A contribuição de Affonso Celso Pastore para o IEGV/ACSP e para o Brasil

'Há homens que já nascem póstumos'. Friedrich Nietzsche

Ulisses Ruiz de Gamboa
29/Fev/2024
Economista da ACSP e professor do Mackenzie, Insper e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorado em história econômica pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial
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A contribuição de Affonso Celso Pastore para o IEGV/ACSP e para o Brasil

Há pouco mais de uma semana perdemos um dos maiores economistas brasileiros de todos os tempos, o professor Affonso Celso Pastore. Seria redundante usar este espaço para descrever seu grande legado, em várias décadas de atuação como notável professor, lecionando e publicando um apreciável número de importantes livros e artigos, presidindo o Banco Central do Brasil no auge da crise da dívida externa, ou se tornando o consultor econômico mais respeitado do mercado. Esse legado já foi recentemente descrito por outros veículos da mídia.

Assim, gostaria de aproveitar a oportunidade para lembrar a importante atuação que o professor Pastore teve no Conselho Técnico do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (IEGV/ACSP), no começo dos anos 1960, que terminou representando importante contribuição não somente para a ACSP, como também para o país que tanto amou.

Na época havia um grande debate sobre qual seria a origem da elevada inflação que o Brasil enfrentava desde 1942. Esse debate era tão importante que direcionou as políticas econômicas implementadas em vários governos, a partir de então, a depender de que lado se posicionavam as autoridades econômicas de turno.

Por uma parte, se posicionava o pensamento ortodoxo, que acredita na tese monetarista, ou seja, que a inflação teria uma origem no aumento da emissão de moeda, realizada para financiar o excesso de despesas públicas sobre as receitas (déficit fiscal), o que também é conhecido como “monetização” do déficit público.

Por outra, estava o modelo heterodoxo da época, o modelo estruturalista, que afirmava que a inflação decorria da rigidez da oferta de alimentos e da capacidade de importar, frente a demandas crescentes. No primeiro caso, a maior procura de alimentos esbarraria com uma oferta rígida, devido à estrutura fundiária arcaica, decorrente da predominância de latifúndios improdutivos, gerando elevação dos preços desses produtos básicos, o que alimentaria o processo inflacionário.

Por sua vez, com relação ao setor externo, a crescente demanda por importações de um país que se industrializava teria dificuldades em ser atendida por uma capacidade de importar estagnada, gerando contínuos “rombos” nas contas externas e consequentes aumentos da cotação do dólar, o que, ao incrementar os custos de produção, terminava provocando aceleração da inflação.

Para a escola monetarista, não poderia haver desenvolvimento se a inflação não fosse reduzida, o que se conseguiria a partir de diminuir o rombo fiscal, e, portanto, a emissão de moeda, enquanto para os heterodoxos da época essa medida geraria quedas no emprego e na atividade econômica, pois não se estaria atacando a rigidez das estruturas econômicas, para eles a verdadeira origem do problema.

Cabe destacar que, nessa época, os debates econômicos eram realizados a partir de conjecturas, oriundas de grandes narrativas, sem praticamente o recurso da análise de dados. Porém, para o jovem economista Affonso Celso Pastore, que passara a participar do Conselho Técnico do IEGV/ACSP, a solução para essa querela e a prescrição adequada de política econômica deveriam emergir de uma cuidadosa análise empírica, baseada em teoria econômica consistente e rigor estatístico.

Nesse sentido, Pastore já se posicionava muito além do seu tempo, numa época em que não se dispunha de todos os recursos computacionais de hoje, que facilitam enormemente esse tipo de análise, e dos gigantescos bancos de dados que os pesquisadores atuais encontram disponíveis na internet. Essa característica de ser um economista "de ponta”, absorvendo todas as técnicas e recursos mais modernos, o acompanhou até o fim de sua grande jornada.

Os resultados do estudo levado a cabo pelo economista, e divulgados por primeira vez nas reuniões desse Conselho Técnico, estão reunidos no artigo “Quantificação do processo inflacionário brasileiro”, publicado na revista Temas e Problemas, pela Associação Comercial de São Paulo, em 1964.

No artigo, o economista utiliza um modelo macroeconômico para, a partir dos métodos estatísticos mais avançados à época, determinar se a inflação brasileira, observada durante 1945-1962, seria causada pela emissão monetária, de acordo com os monetaristas, ou pela variação do câmbio e flutuação da oferta agrícola, como defendia o modelo estruturalista, ou até pelos três fatores simultaneamente. O fato de não tomar partido, a priori, por uma das explicações alternativas demonstra que seu conhecido rigor científico e “respeito” aos dados foi sempre um traço marcante de sua personalidade.

Pastore chega à conclusão de que a inflação brasileira era causada fundamentalmente pela emissão de moeda realizada para financiar o déficit do Tesouro, e em medida muito menor pela variação do câmbio. A flutuação da oferta agrícola não foi relevante para a explicação. Posteriormente, em sua tese de Doutoramento em Economia pela FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), “Resposta da Produção Agrícola aos Preços no Brasil” (1968), o economista desmontaria o argumento central estruturalista, concluindo, também com base em dados estatísticos, que a oferta agrícola não era insensível ao aumento dos preços.

O correto diagnóstico da natureza da elevada inflação brasileira, que decorria da “monetização” do déficit público e, que, como sabemos, duraria praticamente quarenta anos, foi crucial para sua eliminação por parte do Plano Real, que no presente ano completará trinta anos.

O sucesso do Real deve ser comemorado por toda a sociedade brasileira, que também deve reconhecer a grande dívida de gratidão para com o professor Affonso Celso Pastore, que durante anos continuou aprimorando as conclusões inicialmente obtidas no nosso Conselho Técnico, e aprimoradas em vários outros debates no mesmo, pelo qual nos sentimos muito orgulhosos. Missão cumprida, professor. Descanse em Paz!

Referências:

• PASTORE, A. C. Quantificação do Processo Inflacionário Brasileiro. Temas e Problemas – Segundo Caderno. Centro de Estudos Sociais e Políticos e Conselho Técnico da Associação Comercial de São Paulo, ACSP, 1964.

• PASTORE, A. C. Resposta da Produção Agrícola aos Preços no Brasil. Tese de Doutorado em Economia, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1968.

 

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