Do virado à paulista à volta ao mundo (no Centro de SP)

Provocação de amigo mineiro me levou a refletir sobre o que seria a gastronomia tipicamente paulistana

Vitor França
20/Jun/2026
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Do virado à paulista à volta ao mundo (no Centro de SP)

Um velho amigo entrou em contato comigo perguntando se tudo bem ele passar meu Whatsapp para um amigo dele de infância, mineiro, que viria ao centro de São Paulo pela primeira vez.

“Ele vai ficar uma semana em São Paulo. Alugou um apartamento na República. Como sei que você é apaixonado pelo Centro, pensei que poderia apresentar alguns lugares aí para ele”.

O amigo mineiro entrou em contato na segunda e marcamos de nos encontrarmos no dia seguinte para um almoço no restaurante Virado-SP, perto do local onde trabalho. Seria uma oportunidade não apenas de apresentar-lhe o Largo do Arouche, seu famoso mercado de flores e a escultura do Victor Brecheret, mas também de apreciar o prato (ao menos para mim) mais tipicamente paulistano: o irado à paulista. 

“O virado à paulista é o prato do dia da segunda-feira, servido no almoço às segundas em praticamente todos os botecos e pê-efes de São Paulo. Mas como hoje é terça, e eu queria te apresentar esse verdadeiro patrimônio paulista, achei uma boa virmos aqui, onde o virado é servido todos os dias”, expliquei.

Ele gostou da sugestão. Hesitou um pouco na hora de fazer o pedido, quase optou pelo parmegiana – outro destaque do cardápio do Virado-SP e da culinária paulistana –, mas acabou me acompanhando no prato típico que dá nome ao restaurante.

“Muito gostosa a comida, Vitor, mas o tal do virado à paulista é meio que o tutu à mineira disfarçado”, comentou ironicamente o amigo pouco depois que os pratos foram servidos.

Tutu de feijão, pão de queijo, torresmo, frango com quiabo. A culinária é um dos traços mais marcantes da cultura mineira, de forma que é curioso mesmo pensar que o cozido de feijão com farinha servido com arroz, couve, linguiça, torresmo, ovo e bisteca seja um prato tipicamente paulistano, reconhecido inclusive como patrimônio cultural imaterial do Estado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Governo do Estado de São Paulo).

A similaridade entre o virado à paulista e o tutu à mineira, porém, não é mera coincidência. Pela história que me contaram certa vez, no passado os bandeirantes paulistas transportavam em suas viagens recipientes com feijão cozido, farinha de milho, carne seca e toucinho. Os ingredientes acabavam se misturando com o chacoalhar dos animais utilizados no transporte, formando o prato que, exatamente pela mistura, acabou levando o nome de virado.

A receita à base de feijão, milho e porco, assim, teria migrado de São Paulo para Minas Gerais na garupa dos bandeirantes, que viajavam para lá em busca de ouro no século XVIII – o que teria dado origem ao tutu à mineira.

Por outro lado, entendo a provocação do amigo mineiro: ainda que o virado à paulista (ao lado de outros pratos como o parmegiana ou o sanduíche de mortadela) possa ser considerado um prato tipicamente paulistano, a culinária em São Paulo não parece um traço de identidade tão marcante quanto é a culinária, por exemplo, em Minas Gerais – em São Paulo mesmo há muitos restaurantes mineiros, mas desconheço restaurantes paulistas espalhados por Minas Gerais ou qualquer outro estado brasileiro. 

Parte desse fenômeno pode ser explicado pelo crescimento exponencial de São Paulo ao longo dos séculos XIX e XX, impulsionado pela vinda para cá de migrantes de todas as partes do país e imigrantes de diferentes países do mundo. Até o século XVIII, quando as cidades de Minas Gerais viveram seu apogeu econômico e populacional durante o Ciclo do Ouro, a cidade de São Paulo era uma vila pequena e isolada que servia apenas como base de partida para as expedições dos bandeirantes

O cenário de São Paulo só mudaria radicalmente na virada do século XVIII para o XIX, com o começo da expansão cafeeira, que também deu início à forte entrada de imigrantes, principalmente italianos e japoneses, mas também portugueses, espanhóis, sírios e libaneses, para citar apenas os principais grupos. Depois veio o enriquecimento com a industrialização e o resto da história todo mundo conhece. Pode-se dizer, assim, que a identidade de São Paulo é caracterizada exatamente por essa imensa diversidade cultural.

Pensando nisso, propus ao amigo mineiro que deixássemos de lado a polêmica em torno do tutu e aproveitássemos a semana dele em São Paulo para fazermos uma volta gastronômica ao mundo pelo centro da cidade. Sugeri que começássemos, já no dia seguinte, pelo Almanara da Rua Basílio da Gama, um marco da culinária árabe.

“Almanara? Aquele de shopping?”, ele perguntou meio decepcionado. Expliquei então que o Almanara do centro foi o primeiro da rede a ser inaugurado na cidade, ainda na década de 1950, e que mantém até hoje características da arquitetura original, o que inclui um lindo painel com figuras de beduínos pintado à mão. “Além disso, é o único que tem opção de rodízio”, disse empolgado.

Como ele queria muito conhecer e fazer compras na 25 de março (rua simbólica onde se estabeleceram comerciantes sírios, libaneses e armênios), acabamos combinando de almoçar no Raful, outro delicioso clássico da culinária árabe da cidade.

Na quinta-feira, influenciado inclusive pela tradição paulistana dos pratos do dia (e quinta é dia de massa!), minha sugestão foi comida italiana no Bixiga. Encontramo-nos em frente à biblioteca Mário de Andrade e de lá caminhamos pela Martins Fontes até a Avanhandava, a charmosa via decorada com fontes, bancos, luminárias e repleta de restaurantes e vitrines.

Poderíamos ter ficado por ali mesmo e almoçado no tradicional Famiglia Mancini, mas sugeri caminharmos mais um pouco até a Rua Santo Antônio, à Cantina La Penisola, que serve um combo executivo que inclui pão italiano, antepastos, sardela, bruschetta, berinjela, carpaccio, prato principal (meu preferido é o polpetone recheado acompanhado de capellini na manteiga) e sobremesa, tudo a um preço justo em um cenário que parece congelado no tempo, sempre ao som de clássicos da música italiana.

Na sexta-feira, fomos à Liberdade, bairro que não pode ficar de fora de qualquer roteiro pelo centro. Encontramo-nos em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde ele visitara uma exposição pela manhã, e caminhamos pela Quinze de Novembro até a Praça da Sé, atravessamos por dentro da Catedral, Praça João Mendes, Avenida Liberdade, até chegarmos enfim às características luminárias japoneses vermelhas.

Como estava bem frio nesse dia, sugeri um lámen na Rua Thomaz Gonzaga, onde fomos obrigados a nos dividir entre as enormes filas em frente ao Lamen Kazu e ao Torico Ramen (no qual acabamos almoçando após uma considerável espera – mas que sempre vale a pena).

Na segunda-feira, sugeri um almoço em um coreano do Bom Retiro, mas ele estava preocupado com o horário do voo de volta, o trânsito na cidade é sempre complicado. Pensei então no La Cassarole, mas, como já havíamos ido ao Largo do Arouche, sugeri a Galeria Metrópole, perto de onde ele  estava hospedado e que oferece opções para todos os gostos, do ótimo chinês Koufu ao peruano Rinconcito, além da possibilidade de retorno ao Brasil com as opções da culinária nacional no Feijão do Norte (culinária da Região Nordeste) e no Tucupi do Centro (Região Norte). Ele, que nunca havia experimentado comida peruana, escolheu o Rinconcito.

Tantas opções gastronômicas podem parecer algo normal para nós, paulistanos, que já estamos acostumados com elas desde sempre, mas tamanha diversidade cultural e opções gastronômicas de diferentes países e regiões do país é um privilégio de pouquíssimas cidades no mundo – e, sem dúvida, é uma das características que fazem do centro de São Paulo um local tão único e fascinante (especialmente para quem gosta muito de comer bem - que é o meu caso).

Nossa breve volta gastronômica ao mundo pelo centro de São Paulo:

- Virado-SP (culinária paulistana?)
Largo do Arouche, 150 – República

- Almanara (culinária árabe)
R. Basílio da Gama, 70 – República

- Raful (culinária árabe)
R. Comendador Abdo Schahin, 118 – Centro

- Famiglia Mancini (culinária italiana)
R. Avanhandava, 81 – Bela Vista

- La Penisola (culinária italiana)
R. Santo Antônio, 870 – Bela Vista

- La Casserole (culinária francesa)
Largo do Arouche, 346 - República

- Torico Ramen (culinária japonesa)
R. Thomaz Gonzaga, 110 – Liberdade

- Lamen Kazu (culinária japonesa)
R. Thomaz Gonzaga, 87 – Liberdade

- Han Kang (culinária coreana)
R. Prates, 379 – Bom Retiro

- Restaurante Koufu (culinária chinesa)
Av. São Luís, 187, Galeria Metrópole, loja 14 – República

- Rinconcito Peruano (culinária peruana)
Av. São Luís, 187, Galeria Metrópole, 1º andar, Loja 35/36 – República

- Feijão do Norte (culinária nordestina)
Av. São Luís, 187, Galeria Metrópole, 2º andar – República

- Tucupi do Centro (culinária do norte do Brasil)
Av. São Luís, 187, Galeria Metrópole, 1º andar – República


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