Fátima Fernandes

Fátima Fernandes

Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com

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A 1dasul sempre teve uma clientela fiel. A marca nasceu com o objetivo de mostrar a identidade do público do Capão Redondo, bairro da Zona Sul paulistana com cerca de 400 mil habitantes.

“Quando lancei a 1dasul, meus concorrentes produziam cópia de roupas dos Estados Unidos, com estampas do Mickey. Eu, que não tinha dinheiro nem para pegar condução, queria criar uma marca de bairro para o cliente ter orgulho de usá-la. Nunca tive dó de gastar para conquistar isso.”

Vender o sonho dos outros é melhor do que vender o seu. Por acreditar nisso, Ferréz começou a convencer o cliente a usar os bonés da 1dasul, dizendo que a marca pertencia a uma grife que estava nascendo e ia se tornar importante no país.

Ele começou com a produção de cinco bonés. Vendeu quatro e ficou com um. Nas entrevistas e nas palestras que dava para falar de seus livros, lá estava ele com o boné da 1dasul.

De bonés, passou a produzir camisetas, até que um dia decidiu inaugurar uma miniloja, com quatro metros quadrados, na garagem da sua casa, por sugestão de sua mãe.

“Mandei pintar a garagem com temas da periferia -uma pipa, um cara preso-, e escrevi na parede: ‘1dasul movimento cultural da periferia’”.

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Não havia quase produtos para vender, mas na inauguração havia autoridades -o prefeito de Barcelona e a secretária de Finanças de Nova York da época, além de artistas.

O público de fora, diz ele, já estava enxergando o valor da ideia, mas, naquele momento, o consumidor do bairro ainda não entendia.

“Passei quatro anos sem vender quase nada e tive de trabalhar de ajudante de pedreiro para sobreviver. Mas a loja continuava aberta.”

Os amigos mais próximos, de acordo com ele, diziam que seria difícil expandir uma marca de um bairro conhecido pela violência, pela bandidagem.

 “Se alguém do bairro namora uma menina de fora, como vai chegar à casa dela com uma camiseta do Capão Redondo? O pai da moça não vai nem deixar ele entrar.”

Isso era o que Ferréz mais ouvia de amigos e pessoas próximas. Até que, a partir de 2007 e 2008, começou a haver uma procura cada vez maior pelos produtos da marca.

 “O segurança dos shoppings não paravam cliente que vestia a camiseta do Capão Redondo para entrevistar, mas para saber onde ele tinha comprado a camiseta, o boné.”

“Nos últimos anos, mudou o modo das pessoas viverem e pensarem. O capitalismo é uma engrenagem que estava girando de uma forma e passou a girar de outra”, diz ele.

 O público da periferia, de acordo com Ferréz, não está sendo atendido pelas marcas, por isso a 1dasul começou a crescer. E é esse espaço que ele quer ocupar com sua grife.

“O pessoal da periferia adora marca porque tem uma autoestima destruída, já que foi criado do lado de córrego, assassinatos e drogas. Ninguém entende o amor que tem um por um tênis de marca. A marca da periferia tem chance porque o público da periferia adora marca.”

Por conta de sua habilidade e conhecimento desse público, Ferréz é constantemente chamado por empresas para dar consultoria. Johnson & Johnson e Coca-Cola já ouviram o que Férrez tem a dizer sobre alguns de seus produtos.

“Eles me chamam para tentar descobrir porque alguns itens não vendem. No caso do Toblerone (chocolate produzido pela americana Mondelez), eu disse que era um produto muito elitizado, por conta daquela caixa de papelão em formato de triângulo. Pobre nem pega naquilo, pois a aparência é de que o chocolate custa uns R$ 20.”

A Ceras Johnson, que produz a linha de purificadores de Glade, tinha a mesma preocupação. “O cara da periferia não pega em um produto que tem uma orquídea desenhada, onde está escrito embaixo ‘flores do campo’. O produto tem que falar a língua dele”, diz.

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"Um pedreiro entrou na minha loja e viu uma camiseta com a estampa de uma pessoa negra e disse :"até que enfim achei um cara preto na camiseta." 

Isso não quer dizer, diz Ferréz, que o que se vende na periferia tem de ter baixa qualidade. “Foi-se o tempo em que produto para periferia tinha de ser ‘zoado’. Na verdade, nunca acreditei nisso. O mote da minha marca sempre foi qualidade e conteúdo.”

FERRÉZ NA LOJA DO SHOPPING MAIS, EM SANTO AMARO

Os bonés da 1dasul chegam a custar até R$ 150 e, as camisetas, até R$ 120. A marca faz roupas para pessoas de 6 a 60 anos, mas especialmente para a faixa de 15 a 35 anos.

 Na estrutura da marca trabalham 20 pessoas, mas outras cem estão indiretamente ligadas à produção e  itens da marca. Os bonés são feitos em três oficinas, cada uma com cerca de oito costureiras.

As camisetas também são produzidas no Capão Redondo e em bairros da zona Sul. O produto que a 1dasul mais vende é o adesivo com a marca para fixar em carros e em motos.

As marcas da periferia estão ganhando cada vez mais espaço dos consumidores do bairro e até fora dele, de acordo com Férrez.

Tanto que no seu plano de expansão do negócio, ele incluiu a venda de outras marcas. A loja do shopping Mais comercializa as marcas Vida Loka, do Capão, A286 e Eduardo, do Grajaú, Dexter, da Vila Calu, entre outras. Geralmente, as marcas estão vinculadas a cantores de rap e escritores de bairros.

“Todas essas marcas estão indo muito bem. Eles têm 500 ou mil clientes, mas são clientes fiéis. tudo o que as marcas lançam, eles compram. Se há uma noite de autógrafo na loja, eles participam.”

Ao mesmo tempo em que seu negócio deslanchou em meio à crise, Ferréz diz que viu muitos pequenos empreendedores do bairro perder  tudo com a crise. “O capitalismo faz uma provocação: quem quer, vem comigo, quem não quer fica para trás.”

Férrez decidiu aceitar a provocação e levar com ele os empreendedores capazes de dar emprego e divulgar a arte, a música e a cultura da periferia. Não dá para negar que o escritor, palestrante, consultor tem o que um empreendedor precisa: persistência.

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FOTOS: Fátima Fernandes/Diário do Comércio

 

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Desde que o Código de Defesa do Consumidor passou a exigir, em 1990, data de fabricação e prazo de vigência das mercadorias estampadas nas embalagens, alimentos próximos do fim de validade são rejeitados pela maioria dos consumidores.

Um supermercado localizado no Parque Dom Pedro II, no coração de São Paulo,decidiu operar justamente com produtos prestes a vencer para atrair clientes com ofertas.

No Vovó Zuzu, iogurtes, margarinas, congelados, frios e sucos são vendidos a preços até 50% inferiores aos da concorrência.

A prática do supermercado, que começou a operar há aproximadamente 15 anos, com uma pequena portinha, vendendo iogurtes para camelôs da região, tem sido bem-sucedida, de acordo com Francisco Pinheiro Barbosa, gerente da loja.

Hamburger da Perdigão por R$ 2,99 a caixa, lasanha sabor quatro queijos da Aurora, por R$ 5,99, peru da Sadia, por R$ 24,99, iogurte Danio da Danone (124 gramas), por R$ 0,99.

São preços como esses que têm levado ao Vovó Zuzu, acostumado a  lidar com o público que sobe e desce de ônibus no Parque dom Pedro II, consumidores de todas as regiões de São Paulo.

“Encosta cada ‘possante’ no nosso estacionamento...Os clientes que frequentam a loja não são somente os mais pobres, não. É um pessoal bacana que fica besta com os nossos preços e enche o carrinho de compra”, afirma o gerente.

A crise e a inflação acabaram virando aliados do Vovó  Zuzu, que está engrossando a sua lista de clientes.

Ao menos 8 mil pessoas frequentam a loja diariamente e 2 mil são informadas todos os dias pelo WhatsApp sobre as ofertas relâmpago da loja.

De acordo como Barbosa, o faturamento da empresa, não revelado, cresceu entre 20% e 30% desde que começou a crise.  

A prática de comercializar produtos prestes a vencer, diz Barbosa, atende muito bem o cliente que compra produtos para serem consumidos em poucas horas.

A loja comercializa cerca de 4 mil pãezinhos (tipo francês) por dia a R$ 6,99 o quilo, o equivalente pelo menos à metade do praticado nos supermercados e nas padarias de São Paulo.

Recentemente, o supermercado selou uma negociação com BR Foods para comercializar pizza de muçarela e calabresa da Sadia por R$ 2,99 a caixa. O prazo de validade era de uma semana.

Vendeu 2 mil caixas em dois dias. "Havia cliente levando dez caixas de pizza sob o braço. Fazemos ofertas malucas aqui”, afirma ele.

O Vovó Zuzu é administrado pelos irmãos Cláudio e Júnior, e por um sócio, Ricardo. Eles preferem não revelar os sobrenomes.

Os três são filhos dos dois fundadores do supermercado, que começaram o negócio com açougues.

O nome Vovó Zuzu é uma homenagem à mãe de Cláudio e Júnior, dona Zuleica, que costuma ser chamada de vovó Zuzu por uma neta.

Ambos são donos da rede de supermercados Santa Fé, com lojas em Taboão da Serra, Pirituba e Campo Limpo Paulista.

De acordo com Barbosa, apenas uma pequena parcela dos dez mil itens à venda -cerca de 500- têm validade prestes a vencer.

LOJA DA VOVÓ ZUZU: DOS DEZ MIL ÍTENS À VENDA, APENAS 500 TÊM PREÇOS DE ARRASAR

Mas admite que são exatamente os produtos baratos que trazem os clientes para dentro da loja.

Essas mercadorias, de acordo com ele, são adquiridas diretamente das indústrias, como J. Macedo, Aurora e BR Foods.

“Explicamos para as indústrias que, em vez de elas jogarem os produtos fora, nós podemos comprá-los e alimentar as famílias com menor poder aquisitivo”, diz ele.

Algumas companhias, como a Nestlé, não gostam de vender produtos nessas condições. "Isso porque entendem que a venda de um item, até com preço menor do que o custo, pode ‘queimar’ a marca.”

Barbosa diz que este também deve ser o principal motivo pelo qual os supermercados não adotam esta prática, pelo menos de forma explícita, como faz o Vovó Zuzu.

Para o consultor Sandro Benelli, da Enéas Pestana & Associados, a venda de produtos com data próxima do vencimento significa a comercialização de excesso de estoque, ou seja, de volumes de produtos que, por alguma razão, foram comprados indevidamente.

“Em geral, as lojas que vendem esses produtos são uma alternativa para as classes de renda mais baixa que podem comprar algo fora do seu padrão normal de consumo, e até para os pequenos transformadores, que vão utilizar de imediato os produtos comprados. No segmento alimentar, é um negócio marginal, mas é um negócio”, diz ele.

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Benelli afirma desconhecer a modalidade mundo afora -exceto em produtos não-alimentares.

Nelson Barrizzelli, consultor de varejo, diz que a prática adotada pelo Vovó Zuzu está crescendo muito em lojas nas periferias no Brasil.

Para as indústrias, de acordo com ele, é uma ótima opção, pois serve como desova de produtos que, inevitavelmente. seriam incinerados.

Para os empreendedores que “descobriram este nicho” é, igualmente, uma ótima oportunidade de ganhar dinheiro com produtos que iriam para o lixo.

“São lojas especificamente montadas para as classes D e E que não teriam acesso a estes produtos de outra forma. Como a classe C “está saindo do paraíso”, certamente parte dessa classe deve estar aproveitando esses produtos de preço muito baixo para consumo imediato.”

Os lojistas que se sentirem estimulados a adotar a prática de preços do Vovó Zuzu devem ter muito cuidado, de acordo com Marcelo Jacinto, diretor da SOUMAIS Marketing e Fidelização, plataforma que apoia empresas na coleta de informação e inteligência de dados.

“Esse é um risco que só pode ser assumido por empresas que conhecem muito bem o público consumidor, a frequência de compra e de consumo de produtos, como os clientes com alta elasticidade em resposta ao preço”, diz ele.

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Ao mesmo tempo em que o excesso de estoque pode se tornar uma oportunidade de negócio, pois há empresas especializadas em comprar, leiloar e intermediar as sobras de varejistas, o empresário que não tiver uma boa gestão desses produtos pode acabar tendo prejuízo, até porque o prazo de venda é extremamente curto.

Vale lembrar que, desde 2014, supermercados são obrigados a exibir gôndolas específicas para os produtos que estão próximos da data de vencimento.

FOTOS: William Chausse e Fátima Fernandes/Diário do Comércio e Divulgação

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Na sexta-feira (28/10), quem esteve no supermercado Futurama da Lapa, na zona Oeste de São Paulo, à procura de macarrão Scala, margarina Delícia, iogurte Nestlé e inseticida Raid, não encontrou os produtos.

O cliente teve quatro alternativas: comprou macarrão ou margarina de outra marca, adquiriu um produto diferente, foi para outro supermercado buscar exatamente o que desejava ou simplesmente voltou para a casa com as mãos abanando.

Essa situação, tão corriqueira no dia a dia dos consumidores, nunca esteve tão em pauta em reuniões de executivos das indústrias e dos supermercados.

Com a crise, ficou mais difícil levar o consumidor para dentro das lojas. Se ele entra e não compra nada, perde a indústria, que costuma investir milhões de reais em marketing de produtos, e o supermercado, que deixa de faturar e, pior, corre o risco de perder de vez o cliente.

De cada 100 itens que o consumidor quer comprar em um supermercado no Brasil, 9,8 ele não encontra, de acordo com o mais recente levantamento da NeoGrid, empresa que mensura a chamada ruptura de produtos nas gôndolas de 10 mil lojas de 150 redes espalhadas pelo pais.

Com base nos dados de estoque e de venda diária de cada uma dessas lojas, a NeoGrid consegue identificar a falta de produtos e traçar um indicador médio de ruptura.

O indicador de setembro, de 9,8%, de acordo com Robson Munhoz, diretor da NeoGrid, é superior ao da média histórica do Brasil –até 2014, não ultrapassava 8%.

A boa notícia é que o índice de setembro é menor do que já foi nesta crise. Em janeiro passado, o índice de ruptura atingiu 13,08%. Significa que de cada cem itens que o consumidor procurou na loja, 13 ele não encontrou.

Na região da Grande São Paulo, o índice de setembro está mais perto do que o da média histórica, de 8,28%. No interior do Estado de São Paulo, a ruptura de produtos nos supermercados já é maior, atingindo 10,26%. Veja, no quadro abaixo, o índice desde janeiro de 2016: 

Com base nas informações que possui dos supermercados, a NeoGrid estima que uma loja poderia vender quase 4% mais, se tivesse um índice de ruptura próximo de zero.

Considerando um supermercado que fatura R$ 1 milhão por mês, ele poderia vender, portanto, de acordo com o cálculo da NeoGrid, R$ 40 mil a mais por mês ou R$ 480 mil a mais por ano.

Antônio Ferreira de Sousa, gerente da loja do Futurama da Lapa, diz que é praticamente impossível uma loja obter ruptura próxima de zero.

Ele explica: as redes de supermercados, incluindo a Futurama, com sete lojas, tendem a centralizar as compras para poder ter melhor negociação de preços e prazos com os fornecedores.

Quando a compra é centralizada para toda a rede, as visitas de representantes de indústrias costumam ser agendadas, ocorrendo, geralmente, a cada 15 ou 20 dias.

“Pode ocorrer de um item faltar neste intervalo. Em alguns casos, quando é possível, no caso de mercadorias não refrigeradas, recorremos aos atacados para não deixar faltar produto na gôndola”, afirma Sousa.

ESPAÇO RESERVADO PARA O INSETICIDA RAID NO FUTURAMA DA LAPA

A loja não tinha iogurtes Nestlé, macarrão Scala e inseticida Raid, diz ele, porque houve atraso nas entregas. “É problema de logística.”

No caso da margarina Delicia, produzida pela Bunge, a falta aconteceu porque a indústria está passando a entrega de produtos para um distribuidor. 

GOL CONTRA

Num país em crise e com um mercado tão competitivo como o dos supermercados, a falta de produto na gôndola é como marcar um gol contra, de acordo com Sandro Benelli, consultor de varejo da Enéas Pestana & Associados.

Você sai de casa para comprar o amaciante de roupa Comfort, da Unilever, não tem, e você compra o Mon Bijou, da Bombril, ou vice-versa, por exemplo.

O que pode ocorrer num caso como esse é o consumidor testar um produto que não costuma usar, gostar, e trocar de vez de marca.

“Neste caso, para o lojista, pode não ter tanta importância, pois ele vendeu um produto, mas para o fabricante, sim. Isso explica o interesse cada vez maior da indústria em ter promotores para abastecer as gôndolas dos supermercados”, afirma Benelli.

NO EXTERIOR

Nos países desenvolvidos, os representantes dos supermercados falam em uma ruptura da ordem de 4% a 6%, de acordo com Nelson Barrizzelli, consultor de varejo.

Para evitar a falta de produtos nas gôndolas, diz ele, as indústrias e os supermercados usam tecnologias e relacionamento para a reposição contínua das mercadorias.

A reposição é feita utilizando tecnologias de estoques gerenciados pelo fornecedor e pelo supermercado.

“Nos dois casos, todos recebem as mesmas informações e têm condições de repor as mercadorias tão logo os estoques no Centro de Distribuição (CD) ou na loja atinjam o nível de segurança”, diz ele.

Geralmente, de acordo com Barrizzelli, essas informações circulam eletronicamente e o ponto de reposição é calculado pelos computadores envolvidos. Neste caso, as condições de negociação (preço e prazo) são definidas anualmente.

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NO BRASIL

No Brasil, apesar de essas tecnologias serem amplamente dominadas, o modelo de atendimento fornecedor-supermercado está mais focado em negociação – até porque a inflação no país é muito superior à do mercado americano, por exemplo.

Os pedidos de cada mês são discutidos entre as partes, caso a caso, e as negociações prosseguem até que as partes concordem com preços e prazos.

“Em geral, o fornecedor não tem nenhuma informação sobre os estoques dos supermercados, que usam essa falta de informação para esticar a negociação”, diz Barrizzelli.

Os fornecedores e os supermercados também fazem contratos anuais que preveem parte dos aspectos negociais que devem presidir as relações entre os dois durante o período.

“Mas não conheço sistema de reposição contínua de produtos que efetivamente funcione no Brasil”, diz Barrizzelli.

NO FUNDO DA LOJA

A NeoGrid constatou nos supermercados que monitora que, muitas vezes, o produto que o cliente procura não está na gôndola, mas em uma área reservada para o estoque.

Dos dez produtos (a cada cem) que o consumidor não encontra na prateleira, quase sete estão na loja, o que revela falhas no processo de abastecimento dentro do próprio ponto de venda.

ROBSON MUNHOZ, DA NEOGRID: HÁ FALHAS DE ABASTECIMENTO DENTRO DA PRÓPRIA LOJA

“Esse é o pior dos mundos para o supermercado. Por um problema operacional, a mercadoria foi comprada, está na loja, mas não está disponível para o consumidor.”

Para Benelli, situação como essa constatada pela NeoGrid, revela que a gestão do reabastecimento de produto é tão importante quanto a informatização do sistema.

“Informática não é tudo. O sistema emite relatórios, a partir dos dados que são colocados por funcionários. Quem está no escritório cuidando do setor de compras tem de estar ligado com o chão da loja, senão o processo de abastecimento não funciona”, diz Sousa.

Ele descreve um erro comum que acontece nos supermercados, mesmo considerando as lojas com os mais modernos sistemas de gestão para abastecimento das gôndolas.

Uma loja vende 100 produtos por dia, por exemplo.  Quando faz uma promoção, passa a vender 200 diariamente e, portanto, dobra a compra da indústria para certo período.

Com o fim da promoção e a volta do preço normal, muito provavelmente, a loja vai voltar a vender os mesmos 100 produtos que costumava comercializar por dia.

“Se quem cuida de compra não estiver atento e só confia no sistema, vai colocar pedido para 200 produtos por dia, o que é um erro, já que a loja não vai mais vender aquele volume.”

Para Barrizzelli, a ruptura de produtos nos supermercados no país é um problema que ainda está longe de ser resolvido. A cultura, diz ele, é mais forte do que a razão.

“Eu mesmo tenho tido dificuldade para encontrar duas vezes seguidas alguns produtos que desejo comprar na loja que costumo ir com frequência.”

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Foto: Divulgação

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Até três anos atrás era necessário ter paciência e dinheiro para abrir uma loja em um shopping center paulistano. Com a economia em expansão, era raro achar um imóvel vago. Havia fila de espera.

A procura por espaços era tão grande que, no caso de centros comerciais mais tradicionais, era preciso desembolsar mais de R$ 1 milhão somente para ter acesso ao ponto de venda.

A recessão mudou completamente o cenário e começou a estimular um modelo de loja que, até bem recentemente, era mais utilizado nas ruas -as chamadas pop-ups, ou lojas temporárias.

Arezzo, Dafiti e Schutz são exemplos de redes que já adotaram este formato na Rua Oscar Freire. A diferença é que, antes da crise, as pop-ups tinham a finalidade de testar produtos e conhecer a clientela ou se beneficiar de datas comemorativas, como o Natal.

Hoje, elas proliferam nos shoppings brasileiros impulsionadas pela elevada vacância, que chega a 45% nos empreendimentos inaugurados após 2012. O princípio dos operadores de shoppings: é melhor ter uma loja temporária do que tapumes cobrindo os corredores.

A Sephora, uma das maiores redes de produtos de beleza do mundo, controlada pela LVMH, inaugurou este formato de loja no Brasil no ano passado. Hoje, possui seis pop-ups em shoppings nacionais.

A loja temporária da marca francesa inaugurada no Center Norte, em abril de 2015, deveria funcionar  por alguns meses. A experiência foi tão bem-sucedida que a rede vem renovando o contrato com o shopping.

A MARCA FRANCESA SEPHORA POSSUI SEIS POP-UPS EM SHOPPINGS NO PAÍS

O contrato comercial entre o shopping e uma loja temporária é diferente do realizado com uma loja fixa. Não existe pagamento de luva, o que é um alívio para os lojistas.

A administradora do centro comercial, geralmente, estabelece um percentual sobre o faturamento da loja. A negociação entre as partes, como se vê, é bem mais flexível.

Alguns desses contratos podem seguir até mesmo o modelo adotado para os quiosques, podendo exigir pagamento antecipado, de acordo com representantes de shoppings.

“Os shoppings estão lançando mão das lojas pop-up como uma resposta para reduzir despesas e também para evitar aquela imagem de ‘fim de feira’ que alguns deles começam a apresentar”, diz Sandro Benelli, especialista em varejo da consultoria Enéas Pestana & Associados.

O formato de loja temporária, diz ele, exige flexibilidade em valor do aluguel, cobrança de luva, prazo mínimo de locação e até de padrão de construção.

E o lojista, em contrapartida, tem de aceitar o ponto vago -geralmente, os primeiros a vagar são os piores-, um contrato que gira em torno de três meses e um padrão mínimo de construção.

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O Brasil vive um um momento bem favorável para este modelo de loja, na avaliação de Rubens Cardoso, consultor de varejo especializado em incorporação de imóveis comerciais. "A crise nos shopping centers chegou a tal ponto que há lojista escapando do aluguel", afirma.

Aproveitar esses espaços vagos temporariamente pode ser relevante para estratégias da marca e da empresa, de acordo com Michel Cutait, especialista em shopping center e varejo e diretor da consultoria Make it Work.

 "Uma pop-up alcança objetivos interessantes, principalmente para quem quer liquidar estoques, diversificar canais ou testar clientes", diz ele.

O rapper Kanye West escolheu o formato de pop-up para divulgar produtos inspirados no seu último álbum The Life of Pablo.

Em agosto deste ano, ele abriu por três dias simultaneamente 21 lojas em vários países - Estados Unidos, Austrália, Inglaterra, Alemanha, África do Sul e Cingapura.

Em Nova York, consumidores fizeram fila para entrar na pop-up. O rapper conseguiu o que queria.

Para algumas lojas, a maior facilidade de ter uma pop-up em um shopping tradicional é também uma oportunidade para expandir o negócio.

Com quase 50 anos, a Magrella, uma das mais conhecidas lojas de multimarcas de Brasília (DF), localizada em uma área de cerca de 2 mil metros quadrados no Lago Sul, acabou de abrir um ponto de venda temporário no shopping Cidade Jardim.

MAGRELLA NO CIDADE JARDIM: DE BRASÍLIA PARA SÃO PAULO

A NK Store, também especializada em multimarcas, inaugurou em agosto a sua primeira loja em shopping - uma pop-up no Iguatemi.

Batizada de NK Black Box Project, o formato é um teste para Natalie Klein, dona da loja, que até agora só trabalhou com loja na rua, de fincar ou não o pé em um shopping.

NK STORE NO IGUATEMI: TESTE

Por enquanto, a pop-up da NK Store está prevista para operar até janeiro de 2017. A cada dois meses, a empresária Natalie Klein planeja mudar a seleção de produtos das marcas que comercializa, como Givenchy, Stella McCartney, Proenza Schouler e Isabel Marant.

Criada há dois anos, a Dress Home, loja instalada no coração do Paraíso, em São Paulo, também vai estrear em shopping.

Com um grupo de lojistas, a Dress Home vai expor a sua linha de produtos de 3 de novembro a 31 de dezembro em uma pop-up que está sendo montada no shopping Cidade Jardim.

“É um modelo muito interessante, pois não temos de arcar com os custos de manter uma loja o ano todo. Para o shopping também interessa, porque abre espaço para um comerciante que pode virar inquilino fixo”, diz Nil Bergamasco, diretora da Dress Home.

A pop-up com participação da Dress Home vai reunir lojas de flores, sapatos, doces e utilidades domésticas. “Em uma loja só o cliente vai se sentir como se estivesse em uma loja de departamento”, afirma Nil, ex-funcionária da Daslu.

O conceito do pop-up começou a se intensificar no final da década de 1990 na Europa e no Japão.

Surgiu no mundo da moda com a ideia de exibir produtos alternativos por lojistas ou confeccionistas que não tinham condições de produzir em grande escala, de acordo com Cardoso.

O conceito foi se transformando e passou a ser adotado em períodos de maior conveniência para comerciantes e indústrias.

A crise acabou levando lojistas e empreendedores de shoppings a se unirem e buscar alternativas de vendas e as pop-ups caem como uma luva, com perdão do trocadilho.

Os quiosques também surgem como opção mais em conta para lojistas e administradores de shoppings evitarem os corredores vazios neste momento.

Nos últimos dois meses, por exemplo, seis novos quiosques foram inaugurados nos shopping Frei Caneca e outros serão abertos no início de novembro.

De acordo com Andreia Perini, gerente de marketing do shopping, os contratos com os quiosques variam por prazos de três a seis meses.

Com 150 pontos de venda, o Frei Caneca possui hoje 7 lojas fechadas. Andreia diz, porém, que já sentiu uma melhora nos negócios neste semestre.

Nos últimos 15 dias, grandes marcas inauguraram lojas no shopping, como a Levi´s , a L’ Occitane e First Class, rede carioca com mais de 140 lojas.

O que os shoppings querem mesmo é que essas lojas que estão entrando como pop-ups acabem tendo um resultado tão bom e passem a firmar um contrato, mas agora no modelo de loja fixa.

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FOTOS: Divulgação

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Se há algo capaz de irritar o consumidor em um supermercado, além do preço alto, são as filas nos caixas para pagar as mercadorias.

Com a crise, o movimento nas lojas até que caiu, mas, ainda assim, tem cliente que gasta mais tempo no checkout do que para encher o carrinho.

A Datalogic, uma das maiores fabricantes de captura automática de dados e automação industrial do mundo, pretende minimizar a ira dos consumidores ao menos em relação ao quesito tempo de compra.

A empresa de origem italiana, com sede em Bolonha, desenvolveu um sistema de leitura automatizada de código de barras, batizado de scanner Jade, capaz de agilizar o processo para o pagamento de uma compra em supermercado.

Com alguma prática, um operador de caixa consegue registrar de dez a 13 produtos, em média, por minuto. O Jade lê de 45 a 60 itens por minuto, podendo chegar a 100 unidades, com esteira em alta velocidade.

O scanner Jade é definido como um portal de tecnologia de imagem, composto por 18 câmeras, sendo uma delas colorida.

SISTEMA PODE LER ATÉ 100 ITENS POR MINUTO

O sistema tem a função de identificar o código de barras e ou a imagem do produto e ainda calcular volume, evitando que algum item passe pelo leitor sem ser registrado. O leitor usado hoje em supemercados lê apenas o preço.

As mercadorias podem ser colocadas pelo consumidor sobre a esteira em qualquer posição e, à medida em que passam pelo scanner, os códigos de barras são lidos. Os produtos sem códigos de barras também são reconhecidos por meio de imagens.

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O Jade é diferente do self checkout, sistema já bastante utilizado nos Estados Unidos, e que começa chegar ao Brasil, que permite que o próprio consumidor passe os produtos pelo leitor e faça o pagamento com cartão.

“O self checkout é usado para pequenos volumes. O Jade é um sistema de caixa expresso para compras maiores, para o cliente que está com o carrinho cheio”, afirma Fábio Lopez, diretor de vendas da Datalogic para Brasil e Sul da América Latina.

A nova tecnologia, criada há dois anos, e lançada na feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados) neste ano, já está sendo utilizada por uma das maiores redes de supermercado de Nova Jersey, nos Estados Unidos - a ShopRite.

Tiago da Luz Nascimento, diretor de relações internacionais da Afrac (Associação Brasileira de Automação para o Comércio), esteve em uma loja do ShopRite no início deste ano para ver a nova tecnologia em uso.

“Observamos que o processo de colocar as mercadorias na esteira, conferir, pagar e embalar os produtos não demora mais do que cinco minutos. Alguns clientes disseram que estavam frequentando a loja somente por causa da rapidez do processo”, diz ele.

No Brasil, a primeira rede a usar o sistema será a Condor, de Curitiba, com 43 lojas em 15 cidades do Paraná, de acordo com Nascimento. A nova tecnologia, diz ele, será apresentada pelo supermercado em uma de suas lojas em novembro.

Com faturamento anual de R$ 3,8 bilhões, 11 mil funcionários e 4 milhões de clientes, a rede Condor já é conhecida por adotar novas tecnologias em seu processo de gestão.

Um supermercado mineiro também deve utilizar o sistema a partir do final deste ano e início do próximo, de acordo com Nascimento.

A rede de supermercados São Vicente, de Americana, com 1,5 milhão de clientes na região de Campinas, interior de São Paulo, também está ‘namorando’ o Jade. O negócio ainda não foi fechado, de acordo com informações da rede, por conta de custos.

O sistema utilizado pelo ShopRite é uma solução com três saídas (três esteiras) para os produtos, a um custo que pode chegar a US$ 300 mil.

No caso do Brasil, de acordo com o diretor de relações internacionais da Afrac, a Datalogic desenvolveu um novo padrão, com tamanho próximo ao do checkout tradicional, o que possibilitou uma redução de custos.

A solução custará cerca de US$ 45 mil a US$ 55 mil no Brasil, de acordo com Nascimento. O leitor (nomalmente vertical) usado hoje no país custa R$ 1.500, de acordo com Zenon Leite Neto, presidente da Afrac. 

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O lançamento do Jade no país está sendo feito em parceria com a Fast Gôndolas, empresa responsável pelo desenvolvimento do checkout para a nova tecnologia da Datalogic.

“Com a produtividade equivalente ao trabalho de cerca de seis a oito checkouts tradicionais, o Jade consegue aliar a agilidade de atendimento à disponibilidade de funcionários para relacionamento com o cliente”, diz Valdevir Guerra, diretor da Fast Gôndolas.

Nos Estados Unidos, o sistema também tem sido utilizado para separação e emissão de pedido de clientes, e entrada de mercadorias que vão para estoque.

Veja como funciona no vídeo abaixo:

FOTOS: Divulgação e Fátima Fernandes/Diário do Comércio

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O sábado 8 de outubro terá sido, provavelmente, uma data inesquecível para o designer gráfico Rafael Boni Ruschel, 42 anos. Foi quando inaugurou sua primeira loja, a Você Q. Faz, no Eldorado, um dos shoppings mais tradicionais de São Paulo.

Há dois anos, quando teve a ideia de entrar no mercado de roupinhas e acessórios customizados para chá de bebês, inspirado pelas cenas do seriado americano Grey´s Anatomy, ele e sua mulher Priscila não imaginavam que teriam um ponto em um centro de compras deste porte.

Até uma semana atrás, a Você Q. Faz atendia os clientes apenas na feirinha de fins de semana do shopping Center 3 e em dois pontos pequenos franqueados para amigos -um na praça Benedito Calixto, em Pinheiros, e outro na Lapa -abertos recentemente.

QUIOSQUE DA VOCÊ Q. FAZ NO SHOPPING ELDORADO

“Entrei em contato com o Eldorado e, como havia espaços vagos, conseguimos fechar negócio para instalar um quiosque da loja. É nosso primeiro ponto fixo", diz Ruschel. "A crise abriu espaço para lojistas que atendem às novas demandas dos consumidores.”

O dia 25 de setembro foi igualmente uma data marcante para a economista Jessica de Mauro, de 25 anos. Neste dia, a Dupari, especializada em papelaria, decoração, utilidades e brinquedos, abriu o primeiro ponto de venda em um shopping -no Metrô Itaquera, localizado na zona Leste de São Paulo.

Assim como a Você Q. Faz, a Dupari também nasceu em 2014, só que como uma empresa de atacado no bairro do Pari.

“Não sentimos muito a crise, que acabou se transformando em uma oportunidade para crescermos. Com tantos pontos vagos, conseguimos entrar com maior facilidade no shopping”, afirma Jéssica.

Até o final do ano, ela planeja fechar novos contratos para levar a Dupari para mais dois shoppings em Guarulhos e para outro na zona Leste.

DUPARI: LOJA DEVERÁ ESTAR EM QUATRO SHOPPINGS ATÉ O FINAL DO ANO

Quem costuma circular em shopping centers com olhar de bom observador deve notar que a Você q. Faz e a Dupari são apenas dois exemplos de estabelecimentos comerciais novos que começam a mudar a cara dos centros de compra.

A recessão provocou uma devastação de lojas tanto nas principais ruas de comércio de São Paulo como nos shopping centers. Pequenos, médios e grandes lojistas simplesmente sumiram do mapa. Há pontos comerciais vagos por toda a parte.

A vacância nos shoppings já consolidados -abertos até 2012 -está na faixa entre 7% e 9%. Nos shoppings novos - inaugurados entre 2013 e 2016-, esse percentual é de 45%, em média.

“Há 12 mil imóveis comerciais vagos no país, tendendo a piorar, uma vez que não há mais fila de lojistas esperando por vagas. Além disso, há 58 novos shoppings em construção no país”, afirma Sandro Benelli, consultor de varejo da Enéas Pestana & Associados.

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Aqueles espaços, antes ocupados por marcas familiares aos consumidores, começam agora a ser tomados por pequenos lojistas ou redes médias, que estão tentando aproveitar a crise para crescer.

“Muitos comerciantes tradicionais estabelecidos em ruas estão sendo convidados para se instalar em shoppings", afirma Marcos Hirai, sócio-diretor da consultoria GS&MD. "É melhor você ter uma loja não tão conhecida no seu empreendimento do que tapumes.”

Nem bem chegou ao shopping Eldorado, Ruschel diz que já foi procurado por um representante de outro centro comercial grande de São Paulo, interessado em alugar um ponto.

“Os shoppings não querem mais do mesmo”, afirma Ruschel, que já fechou negócio para abrir uma loja em um empreendimento comercial da região da Avenida Paulista.

Diferentemente do que ocorria quando a economia estava em expansão, a negociação de preços de locação nos shoppings está mais flexível. “Em shoppings novos o lojista tem muito mais poder de negociação do que já teve”, diz Ruschel..

De acordo com Hirai, com a crise, os preços dos aluguéis em shoppings caíram aproximadamente 20% e em imóveis comerciais nas ruas, entre 30% e 40%, dependendo da região de São Paulo.

“Por necessidade, os operadores de shoppings têm sido mais flexíveis nas negociações", afirma Bento Guida, sócio da rede Souq. "Antes, todo o risco estava com o varejista. Hoje, as forças estão bem mais equilibradas”

Criada na véspera da crise, em 2013, com o objetivo de vender experiência do chamado lifestile, a Souq, que comercializa de roupas e acessórios a peças de decoração e papelaria, abriu a sua primeira loja no shopping JK.

Três anos e uma crise depois, a rede possui 15 pontos de venda em shoppings espalhados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minais Gerais, Rio de Janeiro e Ceará.

No dia 2 de setembro, a Souq fez a sua estreia no shopping Pátio Higienópolis. Na primeira semana de novembro vai abrir as portas no shopping Pátio Paulista.

SOUQ: A REDE POSSUI 15 LOJAS EM SHOPPINGS NO PAÍS

Guida, que é sócio da mãe, a empresária Traude Guida, uma das fundadoras da rede Le Lis Blanc, atualmente controlada por fundos de investimentos, afirma que muitas lojas já estavam há quatro ou cinco anos com dificuldade para operar com lucro.

Com crise, a situação dos comerciantes se agravou devido à combinação de aumento de custos, provocado pela alta da inflação, e queda de faturamento.

“As lojas de maior porte até conseguem fazer um arranjo ao olhar a operação como um todo. As menores, não. É por isso que a rotatividade nos shoppings está alta”, diz Guida.

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Nos últimos cinco meses, 16 novas lojas entraram no Boavista Shopping e outras sete devem estrear até o final do ano. Inaugurado em 2004, o shopping, com espaço para 145 pontos comerciais, não tinha até então passado por um movimento tão intenso de troca de marcas.

Até maio passado, o shopping pertencia ao grupo português Sonae Sierra Brasil, que transferiu o controle para os grupos SGPAR e Hannah Engenharia.

“O shopping precisava de revitalização. Estamos trazendo marcas que não operavam em São Paulo ou estavam nas ruas. Temos 28 lojas novas com contratos recém- firmados”, diz Thomas Teixeira, gerente-geral do Boavista.

As marcas mineiras Sketch, de roupas masculinas, e a Mardelle, de lingerie, acabam de entrar no shopping, assim como a Casa da Sapatilha e a Carlotta, lojas de rua especializadas em sapatos.

Outros nomes novos no centro de compra são: Abacadraba Games, Ângela (calçados), Digol Sports, Kings Sneakers (vestuário e calçados), Negão do Dog. “Há muitos lojistas sofrendo com a crise, mas para quem está capitalizado, há boas oportunidades”, diz Teixeira.

A Empório K, loja que comercializa multimarcas, é exemplo de empresa que viu oportunidade para crescer na crise. A loja nasceu há dois anos, bem no início da recessão, em uma rua comercial em Embu das Artes (SP).

LOJA DO EMPÓRIO K NO SHOPPING TABOÃO DA SERRA

A ideia era comercializar roupas de marca, como Dudalina, Reserva, John John, a preços acessíveis, como os outlets, para os moradores da região.

O negócio foi tão bem-sucedido que Thiago Pereira da Silva, sócio-proprietário da loja, decidiu ir para o shopping Taboão, onde abriu a sua loja há dois meses.

Para ocupar uma área de 88 metros quadrados, Silva paga para o shopping R$ 26 mil por mês. Neste valor estão incluídos aluguel, condomínio e custos com energia e ar condicionado.

“A crise facilitou o diálogo para a negociação. Mas o comerciante tem de saber que, por dois anos, não terá dinheiro para ele, mas para a loja”, diz ele, que tem o DNA de comerciante. Os pais já tiveram loja de autopeças, açougue e roupas.

A Polo Wear, rede de vestuário, lançada há seis anos, também vê este momento como chance para crescer. Deve chegar a 100 lojas até o final do ano, somente em shoppings.

A empresa nasceu com lojas de 100 metros quadrados e hoje quer focar em áreas acima de 500 metros quadrados. Em alguns dos shoppings que entrou recentemente está em espaços antes ocupado pelas redes Ponto Frio e Casas Bahia.

No shopping Taguatinga, no Distrito Federal, por exemplo, a rede entrou no lugar da loja do Ponto Frio no mês passado. “Como o varejo de eletrodomésticos está em retração no país, surgem oportunidades de espaços que a Polo Wear precisa”, diz César Tanaka, consultor da rede.

ILUSÃO

Para ter os lojistas menores em seus espaços e reduzir a queda de rentabilidade e até prejuízo, muitos shoppings estão abrindo mão até da cobrança de luvas e alugando as lojas a qualquer preço, de acordo com Benelli.

“Quando a situação econômica se normalizar, muitas dessas lojas não sobreviverão, pois os custos deverão subir. Com o aumento de demanda, os shoppings voltarão a privilegiar as marcas que atraem maior fluxo e a despejar nas marcas secundárias o custo não pago pelas âncoras”, diz ele.

Para que o sonho de ter uma loja em shopping não vire um pesadelo, o lojista tem algumas alternativas para se precaver na hora de fechar contrato com os shoppings.

Uma delas, de acordo com Benelli, é fechar um contrato que garanta os direitos em longo prazo. Outra é tornar a marca relevante, como fizeram as redes Chili Beans e a Multicoisas, para que o shopping não queira se desfazer dela.

“Agora, isso leva tempo e a crise deve acabar antes. Na minha avaliação, muitos desses lojistas estreantes em shoppings vão acabar entrando mesmo num beco sem saída. Vamos aguardar.”

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FOTOS: Fátima Fernandes e Divulgação

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