WeForum: como abrir os mercados de tecnologia e inovação para as mulheres?

Lideranças femininas nesses setores ao redor do mundo mostraram, em evento organizado pelo CMEC, que estar no topo ajuda a abrir espaço para que mais mulheres ocupem cargos estratégicos

Karina Lignelli
27/Mar/2024
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WeForum: como abrir os mercados de tecnologia e inovação para as mulheres?

A participação feminina no setor de tecnologia e inovação aumentou 60% entre 2015 e 2022, segundo dados do Ministério do Trabalho. Mesmo assim, as mulheres ocupam só 12,3% dos cargos nessa área no Brasil, enquanto 83,3% do mercado é dominado por homens.

Há formas de equilibrar a igualdade de gênero nesse setor, entre elas, investir em programas de inclusão, em mentorias, na simples abertura de oportunidades por mulheres líderes, para puxar outras mulheres para cargos estratégicos, e até no apoio para superar barreiras psicológicas.

Essa foi uma das discussões do segundo e último dia do 3º Women Entrepreneur Forum (WeForum), que reuniu mais de 600 empresárias de 19 países nos dias 25 e 26 de março em Brasília, e foi organizado por Ana Claudia Badra Cotait, presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB). 

O Brasil ganha cada vez mais espaço nesses quesitos, destacou o painel sobre o assunto: pelo Índice Global de Inovação, o Brasil ocupa o 49º lugar no ranking que inclui 132 economias. Ao subir oito posições na avaliação de 2021, passou a se destacar como o mais inovador da América Latina.  

Nesse contexto, mudar pela educação o dado histórico de que só 30% das carreiras de STEM (do inglês, Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) são ocupadas por mulheres é um dos desafios, disse Jacqueline Lopes, diretora de relações institucionais LATAM South da gigante sueca de telefonia Ericsson. 

Citando esses dados, do Fórum Econômico Mundial, ela questionou: como atingir a paridade no topo se a base está desnivelada? Ou seja, como equilibrar essa balança da igualdade sem incentivo à formação e capacitação de mais mulheres nas áreas necessárias para apoiar a tecnologia e a inovação?

O Conect to Learn, por exemplo, é um programa de incentivo da Ericsson para que esse ponto seja ajustado, segundo Jacqueline. E há também as mentorias, internas e externas (ou sponsorships). "Só a educação não vai resolver tudo. É fundamental que dentro das empresas haja uma cultura que permita o desenvolvimento de mais mulheres para conseguirmos alcançar esse objetivo."

Diretora regional da Business Finland para a América Latina, Heidi Virta afirmou que, em meio aos desafios, há outros tipos de barreiras, principalmente as psicológicas. Especialmente aquelas que reforçam estereótipos, e põem em xeque a capacidade de mulheres trabalharem com ciência e liderarem.  

"São esses tipos de vieses que temos que enfrentar, superar com ajuda de mentorias e se unir a outras mulheres para espalhar a consciência de se aplicar nas áreas de tecnologia e ocupar cargos de liderança", afirmou. "Na Finlândia, economicamente, incentivamos as mulheres a misturar essas carreiras desde muito jovens, para que depois elas possam direcioná-las para novas vagas."  

Heidi Virta (esq.), diretora regional da Business Finland para a América Latina, diz que em seu país, desde jovem, as mulheres recebem incentivos para atuarem em carreiras nas áreas de tecnologia e inovação

 

Natalie Vershinina, fundadora da startup Brics Mobile Center (ou Centro de Migração Unificado), na Rússia, disse que teve que abrir esse caminho na base da "teimosia" ao trabalhar com segurança nacional. Assim como as mulheres que não podiam estudar ou trabalhar no país há mais de 50 anos.  

Mas reverteram esse quadro: hoje, com apoio, projetos que envolvem milhões e alianças femininas, há mulheres à frente de centros de estudos de física quântica e laboratórios de genética, contou. 

"Sei como é ser a única mulher no quarto, com gente falando o que você tem que fazer e como fazer... Não tenho nada contra os homens, mas há muitas diferenças óbvias e nítidas", destacou. "Não tem como negar: a mulher tem a capacidade de ser mãe e correr atrás da carreira, só que os empregadores veem isso como fator de risco e, em algum momento ela é desligada do mercado de trabalho."

Para Natalie, as mulheres não estão competindo para ver quem corre mais rápido, mas sim para ter uma carreira. "Somos iguais, mas nem é questão de direitos: podemos segurar qualquer onda. E somos mais flexíveis, mais capacitadas e nos adaptamos mais rápido. Por isso, nosso objetivo é disseminar programas que podem ajudar mulheres a entenderem que têm capacidade, e podem fazer o que quiserem."

A frase "meninos são bons em matemática e nas exatas" é uma das barreiras que não têm fundamento, segundo Denise Albuquerque, diretora jurídica da multinacional chinesa de energia State Grid Brazil Holding, e que por uma questão cultural meninas crescem ouvindo. Mas isso muda ao expô-las desde cedo a cientistas e engenheiras como modelos para o mercado de trabalho.  

Chegando lá, não basta só mentoria ou patrocínio, mas ações afirmativas para aumentar sua participação, com regras claras de avaliação e performance de carreira, destacou ela, que atua há mais de 20 anos no setor. "Já vi muitas engenheiras das áreas de operação e inovação acabarem migrando para áreas mais laterais, administrativas, por não se encontrarem ou ficarem isoladas." 

Daí a importância de criar um ambiente seguro para as mulheres no local de trabalho, com políticas claras de compliance, desenvolvimento e tolerância zero para todo tipo de assédio, segundo Denise.

E fazer um diagnóstico de onde se quer chegar em termos de diversidade é importantíssimo para formar um ambiente criativo para inovação.

"Vi um relatório da McKinsey esses dias sobre mulheres no local de trabalho que aponta que, para cada duas gerentes sênior que sobem uma posição, duas abandonam. Então não é só ir, mas montar um plano de ação para se manter - e isso só se faz conhecendo nossos gaps para garantir equidade de gênero."

NA PRÁTICA

Com projetos de inclusão e diversidade nos campos da ciência e tecnologia que vão além de gênero, mas incluem PCDs, LGBTQIA+ e jovens talentos, a Ericsson possui um comitê executivo global para o qual são reportadas mensalmente as metas e progressos nessas áreas, segundo Jaqueline Lopes. 

E no pilar sobre desenvolvimento de liderança para mulheres, há casos concretos - como o do diretor de tecnologia que buscou as poucas profissionais sênior do mercado (cerca de 10) para tentar contratar. 

Conseguiu a primeira, e não parou. "Com apoio da sponsorship, a primeira foi promovida a CTO (diretora de tecnologia) no México, e acabou de se mudar para lá", disse. "Mas é um esforço conjunto, é preciso olhar como indivíduo para que essa jornada seja acelerada e o ambiente de trabalho fique mais diverso."

Já Heidi Virta destacou o papel das mulheres em temas como digitalização, inteligência artificial e liderança aliadas à inteligência emocional. Ela citou outro estudo da McKinsey sobre as capacidades requeridas para o futuro, e 75% exigem autoliderança e autoconhecimento para atuar com digitalização e IA - competências em que as mulheres são "campeãs", destacou.

Também é preciso dar espaço e assegurar que essas novas tecnologias sejam desenhadas e aplicadas por mulheres, para diminuir a violência on-line e desafiar estereótipos que moldem esse futuro digital. 

"As mulheres ainda representam 20% das patentes globais, então temos que aumentar e trabalhar muito nisso com programas, mentorias e comunidades especializadas na promoção de mulheres na ciência e na tecnologia para preparar para posições de liderança nessas indústrias", apontou, mencionando que, na Finlândia, existem comitês universitários e parcerias vantajosas em empresas para aumentar empregos para estudantes do sexo feminino na Universidade de Helsinque. "É um ganha-ganha para todos."

Não só IA, mas conectividade, 5G e todas essas áreas são oportunidades para mulheres, que têm demonstrado influência e conhecimento quando a tecnologia é para uso, com iniciativas para geração de recursos e capacitação em letramento digital, afirmou Rosilda Prates, presidente da P&D Brasil – Associação de Empresas de Desenvolvimento Tecnológico Nacional e Inovação, que faz parte do "Conselhão" de tecnologia do governo e do grupo Mulheres do Brasil, liderado por Luiza Trajano.

Mas ainda é preciso que mais pessoas se mobilizem pelo espaço legítimo das mulheres. Principalmente nessas áreas, em que os desafios não são fáceis e envolvem rejeição e espaços limitados.

"O que fazemos é com legitimidade e conhecimento suficiente para estar naquele espaço: se estamos ali, é porque temos que estar. Ou fomos cavando", brincou. "Mas é importante abrir esse espaço, uma puxa a outra em ambientes onde a predominância é masculina: já que estamos no topo, temos que inspirar, e abrir portas e janelas de oportunidade para mais mulheres. Fica a reflexão: o que estamos fazendo para puxá-las?", questionou.

Para Denise Albuquerque, da State Grid, que citou as mulheres que atuam na área de ultra tensão como exemplo, algumas atravessam a correnteza de um ambiente predominantemente masculino, e constroem pontes para outras mulheres passarem. "A analogia é não desistir", concluiu. 

O encontro global de mulheres empreendedoras foi organizado pelo CMEC, pela CACB, Câmara de Comércio e Indústria da Mulher Indiana (WICCI) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). 

 

IMAGENS: CACB

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