Economia

Governo sela trégua com caminhoneiros, mas protestos continuam


Nove das 11 entidades que representam os grevistas aceitaram a proposta do Executivo, mas o País amanheceu nesta sexta-feira sem sinais de desmobilização do movimento nas rodovias


  Por Redação DC 25 de Maio de 2018 às 09:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Após sete horas de reunião entre governo e representantes dos caminhoneiros, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) anunciou na noite desta quinta-feira (24/05), que houve acordo pela suspensão da greve por 15 dias.

Nove das 11 entidades presentes aceitaram a proposta do Executivo, que prevê prazo de 30 dias para reajustes no preço do diesel. Esta era uma das principais demandas dos caminhoneiros, que queriam mais previsibilidade nos reajustes.

Para não interferir na política de preços da Petrobras e ao mesmo tempo garantir essa previsibilidade, o ministro Eduardo Guardia (Fazenda) informou que haverá um mecanismo de compensação do governo a cada 30 dias, que terá que ser calculado mês a mês entre o preço que a estatal adotaria e o adotado.

"O compromisso da Petrobrás (do desconto no preço do diesel) é por 15 dias. Depois, a política volta normalmente. A política de preços continua preservada até a porta da refinaria", assegurou Guardia. 

O acordo do governo com caminhoneiros também inclui a manutenção do desconto de 10% no diesel por 30 dias. Nesta quinta-feira, a Petrobras anunciou a medida por 15 dias, que será bancada pela estatal. A União se compromete a pagar uma compensação financeira à Petrobrás pelos outros 15 dias acordados para "garantir a autonomia" da estatal. 

A estimativa inicial do Ministério da Fazenda é que esta compensação pelo desconto de 10% por 15 dias represente R$ 350 milhões, porém o valor ainda terá que ser atualizado. Segundo Guardia, o governo terá "dotação orçamentária para fazer frente a essa despesa" e também a compensação a cada mês. 

Depois dos 15 dias de suspensão da greve, haverá uma nova reunião entre as entidades e o governo para verificar como está o cumprimento dos 12 itens que constam no acordo. Também consta entre compromissos a realização de encontros periódicos a cada duas semanas.

O representante da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, disse que não teve acordo. Segundo ele, outros líderes da categoria se mostraram receptivos à proposta de suspender a paralisação, mas ele se recusou e deixou o local antes do fim da reunião.

A Abcam representa 700 mil caminhoneiros, com 600 sindicatos espalhados pelo Brasil.

“Todo mundo acatou a posição, mas eu não. Eu coloquei que respeito o que meus colegas pediram, mas falei disse que vim resolver o problema do PIS, do Cofins e da Cide, embutidos no preço do combustível”, disse Lopes.

Mesmo após acordo, caminhoneiros mantêm protestos pelo Brasil nesta sexta (25/05). Há bloqueios nos dois sentidos da rodovia Anhanguera, em São Paulo. Às 7h, era registrada interdição, no sentido capital, de uma faixa e do acostamento no km 148.

No sentido interior, havia fechamento da faixa também no km 148. A CCR AutoBan, concessionária que administra a pista, aconselha os motoristas a optarem pela rodovia dos Bandeirantes. 

A rodovia Régis Bittencourt (BR-116) permanece com três pontos de bloqueio. O tráfego está liberado para veículos leves, mas congestionamentos se formam nos trechos com protestos.

Caminhoneiros também fazem protesto no Rodoanel de São Paulo, entre as rodovias Anchieta e Imigrantes. Os acessos ao Porto de Santos (SP) continuam bloqueados em razão das manifestações, tanto na margem esquerda, pela rodovia Cônego Domênico Rangoni, no Guarujá, quanto na margem direita, pela rodovia Anchieta, em Santos.

O mesmo ocorre em rodovias no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, estado que apresenta 74 pontos de manifestação. No Distrito Federal, a PRF registra manifestação de caminhoneiros na BR-020, BR-060, BR-070 e BR-080.

ESCASSEZ

A continuidade da paralisação dos caminhoneiros começa a afetar o abastecimento de produtos em várias localidades dos país. Os entrepostos não estão recebendo alimentos, produtores de perecíveis descartam suas cargas e as bombas combustíveis secaram em algumas cidades.

Os caminhoneiros querem a redução de impostos sobre o preço do óleo diesel, como PIS/Cofins e ICMS, e o fim da cobrança de pedágios dos caminhões que trafegam vazios nas rodovias federais que estão concedidas à iniciativa privada.

Na quarta-feira,23/05, a Câmara dos Deputados aprovou a desoneração do diesel, zerando Pis e Cofins. A texto precisa passar pelo Senado. Mas os manifestantes informam que só suspendem a greve quando a lei foi publicada no Diário Oficial. 

Enquanto um acordo não acontece, outras categorias se juntam à paralisação. Em Brasília, cerca de 400 motoboys e motoristas de Uber impedem a saída de nove caminhões com combustíveis de uma base da BR Distribuidora.

IMPACTOS

Produtores de leite de todo o País sentem os efeitos da greve dos caminhoneiros e veem milhões de litros serem descartados. Na região de Passos, no Sul de Minas Gerais, mais de 500 mil litros já foram jogados fora porque, com a falta de transporte o produto se perde em pouco tempo e não há como utilizá-lo.

Os produtores dizem ainda que o risco é grande de começar a faltar ração para os animais.

Os bloqueios nas rodovias de 20 estados brasileiros por conta da greve  ameaçam o abastecimento de carne de frango e de porco. Pelos menos 120 dos 180 frigoríficos de todo o país estão paralisados.

Os frigoríficos explicaram que o estoque de ração nas granjas não é muito grande; é suficiente apenas para 3 ou 4 dias sem abastecimento regular. "A partir do quinto dia, os produtores já começam a intercalar a alimentação -- dia sim, dia não; dois dias sim, um dia não -- para não ter a falta total", explicou José Rodolfo Ciocca, gerente de agropecuária sustentável da WAP.

Mas há ainda um outro problema. Com a paralisação repentina, os frigoríficos, sem ter como dar vazão a seus produtos, suspendem o abate dos animais.

A paralisação também reduziu em 27% a movimentação diária de granéis no Porto de Paranaguá, de 150 mil para 110 mil toneladas nesta quinta-feira, disse a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa), em nota.

"Depois de quatro dias de paralisação total das atividades rodoviárias, os estoques de grãos para exportação nos armazéns estão a 51% da capacidade total do porto", informou a Appa. "Deste modo, o porto registrou uma queda nas exportações de granéis de 15 mil toneladas por dia, passando de 85 mil para 60 mil toneladas diárias."

Já a importação de fertilizantes foi interrompida em berços de atracação em que o transporte da carga é feito por caminhões, segundo a Appa. Apenas os berços que operam com esteiras continuam funcionando. "A movimentação de desembarque de fertilizantes caiu de 25 mil toneladas ao dia para 10 mil toneladas."

Conforme o porto, a movimentação de granéis líquidos segue ocorrendo dentro da média diária de 40 mil toneladas.

A PÉ

Sem o abastecimento por caminhões, aumentou o número de praças sem combustível no País. Comunicados encaminhados por sindicatos regionais para a Fecombustíveis, que representa aproximadamente 40 mil postos revendedores de combustíveis, relatam "desabastecimento generalizado" em cidades gaúchas, redução drástica dos estoques na Bahia e escassez completa de combustíveis em municípios do Paraná.

No Rio de Janeiro, conforme informa o sindicato que representa os revendedores da cidade, falta combustível em metade dos postos da cidade e esse número deve chegar a 90% até o fim do dia.

Ainda segundo relatos recebidos pela Fecombustíveis, o número de postos sem combustível nas bombas cresce rapidamente em grandes centros urbanos do Paraná, como as cidades de Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel e Foz do Iguaçu.

LIMINAR

A Prefeitura de São Paulo entrou na Justiça para tentar garantir o abastecimento de combustível para os ônibus da frota municipal e os caminhões que fazem a coleta de lixo na cidade. 

Segundo a prefeitura, por causa do baixo estoque de óleo diesel a São Paulo Transportes (SPTrans) reduzir em até 40% o número de ônibus circulando nos horários de entrepico.

A medida, segundo a SPTrans, foi necessária para garantir que a frota possa funcionar também no final do dia e à noite desta quinta-feira.

 

*Com Estadão Conteúdo e Agência Brasil

IMAGEM: Valter Campanato/Agência Brasil