Ruas abertas para pedestres: bom ou ruim para o comércio?

Especialmente em áreas centrais e bastante movimentadas, de fácil acesso via transporte público, medidas de humanização viária tendem a favorecer o comércio – e não o contrário, conforme muitos acreditam

Vitor França
18/Ago/2023
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Ruas abertas para pedestres: bom ou ruim para o comércio?

Tendo trabalhado por anos como economista em empresas e entidades como a Boa Vista Serviços e a Fecomercio-SP, tive a oportunidade de acompanhar de perto os desafios do dia a dia dos comerciantes paulistanos.

Diante de um sistema tributário complexo, margens apertadas, medo da violência e seguidas crises econômicas, é natural que a categoria demonstre resistência quase a qualquer mudança que possa impactar negativamente seu faturamento. Afinal, cada cliente importa; cada venda importa.

A necessidade de transformar São Paulo em uma cidade mais humana e sustentável, por sua vez, vem trazendo para a agenda municipal temas como ruas abertas para pedestres, estímulo à mobilidade ativa, ao uso do transporte público de massa, com desincentivo aos automóveis – medidas estas cada vez mais adotadas por grandes cidades ao redor de todo o mundo.

É neste contexto que surgiu a recente proposta da Prefeitura de abrir ruas do bairro da Liberdade para pedestres aos domingos e feriados; e, em um segundo momento, realizar obras viárias com o objetivo de tornar a região mais agradável e caminhável. Cheguei a defender as medidas em artigo aqui no Diário do Comércio.

Segundo relato do doutor em urbanismo Mauro Calliari em sua coluna na Folha, contudo, ao menos parte dos comerciantes da região se mostrou contrária à medida na audiência pública realizada no dia 26 de julho. Entre as preocupações levantadas pelo grupo estavam possíveis dificuldades relacionadas à entrega de mercadorias e eliminação de vagas de estacionamento para os clientes.

É claro que as preocupações são compreensíveis – como já disse, muitos comerciantes trabalham com margens apertadas, em um contexto tantas vezes hostil, de forma que qualquer risco de perda de faturamento ou de aumento dos custos tende a gerar preocupações.

Será, contudo, que as preocupações, neste caso, se justificam? Será que a eliminação de vagas de estacionamento em frente ao estabelecimento, por exemplo, realmente representa um risco para o comércio?

Pois temos razões para acreditar que não.

Em primeiro lugar, a retirada de carros estacionados em frente às lojas tende a tornar as fachadas mais visíveis e as ruas, de maneira geral, mais agradáveis, o que pode atrair mais pessoas.

Além disso, especialmente em áreas centrais e muito movimentadas da cidade, de fácil acesso via transporte público, o mais provável é que os carros parados em frente aos estabelecimentos não sejam de clientes destes estabelecimentos, mas simplesmente de pessoas que estão realizando outras atividades na região e deixam os carros estacionados por ali durante um longo período.

No caso particular do bairro da Liberdade, pesquisa apresentada pela Prefeitura mostra que a grande maioria das pessoas não chega ao bairro de carro, mas, sim, de transporte público. Garantir mais segurança para essas pessoas, com calçadas mais largas, e tornar o espaço mais agradável, com jardins, árvores, cadeiras, bancos e mesas, tendem a fazer com que mais pessoas frequentem a região e fiquem mais tempo por ali, o que só irá favorecer o comércio local.

Em artigo publicado no GZH, o arquiteto e urbanista Anthony Ling argumenta que “múltiplos estudos em centros urbanos como Barcelona, San Francisco, Nova York e Melbourne mostram [...] um efeito positivo tanto no comércio quanto no valor imobiliário após projetos de humanização viária”.

Na Paulista Aberta, segundo Relatório de Avaliação de Impacto da Paulista Aberta na Vitalidade Urbana de 2018, quase 90% dos frequentadores passavam pelo menos duas horas no local. Entre os moradores da região, saltou de 38% antes do programa Paulista Aberta para 64% em 2018 o percentual dos que permaneciam pelo menos duas horas na Avenida Paulista.

Mais gente ficando por mais tempo tende a significar mais consumo. Os números ajudam a explicar, assim, por que, segundo a mesma pesquisa, 86% dos comerciantes de lojas de rua declararam ser favoráveis à medida, sendo que 68% acreditavam que o impacto do programa era positivo para o negócio.

Ainda que não haja números específicos para a Paulista Aberta, pesquisas mostram que a pedestrianização da Times Square, em Nova York, por exemplo, levou a um aumento de 50% da receita dos comerciantes locais.

Resistência diante de mudanças é algo natural, uma vez que nunca sabemos exatamente qual será o impacto delas nas nossas vidas. Lá em 2015, quando o Programa Paulista Aberta foi implantado, eu trabalhava na Fecomercio-SP e lembro bem da resistência de grande parte dos atores locais à medida. Pouco tempo após a implementação, porém, a aprovação rapidamente cresceu entre os moradores da região, conforme mostrou pesquisa Datafolha

Assim, podemos concluir que há mudanças na cidade que não apenas se tornam necessárias por causa da alteração no cenário – no caso, o advento da crise climática e a demanda por maior qualidade de vida –, mas que podem acabar sendo, de maneira geral, bastante positivas; inclusive para o comércio.

Conforme escrevi no meu artigo em defesa das medidas propostas para o bairro da Liberdade, “para quem, como eu, gosta de andar pela cidade, ver ruas vibrantes, cheias de gente, passear por comércios diversos, descobrir novos e inusitados restaurantes, o bairro da Liberdade é, sem dúvida, um dos mais interessantes de São Paulo”. Melhoria na pavimentação, ampliação das calçadas, instalação de mobiliário e arborização tendem a criar um espaço público ainda mais agradável e movimentado. E o comércio só tende a ganhar com isto!

 

IMAGEM: Edson Lopes/Prefeitura de SP