A próxima infraestrutura da economia já começou a ser construída
Como a migração do sistema financeiro global para redes programáveis deixa de ser uma tendência tecnológica e se torna a nova engrenagem de circulação de capital para o mercado

Toda grande transformação econômica costuma ser inicialmente interpretada como uma inovação tecnológica. Foi assim com a internet, com a computação em nuvem e com a inteligência artificial. Aos poucos, porém, percebe-se que a tecnologia era apenas o meio; a verdadeira mudança estava na infraestrutura que sustentaria uma nova forma de produzir riqueza. Os ativos digitais caminham exatamente nessa direção.
Muito além das criptomoedas, um ativo digital é a representação eletrônica de um direito econômico registrada em uma infraestrutura distribuída e altamente segura. Esse direito pode corresponder a dinheiro, ações, títulos públicos, imóveis, recebíveis, commodities ou praticamente qualquer ativo financeiro.
Entre esses instrumentos destacam-se as stablecoins, ativos digitais cujo valor permanece vinculado a uma moeda fiduciária, como o dólar ou o real. Sua função não é substituir moedas nacionais, mas permitir que pagamentos, liquidações e transferências internacionais ocorram em segundos, durante vinte e quatro horas por dia, sem a complexidade das redes bancárias tradicionais.
Outro conceito frequentemente associado ao tema é o das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Diferentemente das stablecoins, elas são emitidas diretamente pela autoridade monetária de cada país, representando uma versão digital da moeda soberana. Enquanto as stablecoins surgem da iniciativa privada, as CBDCs constituem uma extensão digital da política monetária. Esses três elementos convivem, mas cumprem funções distintas dentro da arquitetura financeira que está sendo construída.
O ponto central, entretanto, não está na tecnologia, mas na reorganização dos mercados. Nesta semana, dois acontecimentos simbolizam essa transição. O Congresso americano discute um marco regulatório que busca definir regras claras para os ativos digitais, distribuindo competências entre os órgãos reguladores e estabelecendo maior segurança jurídica para a inovação.
Ao mesmo tempo, a DTCC — instituição responsável pela liquidação de mais de US$ 100 trilhões em ativos financeiros — inicia operações limitadas utilizando infraestrutura de tokenização para ações, ETFs e títulos do Tesouro americano, em projetos que contam com a participação de algumas das maiores instituições financeiras do planeta. Esses movimentos revelam algo maior do que a evolução do mercado de criptomoedas.
Eles indicam que a infraestrutura do sistema financeiro internacional começa a migrar da lógica baseada em documentos, registros fragmentados e liquidação em dias para uma arquitetura programável, interoperável e praticamente instantânea. Historicamente, as empresas obtiveram ganhos de produtividade automatizando fábricas, escritórios e cadeias logísticas.
A próxima fronteira pode estar na automação da própria circulação do capital. Contratos poderão executar pagamentos automaticamente. Garantias poderão ser atualizadas em tempo real. Recebíveis poderão ser negociados de forma fracionada.
Ativos hoje pouco líquidos poderão alcançar investidores globais sem a necessidade de múltiplos intermediários. O tempo entre uma decisão comercial e sua liquidação financeira tende a diminuir drasticamente.
Para o empresário brasileiro, essa transformação merece atenção independentemente do setor em que atua. Exportadores poderão reduzir custos de liquidação internacional. Empresas familiares encontrarão novas alternativas de financiamento. Indústrias poderão tokenizar estoques ou recebíveis.
O agronegócio poderá ampliar o acesso ao mercado de capitais. Pequenas e médias empresas poderão alcançar fontes de financiamento antes restritas às grandes corporações. Em outras palavras, ativos digitais deixam de representar apenas uma nova classe de investimentos e passam a constituir uma nova infraestrutura para os negócios. Naturalmente, desafios permanecem.
Questões regulatórias, padrões tecnológicos, segurança cibernética e governança ainda evoluirão nos próximos anos. Mas a direção parece cada vez mais clara: os principais bancos, gestores de recursos e operadores de mercado não estão se preparando para um novo ativo; estão ajudando a construir uma nova arquitetura financeira.
O Brasil reúne condições singulares para participar desse movimento. Possui um sistema bancário sofisticado, um banco central reconhecido internacionalmente por sua capacidade de inovação e uma população que adotou rapidamente soluções digitais como o PIX. Essa combinação cria um ambiente propício para que empresas brasileiras acompanhem — e, em alguns segmentos, liderem — essa transformação.
Toda revolução econômica possui um momento em que deixa de ser percebida como tendência e passa a constituir vantagem competitiva. A digitalização dos ativos financeiros parece aproximar-se exatamente desse ponto.
A pergunta que permanece para os empresários brasileiros já não é se os ativos digitais farão parte do ambiente de negócios, mas quão preparados estarão para competir quando essa infraestrutura se tornar o novo padrão da economia global.
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