Autoritarismo e liberdade

‘Alexei Navalny não possuía armas, exércitos, ou qualquer possibilidade de afrontar o poder. Possuía, no entanto, as armas mais temidas pelos tiranos: a palavra, as ideias e valores’

Marcel Solimeo
19/Fev/2024
Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo
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Autoritarismo e liberdade

A recente morte de um opositor do governo Putin em uma prisão nos campos gélidos do Ártico faz lembrar de um grande escritor russo, Fiódor Dostoiévski, que sofreu punição semelhante, embora não tenha falecido na prisão.

Em 1848, uma onda revolucionária varria a Europa Ocidental contra a monarquia, em particular na França, onde o rei Luís Felipe, após dias de sangrenta insurreição, se viu forçado a abdicar e a dar lugar a uma república.

Embora muito longe, o czar Nicolau I, então no comando do distante império russo, se sentiu ameaçado e logo passou a adotar medidas preventivas. À frente de um país, denunciado por seus exilados mundo afora como inimigo das liberdades e sinônimo da crueldade e da opressão em seu ápice, Nicolau suspeitava do surgimento de focos de traição por toda a parte e colocava a seu serviço uma numerosa rede de espiões. 

Buscando demonstrar força perante seus opositores, o czar redigiu, de próprio punho, um manifesto no qual assegurava sua determinação em lançar mão de todo o seu poder para manter o trono e a igreja a salvo da revolução, e tratava potenciais insurretos com severidade, mediante uma sequência de providências começando pela censura rigorosa, com o próprio imperador determinando as punições.     

No esforço de sufocar as liberdades, deu início aos expurgos no meio acadêmico, com a disseminação de prisões políticas e do pavor na simples exposição de ideias. Quando chegou aos ouvidos de Nicolau a notícia de uma possível insurreição liderada pelo chamado grupo de Petrashevski, integrado por intelectuais, dentre os quais o então jovem escritor Dostoiévski, para discussões sobre os ideais socialistas, Nicolau decidiu agir.

Apesar de que naqueles anos nem mesmo os radicais, menos ainda o grupo de Dostoiévski, representassem qualquer risco para a ordem estabelecida, além da simples disseminação de opiniões, governos tirânicos como o de Nicolau consideravam ameaça à segurança.

Mesmo assim, certamente com objetivo de desestimular outros grupos, os membros do Petrashevski foram condenados à morte pelo czar, mas tiveram a pena capital convertida em período de prisão na gélida Sibéria pelo imperador.

Porém, como os gênios encontram inspiração até mesmo em seus momentos de dor, os anos siberianos vieram a ser retratados por Dostoiévski no romance Recordações da Casa dos Mortos, cujo próprio cunho autobiográfico foi disfarçado ao relatar suas experiências no cárcere pela voz de uma terceira pessoa ficcional. 

Dostoiévski escreveu vários livros após sua temporada na prisão, sempre marcado por um humor mordaz e desafiador, mostrando o poder de superação que sua genialidade permitiu não apenas sobreviver à Casa dos Mortos, como transformar sua estada em mais um apreciado romance.

O que interessa, no entanto, no paralelo entre Dostoiévski e Alexei Navalny (condenado por Putin) que morreu na prisão numa região gelada é que ambos não possuíam armas, exércitos, ou qualquer possibilidade de afrontar o poder.

Possuíam, no entanto, as armas mais temidas pelos tiranos: a palavra, as ideias e valores. Contra essas armas, os ditadores não têm defesas que não seja o arbítrio e a violência. Quando usam essas armas, no entanto, eles revelam sua fraqueza e a incapacidade de combater no campo das ideias.

Por isso desconfiam de qualquer movimento, mesmo que pacífico, que difundam ideias a favor das liberdades, mesmo que essa defesa seja apenas uma aspiração.

O maior problema é que a defesa dos autoritários é provocar o medo, instalando clima de vigilância, desconfiança e insegurança que provoca a pior das censuras: a autocensura, em que os próprios cidadãos passam a se preocupar com suas manifestações e evitar emitir opiniões.

Com redes sociais esse problema toma outra dimensão, pois a vigilância é muito mais ampla e efetiva, levando ao autopoliciamento das opiniões e, mesmo, dos relacionamentos•

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