Em mais uma polêmica, a nova campanha da marca espanhola traz imagens de crianças em contextos sexuais e gera revolta nas redes sociais, que colocam em xeque um dos nomes da moda mais influentes do momento

Mariana Missiaggia
01/Dez/2022
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Estamos presenciando o fim da Balenciaga?

Tudo parecia ser uma campanha de fim de ano comum lançada na semana passada, mas desde que foi divulgada, a Gift Shop, nova linha de presentes da grife espanhola Balenciaga, tem levantado uma série de acusações.

Composta de alguns acessórios e itens para casa, algumas das fotos publicadas mostram crianças segurando ursinhos de pelúcias com looks de couro e outros adereços usados em práticas sexuais, cercadas por outros produtos vendidos pela marca.

Não demorou nada para que a empresa fosse acusada de incitar pedofilia com a mensagem de sexualizar menores de idade. Em poucas horas, todo o feed da marca foi apagado (prática feita de tempos em tempos pela marca), com exceção de um comunicado no qual a Kering, grupo do qual a grife faz parte, se desculpou pelo ocorrido e reiterou o repúdio a qualquer forma de exploração e abuso de menores. A marca veio a público com o seguinte pedido de desculpas:

“Pedimos sinceras desculpas por qualquer ofensa que nossa campanha de férias possa ter causado. Nossas pelúcias não deveriam ter sido apresentadas com crianças nesta campanha. Removemos imediatamente a campanha de todas as plataformas. Levamos este assunto muito a sério e estamos tomando medidas legais contra as partes responsáveis por criar o conjunto e incluir itens não aprovados para nossa sessão de fotos da campanha Spring 23. Condenamos veementemente o abuso de crianças de qualquer forma. Defendemos a segurança e o bem-estar das crianças”, diz a nota.

Mesmo assim, a publicação não surtiu efeito, pois a nota dá a entender que a culpa foi da produção e do fotógrafo, mas o auê só aumentou nas redes sociais. Sem se responsabilizar e propor uma ação concreta, as desculpas soaram mais como algo protocolar.

INTERNET PASSOU A RELACIONAR AS OBRAS DE MICHAEL BORREMANS, QUE EXPLORA IMAGENS DE CRIANÇAS, À INSPIRAÇÃO DA DIREÇÃO DE ARTE DA BALENCIAGA

 

E a história ainda piora. No Twitter, onde todo o auê começou com a hashtag #cancellingbalenciaga, alguns usuários passaram a divulgar detalhes de uma outra campanha, do verão 2023. Um deles, foca em um livro disposto sobre a mesa, em que a atriz Isabelle Huppert apoia seus pés. É do artista belga Michael Borremans. Ainda que seu trabalho seja variado, muitos deles apresentam crianças – às vezes de maneira bem perturbadora.

A partir disso, a internet começou a explorar a fonte de inspiração da direção de arte da marca e a relacioná-la com as obras do autor. Em outro recorte de outra coleção, a bolsa Hourglass em parceria com a Adidas, está colocada sobre um monte de papéis. Em um zoom, uma dessas folhas revela uma cópia de uma decisão da Suprema Corte estadunidense, na qual o tribunal manteve uma lei federal que proíbe o favorecimento de pornografia infantil.

Com muitas celebridades declarando sua indignação, Kim Kardashian, principal rosto de anúncios da grife, se posicionou. Disse se sentir revoltada e que está repensando sua relação com a empresa.

“Como mãe de quatro filhos, fiquei abalada com essas imagens perturbadoras. A segurança das crianças deve ser considerada com a maior consideração e qualquer coisa contra ela não deve ter lugar em nossa sociedade – ponto final”, escreveu em um post na sua conta no Instagram.

Tanta repercussão já gera também outros efeitos, o site The Business of Fashion havia anunciado no começo do ano que entregaria o prêmio Global VOICES de 2022 ao diretor criativo da Balenciaga, Demna, mas já anunciou que não entregará mais o prêmio.

Contratado como diretor criativo, Demna ganhou plenos poderes dentro da Balenciaga e é o responsável por toda a visão e visual da Balenciaga – do interior das lojas, ao feed no Instagram e, principalmente, as imagens publicitárias ou qualquer comunicação feita por lá.

Outro que foi alvo de críticas foi o fotógrafo Gabriele Galimberti, o profissional responsável pela campanha Gift Shops. Sua contratação se deu especificamente pela série Toy Stories. Durante um ano, o italiano visitou mais de 50 países, nos quais registrou crianças em suas casas ou vizinhanças com seus pertences mais preciosos: seus brinquedos. Em boa parte de seu trabalho pessoal, as imagens de Galimberti carregam um tom de crítica social, com um tratamento visual bem plástico.

O fotógrafo também se posicionou. Disse que não estava em posição de comentar as escolhas da marca e reforçou que não foi encarregado de escolher os produtos, os modelos e a combinação de ambos. Ainda assim, a internet não engole a história e a maioria das publicações argumenta que uma campanha passa pelos olhos de muitos para acreditar numa infeliz coincidência.

O que fica claro é que com as redes o boicote é feito por qualquer um que não deseja associar sua identidade a uma marca, mas muitas vezes, esse comportamento vem em massa. E então, fica a dúvida: retirar a campanha e pedir desculpas, basta?

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IMAGENS: Balenciaga/divulgação

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