As lições da Copa e de Confúcio para a economia e política

Assim como surgiram os talentos africanos, do esforço individual e coletivo e explorando espaços abertos a todos, assim é uma economia eficiente: vencem as firmas mais competitivas, contratando os melhores no mercado de trabalho e organizando-os no melhor esquema de cooperação

Carlos A. Cinquetti
22/Jul/2026
Empresário e Livre-docente aposentado da UNESP, é PhD em economia e foi pesquisador visitante nas universidades do Colorado e de Ottawa
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As lições da Copa e de Confúcio para a economia e política

Dos 10 times da África na copa de 2026, nove se classificaram para a fase seguinte. Encantaram telespectadores do mundo, sobretudo dos seus países. A debutante Cabo Verde foi a mais desconcertante. Encerrou sua campanha na disputa com a Argentina, atual campeã mundial, segurando empate até o segundo tempo da prorrogação.

Nada novo à linhagem africana este desempenho notável nos esportes, nas artes, nas ciências etc. Se foi menor antes, foi por um ambientes adversos a eles. Na Copa, ao contrário, uma competição com regras pré-estabelecidas, vence o melhor. Um ambiente de mobilidade de posições.

Assim surgiram os talentos africanos, do esforço individual e coletivo deles, explorando espaços abertos a todos. Até na tolerância com certos constrangimentos e erros de arbitragem.

Assim é uma economia eficiente. Vencem as firmas mais competitivas, contratando os melhores no mercado de trabalho e organizando-os no melhor esquema de cooperação. E o bem-estar se eleva quanto mais competitivo e pacífico forem os legalmente amparados mercados de produtos e de trabalho.

Fosse o agora pouco competitivo mercado internacional se espelhar na Copa, teríamos uma retomada da agenda liberalizante da OMC, com as potências Ocidentais, Índia e China reduzindo suas barreiras à importação dos agrícolas e alimentícios. Um caminho que, entre outros, reduziria o problema de imigração ilegal na Europa e EUA, abrindo oportunidades nos países de origem destes migrantes.

Como mostram as teorias de comércio internacional, um substituto do fluxo internacional de pessoas (migração) é o fluxo de produtos (comércio). Este é também o caminho da paz. Vide Europa pós a abertura mútua entre os países europeus, assim como entre países do Mercosul e em vários outros tratados regionais de comércio livre - incluindo casos na África.

Onde há comércio há bons modos, como diz Montesquieu, pois estratégias competitivas envolvem cooperação. Estratégias individuais independentes de associações com grupos étnicos ou religiosos envolvem interações cooperativas e supõem maior lealdade dos indivíduos às regras do jogo.

Há evidências de que o capital social (valores de lealdade e comprometimento com o bem comum) é maior em sociedades de maior individualismo, que difere do egoísmo. Noutros termos, o capital social avança mais em ambientes de estratégias impessoais, competitivas. Em ambientes de assimetria de direitos, com vantagens e privilégios para grupos étnicos ou de renda, o capital social é mais baixo.

É um legado da escravidão na África e da colonização na América Latina: baixo capital social, baixa confiança interpessoal e nas instituições, um dos fomentadores das muitas guerras civis nestes dois continentes. Assim é, assimétrico, o ambiente igualitarista e identitário do Brasil e certos vizinhos, que confere vantagens a grupos de rendas, étnicos ou de gênero.

Regras falsamente inclusivas, pois que exclui, ou penaliza indivíduos não pertencentes à tais grupos. Regras igualmente avessas ao trabalho duro, à impessoalidade. Séculos antes de Cristo, Confúcio disse “o melhor ambiente é o que induz a riqueza individual por boas regras, onde ser pobre é motivo de vergonha, assim como ser rico num ambiente de privilégios”.

E outro lado do igualitarismo e identitarismo brasileiro e alhures é dos vencedores por ligações com o governo, de um capitalismo dos achegados. Por outro lado, não mais atraiu as melhores empresas estrangeiras, enquanto boas empresas locais fecharam ou saíram, e muitos dos melhores pesquisadores e engenheiros. Confúcio, noutra lição para os governos, diz “encoraje o povo ao trabalho duro dando o próprio (governo) bons exemplos”.

Lição que esclarece a origem dessas políticas distorsivas, pois não temos governos (municipais, estaduais e Federal) trabalhando duro para o bem comum, mas sim para seus próprios fins, apoiados em esquemas de favores. E num ambiente de desincentivos ao trabalho duro, de vencer pelo que se entrega, avançam as condutas não cooperativas, como corrupção e roubos.

O resultado é um governo que tributa muito, além do padrão de renda do país, e entrega pouco. Não há força da lei, boa infraestrutura, nem boas escolas públicas. O famigerado custo Brasil que deprime a produtividade, os investimentos e a piora no perfil ocupacional.

Mais incisivamente, por conta desta desfuncional democracia, que induz até a informalidade dos contratos, o PIB/per capta do Brasil vem crescendo abaixo da média mundial há quatro décadas. Concluindo, competição (trabalho duro) e um bom ambiente institucional é o impulsionador da prosperidade e da paz, e o governo é o local para desenhar e garantir esta arquitetura.

Mas quando não há independência dos poderes, conspurcando a própria competição democrática, então a incumbente elite política não age mais para o bem público; sequer está sujeita à sanções. O dilema é: como, com tal governo, sair pacificamente deste inferno de políticas orientadas para captar os resultados (renda) da economia, e não impulsionar suas causas? 


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IMAGEM: Alexandra Fechete/Sports Press Photo/Fotoarena/Folhapress

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