Digitalizaram a burocracia
Compreendi o que aconteceu com o Brasil. Nós não simplificamos os processos. Nós apenas digitalizamos o modo analógico, criamos uma invencível burocracia tecnológica: a alma do carimbo continua viva, o espírito do balcão segue intacto

Primeiro ato: um convite para dar uma aula em instituição de renome, “bola da vez” do mercado educacional, vocacionada para o futuro. Tudo muito profissional, tecnológico, eficiente, institucionalmente impecável. Segundo ato: recebi então um pedido aparentemente inofensivo: “por favor, providencie seu cadastro”.
Comecei a preencher os dados esperando que me fossem exigidos apenas o nome completo, data, cidade e estado de nascimento, CPF, RG, CNH, nome da mãe, endereço, CEP, número do banco, conta bancária, agência e taxa de colesterol (HDL e LDL). Enfim, essas coisas normais às quais os cidadãos brasileiros estão sujeitos quando necessitam se identificar.
Eis que aparece uma surpreendente exigência adicional: o número do PIS. Não subestime a burocracia do Brasil: temos que fazer renovação do cartão de idoso e existe um documento chamado Declaração de Óbito atualizada.
Tenho 60 e tantos anos. Já engessei o tornozelo, abri e fechei empresa, votei, levei dura de polícia, dei entrevista em televisão, fui inconveniente muitas vezes, escrevi livros, meu melhor amigo não me escolheu como padrinho do seu filho, comprei e vendi uns 40 carros, passei por cirurgias, faço Imposto de Renda até hoje, participei da vida econômica do país. Mas jamais, em toda a minha existência, alguém havia me pedido o número do PIS para que eu pudesse dar uma aula.
Lá fui eu atrás da informação. Perguntei à inteligência artificial. Ela sugeriu educadamente que eu telefonasse para o 158, a Central “Alô Trabalho”. Achei bonito o nome: “Alô Trabalho”. Soava quase como um programa de rádio da época de Getúlio Vargas, no exato momento em que o governo apresenta uma lei para que trabalhemos menos, uma vez que já produzimos menos. Mas isso é outra coisa.
Fiz a ligação. Ouvi algo parecido com o som de uma panela estourando milho de pipoca. A sensação era de estar buscando contato com um submarino soviético nos anos 1940. Entre chiados, batidas de tamborim e ruídos metálicos, consegui entender apenas que eu continuava sem meu número do PIS.
Parti então para a plataforma “Meu INSS”. Outra alternativa oferecida pela inteligência artificial que está, diga-se de passagem, cada vez mais verborrágica. Você pergunta qual é o teorema de Pitágoras e ela vem com a explicação sobre a origem do cosmo.
Não consegui acessar o aplicativo — isso exigiria lembrar uma senha que aparentemente eu mesmo criei em algum momento. O fenômeno das senhas nos faz duvidar da teoria das probabilidades: tenho duas senhas para uns 25 aplicativos – e não acerto nunca. Novamente, resolvi ligar. Após várias etapas eletrônicas, dignas de um jogo de xadrez do Leste Europeu, recebi um número do protocolo de atendimento. Anotei cuidadosamente: 2220260512457423.
Aquilo não era um protocolo. Era o resultado de um censo dos seres vivos que habitam nosso planeta, inclusive as formigas, abelhas e cardumes de peixes. Fiquei imaginando a reunião em que algum ser iluminado concluiu que um cidadão angustiado, tentando resolver um problema banal há mais de uma hora, precisava anotar uma sequência com 10.000.000.000.000.000 de combinações possíveis.
A certa altura percebi um detalhe ainda mais fascinante: no menu de serviços simplesmente não existia a opção “ identificar o número do seu PIS”. Ou seja: o sistema que tem o PIS no DNA não informa o número do PIS.
Foi então que tomei a decisão mais brasileira possível: inventei um número qualquer para meu PIS. Tinha certeza absoluta de que iria dar errado. Mas funcionou. Até agora, pelo menos. Tenho certeza que ainda vai dar problema.
Repito porque é importante: depois de passar por inteligência artificial, central telefônica, autenticação digital, senha eletrônica, menus automatizados e um protocolo digno de soltura da prisão de Alcatraz, a solução objetiva foi mentir para o sistema.
Mas o ápice ainda estava por vir. Quando achei que havia vencido a batalha, surgiu uma nova exigência: um misterioso cadastro de contribuinte mobiliário. Pelo que entendi, é mais ou menos assim: o Estado, que tem todas as informações sobre mim, precisa saber quem eu sou.
E então compreendi o que aconteceu com o Brasil. Nós não simplificamos os processos. Nós apenas digitalizamos o modo analógico, criamos uma invencível burocracia tecnológica. A alma do carimbo continua viva. O espírito do balcão segue intacto.
A fila é sinal de que a coisa está funcionando. O “sistema” parece ter sido criado para ficar feliz se o problema do usuário não for resolvido. O mais curioso é que o Brasil adora falar em modernização, interoperabilidade, governança, integração de dados, experiência do usuário. Chamam isso de transformação digital. Mas talvez seja apenas a informatização do sofrimento.
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