17 de junho (Super Quarta): dois países, uma dúvida

Fed e Banco Central decidem juros no mesmo dia — mas a inflação subindo nos dois países deixa pouco espaço para boas notícias. O comerciante que entender que os dois estão operando contra a maré da inflação vai tomar decisões melhores que o que espera uma queda de juros que pode demorar bem mais que o prometido

Vitória Saddi
05/Jun/2026
Economista da SM Futures, com mestrado em economia pela FGV, Ph.D pela University of Southern California e uma das co-fundadoras do site Astra Agnostics
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17 de junho (Super Quarta): dois países, uma dúvida

O elefante na sala: a inflação voltou a subir — nos dois países

Antes de entrar nos detalhes de cada banco central, vale nomear o problema que nenhum dos dois quer dizer em voz alta: a inflação está em alta tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, e o ciclo de corte de juros que o mercado tanto aguardava pode estar sendo iniciado — ou continuado — no momento errado.

Nos EUA, a inflação em 12 meses saiu de 3,3% em março para 3,8% em abril, bem acima da meta de 2% e em aceleração. No Brasil, o Focus já aponta inflação acima de 5% para 2026, superando o teto da meta de 4,5%, com seis semanas consecutivas de revisões para cima.

Em ambos os casos, os choques de energia causados pela guerra no Oriente Médio são parte da explicação. Mas energia cara não é um fenômeno passageiro e neutro: ela se espalha pelos custos de transporte, produção e alimentação ao longo de meses. Cortar juros enquanto esses efeitos ainda estão em curso é, no mínimo, uma aposta arriscada.
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EUA: Kevin Warsh e uma herança complicada

Kevin Warsh assumiu a presidência do Federal Reserve com dois compromissos públicos: reduzir os juros e enxugar o balanço do banco central, que acumulou cerca de 6,7 trilhões de dólares em títulos ao longo de anos de compras maciças.

O problema é que as duas coisas se contradizem: juros menores estimulam a economia e aquecem os preços; vender títulos retira dinheiro de circulação e encarece o crédito. É como apertar o acelerador e o freio ao mesmo tempo. E o cenário que Warsh encontrou ao tomar posse — com a inflação acelerando e o comitê dividido — tornou qualquer movimento ainda mais arriscado.

Na reunião de abril, quatro membros do comitê votaram contra o comunicado — a maior dissidência em décadas — com três deles querendo sinalizar possibilidade de alta, não de corte. Operadores de mercado que no início do ano precificavam dois cortes em 2026 hoje apostam em nenhum.

O resultado prático: Warsh herdou um banco central com menos liberdade de ação do que qualquer presidente do Fed em décadas, num momento em que a inflação não permite o afrouxamento que Trump exige e o mercado esperava.
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Brasil: a meta ainda é 3%, a crença nela não é mais

No mesmo dia, o Copom se reúne carregando um fardo parecido, só que agravado por um problema que vai além dos números de hoje: o Banco Central brasileiro perdeu, ao longo dos últimos anos, parte da credibilidade que precisaria justamente agora para ancorar as expectativas.

A Selic chegou a 15% ao ano em meados de 2025 e iniciou um ciclo de cortes tímidos, chegando aos atuais 14,5%. O mercado atribui uma neste momento uma probabilidade pouco superior a 50% de novo corte de 0,25 ponto em junho. Mas cortar juros quando a inflação prevista já supera 5% — acima do teto da meta — e segue sendo revisada para cima semana após semana é, no mínimo, uma aposta arriscada.

O problema de fundo é de credibilidade acumulada. Um banco central que tem histórico de trazer a inflação de volta à meta com rapidez não precisa de muito: a simples expectativa de que ele vai agir basta para ancorar os preços. Mas quando esse banco passa a tolerar desvios por mais tempo — convergindo devagar, adiando o aperto necessário, priorizando o crescimento de curto prazo —, o mercado aprende a lição e para de acreditar na meta como referência. A melhor previsão de inflação deixa de ser o objetivo oficial e passa a ser uma média entre o que está acontecendo agora e o que o BC diz que quer. Quanto mais lenta a convergência, mais o passado pesa sobre o futuro.

É exatamente isso que os dados mostram. Até 2022, as projeções do próprio BC para 18 meses à frente raramente ultrapassavam a meta. Nos últimos três anos, ultrapassam em quase todos os cenários — inclusive quando o horizonte se estende para dois anos e meio. As expectativas de mercado acompanharam esse movimento: o desvio em relação à meta dobrou de tamanho desde 2023. E o pior: esse processo começou antes mesmo da troca de gestão no BC, o que sugere que não é apenas político: é estrutural.

Com gastos apenas em “bondades eleitorais” projetados em torno de R$ 200 bilhões — cerca de 2% do PIB — pressionando a demanda, e choques de energia ainda se espalhando pela cadeia de custos, cortar juros agora envia o sinal errado.

Não porque 0,25 ponto mude o mundo, mas porque confirma ao mercado que o BC continuará priorizando o crescimento sobre a estabilidade de preços. E quando essa percepção se instala, ela se torna muito difícil de reverter sem um aperto muito mais doloroso lá na frente.

A meta ainda é 3%. A crença nela não acompanhou.
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O que muda para o comerciante

Crédito caro por mais tempo — e com razão. Se a inflação está subindo nos dois países e nenhum dos bancos centrais deveria estar cortando agora, a conclusão prática é que os juros vão demorar mais a cair do que o mercado esperava no início do ano. Capital de giro, cheque especial e parcelamento de fornecedores continuam caros por mais tempo do que o planejado.

Dólar e importações. Se o Fed sinalizar que vai segurar ou até elevar os juros, o dólar se fortalece e o real enfraquece. Para o comerciante que importa mercadorias ou compra de fornecedores com insumos dolarizados — eletrônicos, químicos, tecidos, máquinas —, isso significa custo maior na reposição do estoque.

Consumo do cliente. A combinação de inflação acima de 5% e juros altos corrói o poder de compra. O trabalhador endividado tem menos sobra no bolso. O comerciante já sente: é preciso parcelar mais, promover com mais frequência e aceitar margens mais finas para girar o estoque.

Custos operacionais. Combustível caro eleva o frete. Energia cara aumenta o custo da operação. Se nenhum dos bancos centrais conseguir deter a escalada de preços, esses choques se espalham pela cadeia produtiva durante meses, chegando às prateleiras bem depois de terem começado no petróleo.

Estoque: um ativo que custa dinheiro. Carregar estoque em ambiente de inflação alta e juros elevados tem duplo custo: o financeiro, do capital imobilizado, e o de margem, caso os preços se movam antes da venda. Girar rápido protege o caixa.
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O que observar em 17 de junho

O número em si — corte ou manutenção — já é parcialmente precificado. O que vai mover o câmbio, o crédito e o humor dos fornecedores nas semanas seguintes é o tom de cada comunicado e, principalmente, se algum dos dois bancos tiver a coragem de admitir o que os dados já mostram: que talvez este não seja o momento de afrouxar.

Se o Fed sinalizar pausa ou alta, prepare-se para dólar mais forte e crédito mais caro. Se o Copom indicar que o ciclo de cortes pode ser interrompido, o crédito demora mais a baratear — mas a inflação tende a ceder mais rápido, o que é bom para quem precifica produtos e negocia contratos de fornecimento.

O comerciante que entender que os dois bancos centrais estão operando contra a maré da inflação vai tomar decisões melhores sobre estoque, crédito e precificação do que aquele que espera uma queda de juros que, neste ritmo, pode demorar bem mais do que o prometido.

 

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