Após Carrefour, é a vez da rede Enxuto se preparar para franquia

Empresa busca parceiros com veia supermercadista para expandir número de lojas no interior paulista. Para consultores, franquia no setor é desafio em razão de margens apertadas

Fátima Fernandes
18/Set/2023
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Após Carrefour, é a vez da rede Enxuto se preparar para franquia

Um modelo de negócio que caiu no gosto dos empresários quando se trata de expansão é o de franquia. Afinal, dizem, essa é a forma mais rápida de crescer, e com o apoio de um parceiro.

No Brasil, este é um mercado de R$ 230 bilhões, que cresce dois dígitos por ano, e conta com a participação de setores que vão de hotelaria e turismo a moda, alimentação e saúde.

Mais recentemente, um novo setor começa a enxergar o franchising como forma de expansão. Em junho, o Carrefour anunciou que o seu modelo Express vai crescer por meio de franquias.

O lançamento foi feito na ABF Franchising 2023 para três modelos da marca francesa: lojas em condomínios residenciais, em companhias e nos mercadinhos espalhados pelos bairros.

Três meses depois, quem informa que está desenhando o seu plano para expandir a marca por meio de franchising é a rede Enxuto, com seis supermercados e 34 lojas de conveniência.

A ideia da empresa é abrir franquia para lojas de até 100 metros quadrados no interior paulista e chegar a ter 200 unidades em dois anos, entre próprias e franqueadas.

“Estamos em fase de formatar o modelo para que esteja tudo pronto em quatro meses”, afirma Samuel Costa Júnior, presidente do grupo, com sede em Campinas (SP).

Costa Junior diz que a franquia poderá ser feita no modelo de conversão. Isto é, o dono de um mercadinho de bairro pode transformar a sua loja na bandeira Enxuto.

O varejista também pode manter a marca e ser um parceiro Enxuto, usufruindo de vantagens de negociações com as indústrias e de acesso às tecnologias operacionais e comerciais.

“A nossa ideia é trazer para o negócio quem já possui veia supermercadista. Qual é o desafio de qualquer supermercado? É tornar um colaborador um dono para tocar o negócio”, afirma.

O modelo de franquia, diz, requer habilidade e, no caso de um supermercado de bairro, o relacionamento com a clientela é algo de extrema importância.

“Se cada loja tiver um dono, o processo de desenvolvimento do negócio é muito melhor”, diz.

O Carrefour informa que a estreia da companhia em franquia no Brasil está relacionada com a evolução do modelo de conveniência e com a ideia de fomentar o empreendedorismo.

A empresa francesa, que opera franquia em outros países, promete oferecer expertises operacional e comercial aos parceiros, que podem se unir à rede com investimentos a partir de R$ 150 mil.

REDE DIA

Até agora, quem estava praticamente sozinha no Brasil no modelo de franquia em supermercados era a rede espanhola Dia, que estreou por aqui em 2001.

A empresa, que chegou a ter cerca de 2 mil lojas no mercado brasileiro, fechou centenas delas nos últimos anos no Brasil e em outros países em razão de uma crise financeira.

Nos últimos anos, a rede espanhola passou por um processo de troca de comando. Desde maio de 2019, pertence à LetterOne, controlada pelo investidor russo Mikhail Fridman.

Costa Junior, que foi executivo da rede Dia por anos e responsável pela execução e supervisão do negócio de franquia, diz estar trazendo a sua experiência para a rede Enxuto. 

“O modelo do Dia é vencedor, tanto que está em 3,5 mil lojas em cinco países, Argentina, Brasil, Espanha, China e Portugal”, afirma Costa Junior.

TUDO PELA CONVENIÊNCIA

A pergunta que circula entre os que vivem no mundo do varejo alimentar é: por que só agora os supermercados passaram a olhar com mais atenção o modelo de franquia?

Para Lyana Bittencour, CEO do grupo Bittencourt, a explicação tem tudo a ver com o comportamento do brasileiro, especialmente pós-pandemia.

Pesquisas revelam que os consumidores estão dispostos a pagar até 5% mais por produtos, se o que eles precisam estiver nas proximidades.

“O consumidor busca cada vez mais conveniência e até aceita pagar um pouco por isso”, afirma Lyana, que formatou o modelo de franquia do Carrefour Express.

Além disso, diz, é mais inteligente para uma rede ter uma loja administrada por um franqueado que já conhece a clientela de um condomínio ou de um bairro do que ela mesma fazer isso.

É um modelo que traz oportunidades, diz ela, fomenta o empreendedorismo e que já é sucesso em mercadinhos em condomínios. 

Market4u e Minha Quitandinha, por exemplo, são empresas que praticamente nasceram no modelo de franquia e não param de crescer.

DESAFIO

Para alguns especialistas em varejo, trabalhar com franquia em supermercados é um grande desafio porque este é um setor que opera com margens apertadas, de 2% a 3%.

É diferente de uma loja de roupa, calçados ou de uma prestadora de serviços, que operam com margens, geralmente, na casa de dois dígitos.

A competição entre as empresas supermercadistas é muito mais acirrada, especialmente neste momento em que os atacarejos avançam em versões menores para os bairros.

“É difícil dividir ganhos em um setor com margens tão justas”, afirma Marcos Hirai, sócio-fundador do NDEV (Núcleo de Desenvolvimento de Expansões Varejistas).

A pergunta, com resposta que vale US$ 1 milhão, diz, é: como resolver essa questão num setor com margens entre 2% e 3%, uma lógica que também afeta o setor de farmácias?

“Se for resolvida a questão da margem, aí sim pode ser um modelo promissor”, diz. 

A rede Hirota, com mais de 100 lojas entre supermercados Hirota Express e Hirota em Casa, tentou desenvolver um projeto de franquia, mas acabou desistindo após estudos.

“O projeto era para o Hirota em Casa, mas vimos que não seria bom nem para nós nem para os franqueados por conta das margens apertadas”, diz Hélio Freddi Filho, diretor da rede.

Freddi Filho afirma que a empresa também ficou preocupada com o “cuidado com a marca”. “Temos 14 mil itens. Não é fácil cuidar de tudo isso numa loja”, diz.

Para Marcos Escudeiro, conselheiro de empresas, com experiência de décadas no setor supermercadista, a franquia no setor é viável desde que o modelo esteja bem definido.

“Se as empresas que estão tocando os mercadinhos em condomínios estão indo bem é porque o modelo de franquia é bem formatado, até porque depende de terceiros.”

Adriana Auriemo, vice-presidente da ABF (Associação Brasileira de Franchising), diz que o Carrefour não adotaria o formato sem antes fazer pesquisas entre prós e contras do modelo.

Quem abre uma franquia de uma empresa já estruturada, diz ela, tem a vantagem de obter toda a inteligência do negócio, como sistemas de operação e meios de pagamento.

“Justamente porque as margens são mais apertadas, há muito mais chance de sucesso para quem já conhece o mercado”, afirma.

Um dos pontos importantes numa operação que envolve franqueador e franqueado, de acordo com ela, e isso em qualquer setor, é a escolha do ponto.

“A minha percepção é que algumas redes estão abrindo lojas muito próximas umas das outras.  Antes de abrir um ponto também é preciso conhecer muito bem o público da região”, diz.

OXXO

O que tem levado muitas redes a expandir os minimercados, de acordo com consultores de varejo, é a forte concorrência com a mexicana Oxxo, que cresce com lojas próprias.

A rede que invadiu os bairros já possui cerca de 350 lojas espalhadas pelo Brasil, onde está desde o final de 2020 por meio de uma parceria entre a Femsa e a Raízen.

“Não sei a conta que o Carrefour fez, mas talvez uma forma de concorrer com a Oxxo seja justamente por meio do modelo de franquia”, diz Freddi Filho, da rede Hirota.

 

IMAGEM: Enxuto/divulgação

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