Às vésperas do Natal, importados ficam parados em Guarulhos

Atualização de sistema da Receita, inspeção total de carga em um dia e maior fluxo no comércio exterior resultam em toneladas de mercadorias a céu aberto

Fátima Fernandes
06/Dez/2023
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A menos de um mês para o Natal, o comércio de São Paulo enfrenta atraso na chegada de produtos importados para vender neste que é o melhor período do ano para o setor.

Passageiros que saem ou chegam ao aeroporto de Guarulhos conseguem ver das aeronaves as montanhas de mercadorias expostas ao ar livre aguardando para chegarem ao destino.

Lojistas e importadores consultados pelo Diário do Comércio informam que têm cargas paradas há mais de dez dias no aeroporto sem previsão se chegarão para o Natal.

Essa situação está gerando desgaste com os clientes e aumento nos custos da importação, já que a carga permanece mais tempo nos armazéns do aeroporto. 

A Dahl Comércio Internacional informa que, há 12 dias, possui dez paletes com cerca de US$ 15 mil em produtos de higiene pessoal à espera de liberação no aeroporto de Guarulhos.

Geralmente, assim que as mercadorias chegam ao aeroporto, todo o processo para a entrega ao cliente demora de quatro a cinco dias, de acordo com Rita Campagnoli, sócia da Dahl.

Uma combinação de motivos tem levado ao atraso no desembaraço das mercadorias. Nos dias 18 e 19 de novembro, o data center da Receita Federal foi desligado para manutenção.

Com isso e com o feriado no dia da Consciência Negra (20/11), as DI (Declaração de Importação) tiveram atraso de quatro dias para a liberação.

Auditores fiscais também realizaram, no dia 30 de novembro, o “dia do canal vermelho”, uma ação para verificação física e de documentos de todos os produtos que passam por inspeção.

“Quando há uma paralisação no sistema operacional da Receita Federal, como aconteceu, deveria ter um plano de contingência manual para funcionar”, afirma Elson Isayama, presidente do Sindasp (Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo).

Como isso não ocorreu, diz, a carga acumulada no aeroporto de Guarulhos está estimada hoje em 800 toneladas. A média de entrada de produtos por dia é da ordem de 400 toneladas.

“Há uma grande preocupação em razão dessa carga parada porque, além de toda a confusão para saída das mercadorias, há um descontrole nos valores”, diz.

Há muito tempo, diz Rita, da Dahl, o aeroporto de Guarulhos sofre com a falta de infraestrutura para armazenar produtos e, além dos fatores citados, soma-se o fato de este ser um período de maior movimento.  

“O aeroporto deveria estar preparado para atender épocas de maior fluxo”, afirma Rita, que também é presidente do conselho deliberativo do Ceciex (Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Parte dos voos de carga, de acordo com ela, está sendo desviada para o aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), causando custos adicionais para os importadores.

“Neste caso, temos de pagar o frete para o transporte das mercadorias de Campinas para São Paulo. Toda essa demora causa desgaste com os clientes, como perda de credibilidade”, afirma.

Se o lojista está desabastecido, diz, em situações como essas, ele acaba cancelando o pedido e   busca mercadoria em outro fornecedor com estoque, mesmo pagando mais caro.

“Já soube de colegas [importadores] que estão enfrentando esse problema e vão ter de arcar com os custos do que foi importado”, afirma.

Outra situação criada com esses atrasos na liberação de cargas, diz, está relacionada com os custos de armazenagem. 

“A carga fica parada, não porque o importador quer, mas, ainda assim, tem de pagar pelo tempo a mais que ficou no armazém. A situação fica mais difícil ainda por conta do Natal”, diz.

Além de produtos para venda direta para o consumidor, peças publicitárias com motivos natalinos de grifes estrangeiras e brindes para clientes também estão parados no aeroporto.

Lojistas informam que, se não chegarem para o Natal, podem até ser descartados, causando prejuízo para as marcas.

Uma reunião com representantes do aeroporto de Guarulhos, Receita Federal, transportadoras e importadores aconteceu na última segunda-feira para normalizar a saída de mercadorias. Uma das medidas foi a definição de horários para a retirada mais rápida de produtos.

“Há várias situações ali. Carga liberada que aguarda importador retirar, carga esperando o registro da declaração de importação e carga aguardando para iniciar o processo de liberação.”

EXPORTAÇÃO

Empresas brasileiras também enfrentam dificuldade para enviar mercadorias para o exterior. 

Ozana Herrera, diretora da Brazilian Forest, sócia do Ceciex, possui cargas paradas (produtos naturais brasileiros) há mais de uma semana para exportação para Europa e Ásia.

Além do desgaste que a situação cria com os clientes, diz ela, se a mercadoria não é embarcada no dia e no horário agendados, há um custo adicional para a empresa exportadora.

“Se a mercadoria foi sorteada para ser verificada antes do embarque, não acho errado, mas todo esse processo deveria e precisa ser mais ágil”, afirma.

Diante desta situação, diz Ozana, tem cliente chinês que chega a brincar com a situação. “O brasileiro não prende o que chega ao país, mas prende o que sai?”

As negociações em relação ao tempo de armazenagem dos produtos vão ser outro problema que os importadores e exportadores terão de enfrentar neste mês com o aeroporto.

 

IMAGEM: Sindireceita/divulgação

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