Gestão

Mulheres CEOs: a subida está cada vez mais íngreme


O que já estava ruim ficou pior. Estudo global da PwC revela queda na ascensão feminina à presidência de empresas : apenas 10 mulheres foram promovidas no mundo em 2015


  Por Inês Godinho 04 de Maio de 2016 às 15:47

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Abril trouxe uma notícia triste para a presença feminina no mundo corporativo: diminuiu o que já era reduzido, o número de mulheres promovidas ao cargo de presidente ou CEO.

Apenas 10 mulheres (ou 2,8%) estão entre os 359 presidentes nomeados em 2015 nas 2.500 maiores companhias abertas. Atenção ao detalhe: no mundo.  Eram 5,2% em 2014. 

Foi por água abaixo a expectativa trazida pela expansão lenta mas constante das mulheres em direção ao topo nos últimos anos.

Voltou-se ao patamar de 2011. Mary Barra, da General Motors, Virginia Rometty, da IBM, e Indra Nooyi, da PepsiCo, continuam a ser o ponto fora da curva nesse cenário (na montagem de abertura). 

Mas esta não foi a pior notícia trazida pelo estudo anual da consultoria PwC internacional. Segundo os pesquisadores, a situação se deteriorou ainda mais justamente nos Estados Unidos e Canadá, os países onde historicamente as profissionais mais tiveram espaço para crescer.

Apenas uma mulher foi convidada a ocupar a cadeira de presidente entre 87 vagas conquistadas por homens, o índice mais baixo desde 2004. Já foram 7,3% em 2012.

ONDE ESTÃO AS MULHERES?

Estes números vêm se somar a uma série desanimadora da mesma amostragem de empresas: 

*Entre os CEOs das 500 maiores companhias do mundo, 4% são mulheres
* Nos conselhos de administração, a presença feminina se resume a 19% dos assentos de conselheiro
*As demissões de CEOs mulheres até 2014 são 27% maiores do que a de homens

Como isso foi acontecer num momento em que a pressão das mulheres e dos investidores pela diversidade justa no topo das empresas ganha mais destaque do que nunca?

Os autores do estudo não especulam sobre os motivos. Alguns analistas levantam a hipótese de ser apenas acaso estatístico devido à lei dos pequenos números – a baixíssima presença feminina no alto escalão aumenta a probabilidade de oscilações entre um ano e outro.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL?

Para compensar o pessimismo, os pesquisadores destacam duas novidades que podem indicar uma tendência positiva para as mulheres.

A primeira se refere à forma de seleção – historicamente, cerca de um terço das mulheres contratadas como CEO eram buscadas fora da organização, bem acima da média em relação aos candidatos masculinos.

A razão não é nada boa, pois de deve à incapacidade das empresas de desenvolver ou de reconhecer o potencial do seu time feminino.

O que mudou foi que, em 2015, houve mais procura externa também em relação aos homens. Em tese, a menor resistência à contratação externa melhoraria as chances das candidatas 

A segunda boa notícia, essa sim digna de comemorar, é a diminuição expressiva nas demissões de CEOs mulheres em 2015. Entre 2004 e 2014, as dispensas eram 27% acima da de seus pares masculinos. Em 2015, a diferença estatística se mostrou insignificante. 

Alguns analistas se perguntam se será o fim do “abismo de vidro”, a metáfora usada para se referir à repetida situação de convidar mulheres para liderar projetos com grande chance de fracasso. Está aí Marissa Mayer do Yahoo para confirmar a tese. 

DIVERSIDADE É MAIS RENTÁVEL?

Ironicamente, a queda na contratação de mulheres CEOs ocorre num momento em que se consegue mensurar os benefícios da diversidade de gênero para o lucro das empresas.

Um estudo recente do Peterson Institute for International Economics (PIIE), com sede em Washington, compilou dados de 2014 de 22 mil empresas consideradas rentáveis em todo o mundo para identificar o peso sobre o resultado pelo fato de ter diretoras ou conselheiras.

Como base de comparação, os pesquisadores mediram os resultados das que não tinham mulher nenhuma em cargos de liderança com as que tinham até 30% de mulheres.

As companhias que praticavam a diversidade no alto escalão apresentaram um ponto percentual a mais de margem, resultando em um aumento de 15% na rentabilidade da empresa.

O estudo apontou que a vantagem é específica para os cargos de diretoria ou vice-presidência. Não se notou diferença quando as mulheres ocupam a presidência ou tem uma cadeira no conselho. Homens e mulheres empatam.

COMO ABREVIAR 80 ANOS?

É importante ressaltar que, no universo pesquisado, 60% das empresas não tinham mulher nenhuma no conselho de administração e, em pouca mais da metade, a presença feminina na diretoria era zero.

Diante desses dados, resta a torcida para que a “profecia” feita em um estudo do Fórum Ecônomico Mundial caia por terra.

A pesquisa previu que, se os avanços na igualdade de gênero continuarem no ritmo atual, as mulheres levarão 80 anos para superar a desigualdade salarial e promocional. Não é uma boa notícia para o mundo nem para as empresas.