‘Do produtor à casa do cliente’ é sucesso no e-commerce

Sites especializados no comércio de ovos, cogumelos e mirtilos crescem com acesso direto ao consumidor

Fátima Fernandes
27/Nov/2023
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‘Do produtor à casa do cliente’ é sucesso no e-commerce

A pandemia do novo coronavírus provocou um caos na vida das pessoas e das empresas, com forte impacto nos hábitos de consumo, de acordo com pesquisas.

Ao mesmo tempo, negócios e empresas que tinham acabado de nascer tiveram um empurrão tão forte que nem os próprios empreendedores poderiam prever.

Alguém poderia imaginar que um dia seria possível comprar ovos, cogumelos, mirtilos, framboesa pela internet e recebê-los fresquinhos toda a semana na porta de casa?

Negócios como esses são exemplos do que é capaz de fazer o e-commerce, ainda mais considerando produtos tão delicados para o transporte.

OVOS

Em 2018, a Mantiqueira Brasil, maior granja do país, decidiu apostar na venda de ovos pela internet para ter um canal de contato direto com o cliente.

“O que era para ser algo para inovar e ter uma nova história para contar, se tornou um negócio importante para a empresa”, afirma Murilo Pinto, diretor da Mantiqueira Brasil.

Durante a pandemia, diz, as vendas de ovos pelo e-commerce cresceram mais de 1.000%. Neste ano, a previsão é de um salto de mais 40% no faturamento.

A Mantiqueira Brasil, produtora e distribuidora de ovos há 36 anos, criou um clube de assinatura que já conta com 5 mil clientes em São Paulo, Rio de Janeiro e arredores.

Dependendo do kit e da frequência de entrega, o consumidor paga de R$ 19 a R$ 50 por mês e escolhe entre os tipos orgânico, caipira, happy eggs, família e fitness.

As entregas são feitas em kits, de acordo com as necessidades dos clientes, em embalagens desenvolvidas para que os ovos cheguem frescos e intactos.

O processo de compra é como o de qualquer outro produto. Por meio de um número de WhatsApp, o cliente tira dúvidas, em comunicação direta com a empresa.

Se é possível comprar praticamente tudo sem sair de casa, por que não ovo, diz Pinto, um produto que pode ser consumido em qualquer hora do dia.

Os planos para o consumidor são a partir de 30 ovos, com entregas semanais, quinzenais e mensais, podendo ser pagos diretamente no cartão de crédito.

“Pessoas comem ovos no café da manhã, no almoço, no jantar, no lanche. É um produto recorrente e até difícil de definir quem são exatamente os consumidores”, diz.

Em 2021, a Mantiqueira Brasil decidiu também abrir o canal on-line para atender as empresas, como padarias e rotisserias.

Neste caso, os kits são de 60, 180 e 360 ovos, também entregues na frequência desejada pelas empresas.

A experiência no contato direto com o cliente, diz Pinto, tem mostrado que o consumidor quer cada vez mais entender a procedência dos produtos.

Cresce a demanda por ovos orgânicos, de galinhas que comem ração orgânica, e por caipiras, de aves que ficam soltas no galpão e pastam fora.

E a Mantiqueira Brasil se coloca como a maior produtora de ovos de galinhas livres do país.

Da produção de 3 bilhões de ovos por ano, aproximadamente 2 milhões são de aves criadas livres. O ovo mais barato, que vem da galinha presa, ainda é o que mais vende.

COGUMELO

Recém-formado em administração pela FGV, Alexander Piotti identificou carência na distribuição de um produto que está mais para o nicho dos gourmetizados.

Em 2017, ele criou a Fungo de Quintal, uma empresa que vende pelo e-commerce vários tipos de cogumelos, que saem diretamente do produtor para a casa do cliente.

Três semanas antes do início da pandemia do novo coronavírus, ele montou o clube de assinaturas da empresa, iniciativa que acabou impulsionando o negócio.

Muito rapidamente, a empresa conquistou 300 clientes. Hoje são 500, além de atender 200 restaurantes, como Outback e Ráscal.

Um produto tão nobre, como o cogumelo, de acordo com Piotti, estava somente nas mãos do Ceasa e de grandes distribuidores. “Vi uma oportunidade de negócios”, diz.

Cerca de 20 produtores espalhados em várias regiões no Estado de São Paulo abastecem com exclusividade a Fungo de Quintal.

Entre os clientes da Fungo de Quintal estão 200 restaurantes, como Outback e Ráscal. Os cogumelos vendidos pelo e-commerce garantem um faturamento de R$ 500 mil por mês

 

Uma frota terceirizada com câmaras refrigeradas faz o transporte dos cogumelos a partir da colheita até a casa do consumidor.

O kit mais em conta para quem faz parte do clube de assinatura é de R$ 34,90 por mês, que permite escolher entre os tipos Shimeji, Shitake, Paris, Portobello e Eryngui.

A Fungo de Quintal atende a clientela por WhatsApp e por telefone, em sua maioria feminina, com idades entre 30 e 60 anos, que gosta ou precisa cozinhar.

Antes de abrir a Fungo de Quintal, Piotti levava os cogumelos de um produtor para a avó e amigos experimentarem.

“O pessoal adorou e na quarta semana pedi demissão da empresa em que trabalhava para abrir a minha, que hoje fatura cerca de R$ 500 mil por mês”.

Para trazer novidades para a clientela, lançou recentemente um kit que possibilita cultivar o cogumelo em casa. Também decidiu diversificar o portfólio.

Os consumidores e os restaurantes já conseguem comprar palmito fresco. Em janeiro será o lançamento para quem participa do clube de assinatura.

Agora em novembro a empresa lançou o cogumelo juba de leão em pó, produto considerado importante para a saúde mental, diz Piotti com base em pesquisas.

BERRIES

No início de 2021, a Berry Good, braço da chilena Hortifrut, lançou a plataforma Berry House para o comércio de mirtilo, amora e framboesa, diretamente para o consumidor.

Até então, a empresa, que produz as frutas em países como Brasil, Chile, Argentina, Peru, EUA e México, vendia os berries para hortifrutis, restaurantes e varejo.

Paulo Roberto Pavan, diretor geral da empresa, há mais de uma década no Brasil, diz que em um ano a venda para o consumidor final dobrou e, neste ano, cresce mais 30%, na comparação com 2022.

Hoje, a Berry House participa com 8% do faturamento da empresa no Brasil e conta com cerca de 42 mil seguidores no Instagram.

Em pouco mais de dois anos, de acordo com Pavan, cerca de 10 mil clientes já compraram frutas na plataforma.

A Berry House, plataforma de e-commerce da Berry Good, foi lançada em 2021 e já vendeu seus mirtilos, amoras e framboesas para cerca de 10 mil clientes

 

“A plataforma comercial foi uma grata surpresa e tem crescido. Não sei se existe outra empresa que leva berries do produtor à casa do cliente, sem intermediários”, diz.

Mirtilo, amora e framboesa são os principais produtos da Berry House, que também comercializa frutas sazonais, como lichia, cereja e uva.

A empresa é responsável pela logística da colheita até a residência do cliente, e se prepara para lançar também o seu clube de assinatura para entregas programadas.

BYPASS

A venda direta para o consumidor de produtos que atendem nichos de mercado é o que explica o sucesso desses sites e outros, de acordo com Maurício Morgado, coordenador do FGVcev - Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP.

“O que eles têm em comum, na verdade, é que estão dando um bypass (desviar) no varejo para se comunicar diretamente com o consumidor final”, afirma.

Essa é uma prática que tem crescido, diz, também nas grandes empresas. O Zé Delivery, aplicativo da AmBev, entrega bebida gelada rapidamente na casa do cliente.

“Eles escapam da intermediação de venda, conseguindo uma margem maior, o que funciona muito bem com produtos mais especializados”, diz Morgado.

Conhecer o cliente tem sido a chave de sucesso de negócios no varejo físico e no virtual, de acordo com dez entre dez especialistas do setor.

Esses sites e outros sabem quem são exatamente os seus clientes, diz Morgado, nome, endereço, preferências, e conseguem manter contato com eles o tempo todo.

Outros produtos como queijos, cafés, cachaças, chocolates podem ter o mesmo sucesso em plataformas especializadas, de acordo com Morgado. Fica a dica. 

 

IMAGENS: divulgação

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