Com eventos em alta, confecções migram para bairros nobres e shoppings

Acostumada a abastecer os lojistas, a Dolps, confecção do Bom Retiro, vai abrir lojas da marca Vestidoteca em Pinheiros e Vila Mariana. Criada em 2012, a plataforma Dress & Go (foto) entra no shopping Morumbi para alugar vestidos

Fátima Fernandes
03/Nov/2023
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Com eventos em alta, confecções migram para bairros nobres e shoppings

Pode-se dizer que um dos setores mais prejudicados com a política do “fique em casa” devido à pandemia do novo coronavírus está literalmente em festa em 2023.

O mercado brasileiro de eventos retomou com tanta força no Brasil que tem levado tradicionais confecções de roupas de festas e até plataformas on-line a abrir lojas em bairros e shoppings.

De janeiro a julho, o setor de eventos, que deixou de faturar R$ 230 bilhões em 2020 e 2021, movimentou R$ 66,5 bilhões, o melhor resultado dos últimos cinco anos para o período.

Na comparação com igual período do ano passado, o crescimento foi de 14%, de acordo com levantamento realizado pela Abrape (Associação Brasileira de Promotores de Eventos).

Neste ano, já foram realizados mais de um milhão de casamentos no país, de acordo com estimativa da Abrafesta, associação que reúne 300 prestadores de serviços para o setor.

“O mercado mudou com a pandemia. Empresas fecharam, outras abriram, só que o brasileiro gosta de festa e o setor deve continuar crescendo”, diz Ricardo Dias, presidente da Abrafesta.

Se há tantos eventos, consequentemente, há também mais procura por roupas apropriadas, especialmente para as mulheres que fazem de tudo para não repetir um modelito.

Há mais de 30 anos instalada no Bom Retiro, a Dolps, fabricante de vestidos de festa, acostumada a abastecer lojistas de todo o país, decidiu entrar no mundo do varejo.

Há pouco mais de um mês, a confecção fez a estreia da Vestidoteca na internet, com vestidos de festa que custam cerca de R$ 700, em média.

“Já deu para perceber que existe um mercado mal atendido neste segmento, e há espaço para crescer também com lojas físicas”, afirma Antônio Ko, sócio-proprietário da confecção.

Quem reside em São Paulo e precisa de um vestido de festa, geralmente, diz Ko, considera os bairros do Bom Retiro ou Brás em razão das confecções que lá se concentram.

“Nem todo mundo tem condição de ir até esses locais e a Vestidoteca surge, justamente, para atender a necessidade do consumidor indo também para os bairros”, afirma.

Ko está se preparando para abrir cinco lojas na cidade de São Paulo, nos bairros de Pinheiros, Mooca, Vila Leopoldina e Vila Mariana, e não descarta ir para os shoppings.

A Vestidoteca, loja da confecção Dolps que hoje atende no Bom Retiro, se prepara para expandir para outros bairros e shoppings da capital paulista

 

Como a saída maciça de lojistas de centros comerciais devido à pandemia, além de troca de pontos, existe uma oportunidade, diz ele, para ocupar espaços deixados até por grandes redes.

“Os vestidos de festa exigem área grande para estoque e os provadores também precisam ser maiores, um match que não funcionava bem em shopping”, diz.

Com a volta dos eventos e áreas vagas em centros comerciais e ruas, diz, os vestidos de festa podem fazer parte do mix de lojas em toda a parte, não apenas onde estão as confecções.

A procura por vestidos de festa, diz, já ultrapassa a do período pré-pandemia. Ko prefere não dar muitos detalhes para não atiçar a concorrência.

“Estamos ganhando muitos concorrentes. Pessoas que não estavam neste mercado estão entrando porque viram que há uma demanda não atendida”, diz.

Dias, da Abrafesta, diz que é até difícil de explicar o boom que vive o setor. “Outubro foi um mês incrível para o setor, quando algumas empresas bateram recorde de faturamento.”

A Dress & Go, plataforma com foco em economia circular, que surgiu em 2012 com locação e venda de vestidos de festa de grife usados, também decidiu experimentar o canal físico.

Bárbara Diniz, sócia-fundadora da Dress & Go, acaba de abrir uma loja no shopping Morumbi com uma oferta de aproximadamente 400 vestidos de festa.

Outra loja, localizada na rua Mário Ferraz, 571, no Itaim Bibi, tem à disposição da clientela 5 mil vestidos. Na plataforma, a oferta é de 8 mil peças.

“Quando o país começou a voltar ao normal, a procura por vestidos triplicou em relação a 2019. Agora há uma acomodação de mercado, mas a demanda ainda é 40% maior do que a de 2019.”

A experiência no Morumbi está sendo interessante, de acordo com ela, porque os shoppings não costumam ter lojas de vestidos de festa e tampouco de usados.

“O negócio de aluguel de vestido de festa tinha uma forma mais engessada, com preços mais altos. O que fizemos com a indústria de aluguel foi o que a Uber fez com o táxi”, diz.

Assim como a ampliação do mix de lojas em shoppings, a economia circular, de acordo com ela, não tem mais volta, e por isso a Dress & Go pode ir também para outros centros comerciais.

ANÁLISE

Não é de hoje que os shoppings estão atraindo novos setores como forma de manter as áreas ocupadas e ao mesmo tempo atender às demandas dos consumidores.

Academias, clínicas, salões de beleza, supermercados, restaurantes, pequenos serviços ganham cada vez mais espaços nos empreendimentos, onde se concentravam lojas de roupas.

“Roupas de festa é um segmento pouco explorado em shoppings e se revela como mais uma oportunidade de negócio para compor o mix de lojas”, afirma Marcos Hirai, sócio-fundador do NDEV (Núcleo de Desenvolvimento de Expansões Varejistas).

Os locais onde se concentram este tipo de comércio, nos bairros do Bom Retiro e Brás, por exemplo, geralmente não abrem à noite e aos finais de semana.

“Se os shoppings começam a ter essas lojas, passam a atender justamente quem tem dificuldade de se enquadrar nos horários das lojas de ruas”, afirma.

No passado, alguns shoppings chegaram a ter este tipo de comércio, mas sem sucesso, diz, muito em razão da pouca oferta de peças e dos altos preços.

Especialmente após a pandemia, de acordo com Hirai, os shoppings passaram a buscar segmentos novos para compor o mix e os vestidos de festa entram nesta lógica.

Quem poderia imaginar, diz ele, que um shopping abrigaria uma concessionária de veículos. A Ranger Rover, marca do grupo JLR, acaba de inaugurar uma loja no shopping Iguatemi.

A GWM Brasil também abriu recentemente uma loja-conceito no shopping Pátio Higienópolis, num espaço de quase 100 metros quadrados.

E mais espaços em shoppings deverão ficar vagos. 

A Southrock Capital, que comanda as operações da Starbucks, Subway e da Eataly, por meio de licenciamento e franquias, acaba de entrar com pedido de recuperação judicial em razão de uma dívida de R$ 1,8 bilhão.

Como consequência, lojas da Starbucks espalhadas por shoppings de todo o país, muito provavelmente, correm o risco de fechar, assim como ocorreu com grandes redes em crise, como a Lojas Americanas.  

“O caso da Starbucks foi uma surpresa para o mercado, até porque eles vinham em expansão. De qualquer forma, são mais espaços vagos para serem ocupados, que se transformam em oportunidade para muitos setores”, diz Hirai.

 

IMAGENS: Divulgação

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