Brasil quer impulsionar adoção dos biocombustíveis pelo mundo

Ao lado de Índia e Estados Unidos, o país lançou a Aliança Global de Biocombustíveis

Agência EY
20/Set/2023
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Estados Unidos, Brasil e Índia, que lideram a produção mundial de biocombustíveis, lançaram, na Cúpula do G20, realizada no começo de setembro, uma aliança global em torno dessa alternativa sustentável de combustível. O grupo reúne, além do trio, 19 países e 12 organizações internacionais e está aberto a novos integrantes.

“O objetivo principal dessa aliança é fomentar o uso de biocombustíveis no mundo como forma de contribuir para a contenção do aquecimento global, atendendo assim a um dos compromissos do Acordo de Paris”, diz Ricardo Assumpção, Chief Sustainability Officer (CSO) da EY e líder de ESG e Sustentabilidade, que está participando da NY Climate Week, evento que ocorre simultaneamente à Assembleia Geral das Nações Unidas para debater assuntos que também serão abordados em novembro, na COP28, em Dubai.

“A Agência Internacional de Energia calcula que a produção global de biocombustíveis precisa triplicar até 2030 para que o mundo alcance emissões líquidas zero de carbono até 2050”.

Além dessa iniciativa, o governo federal enviou, na semana passada, para o Congresso Nacional o projeto de lei “Combustível do Futuro”, cuja expectativa é viabilizar investimentos de R$ 250 bilhões para descarbonização do setor de transportes.

Entre as medidas previstas pelo PL estão aumento do percentual de etanol anidro na gasolina para até 30%; programa nacional de Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês); e um marco regulatório para captura e estocagem geológica de dióxido de carbono, que é um dos principais gases de efeito estufa (GEE).

“Hoje os EUA lideram a produção de SAF a partir de óleos de origem orgânica, como óleo de cozinha, conhecidos como HEFA [sigla em inglês para “ácidos graxos e ésteres hidroprocessados”]. O Brasil, além de ser muito competitivo em HEFA, tem insumos em abundância e a um custo de produção muito baixo para o SAF a partir do etanol”, afirma Assumpção.

“Nosso país tende a ser um dos players mais importantes do SAF em nível global, e isso demonstra para todos nós que os biocombustíveis são um tema que podemos desenvolver e, mais do que isso, exportar inovação”, completa.

A proposta enviada pelo governo ao Congresso prevê metas progressivas de 1% a 10% entre 2027 e 2037 para a diminuição das emissões de dióxido de carbono pelo setor aéreo. A redução será alcançada por meio do aumento gradual da mistura de SAF ao querosene de aviação.

Transição dos combustíveis fósseis para os limpos - Ainda segundo Assumpção, algumas premissas devem ser observadas para que a transição dos combustíveis fósseis para os limpos seja possível, além de torná-los economicamente viáveis. Para esse último ponto, é fundamental que seja viabilizada ou construída a cadeia de suprimentos dessa indústria, por meio do investimento em infraestrutura, como logística, armazenamento e distribuição.

As premissas apontadas por Assumpção são:

1) Segurança: Atender à demanda com interrupção mínima no fornecimento, o que somente é possível com fontes de energia que sejam seguras e não tenham interrupção da cadeia de fornecimento;

2) Equidade: Promover acesso universal à energia confiável e acessível;

3) Sustentabilidade ambiental: intensificar a transição para fontes de energia renováveis e menos intensivas em carbono.

Na visão de Assumpção, os biocombustíveis têm potencial para atender a todas essas premissas, com uma vantagem comparativa do Brasil em relação aos outros países.

“Temos amplo predomínio de matrizes energéticas limpas e baratas, com grande oferta de cana-de-açúcar e outros insumos usados nos biocombustíveis. Estamos avançando para aproveitar esse potencial, com foco em planejamento, inclusive setorial, de como utilizaremos os biocombustíveis nos diferentes setores econômicos”, observa o CSO da EY, que palestrou no painel “Biomass & Biofuels: How they can be part of the solution”, durante o Brazil Climate Summit na NY Climate Week.

O próprio governo federal reconhece que o uso de biocombustíveis na aviação e na navegação elevará o consumo mundial, demandando a ampliação do número de fornecedores, o que pode beneficiar o Brasil.

Biogás e hidrogênio verde - Assumpção destaca, ainda, o potencial do biogás, por meio do aproveitamento do lodo proveniente do tratamento de esgoto que seria descartado no aterro, podendo ser reutilizado como combustível.

“Já há cidades no interior de São Paulo onde parte do lodo vai para um biodigestor para ser transformado em biogás, abastecendo a frota da empresa de saneamento básico do município. O impacto da economia circular é muito positivo, já que você reaproveita um subproduto que seria descartado”.

Sobre o hidrogênio verde (H2V), o CSO da EY observa que o Brasil tem igualmente potencial para liderar sua produção.

“O H2V pode descarbonizar setores inteiros da indústria de base, como siderurgia, mineração, indústria química e cimento. Já temos visto e conduzido trabalhos e estudos para compreender o cronograma de investimento e de aplicação dessa solução, e esses setores citados já têm feito os investimentos necessários para que o hidrogênio participe da matriz energética”.

Para Assumpção, há uma sequência ou lógica para a adoção dos biocombustíveis que pode ser contemplada nas políticas públicas.

“Quando falamos de biocombustível, precisamos considerar aquilo que é viável hoje, amanhã e no futuro. Temos o etanol, que é um biocombustível, e o biodiesel – ambos aplicáveis ao hoje e ao amanhã. Para o futuro, temos o biogás e, ainda mais à frente na linha do tempo, o hidrogênio verde, que corresponde ao combustível do futuro. Ou seja, uma linha do tempo na qual as fontes energéticas vão ficando cada vez mais maduras para que possam ser usadas”, ressalta.

“Mas há um ponto a ser considerado: as fontes energéticas só funcionam se forem viáveis economicamente. Os biocombustíveis no Brasil não são só economicamente viáveis como reduzirão drasticamente nossas emissões de carbono”.

 

IMAGEM: Freepik