Opinião

Como superar a farsa da velha política


Não prosperaram as cenas medonhas de tentativas frustradas da velha política se sobrepor à nova política reclamada pelos cidadãos desde os idos de 2013


  Por Jorge Maranhão 04 de Fevereiro de 2019 às 14:19

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de "Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas"


Quando digo que o Brasil vive uma fadiga no costume geral da farsa da velha política, com a passagem de uma hegemonia cultural barroquista para uma era de iluminismo e prevalência do bom senso na condução da coisa pública, isto fica evidenciado na tumultuada sessão de votação da presidência do Senado Federal na última semana.

Não prosperaram, pois, as cenas medonhas de tentativas frustradas da velha política se sobrepor à nova política reclamada pelos cidadãos desde os idos de 2013.

Cinquenta senadores e senadoras, em sua franca maioriade primeiro mandato, manifestaram em plenário sua preferência pela votação aberta, prerrogativa parlamentar mais do que razoável.

Mas o estertor da velha política comprova a farsa barroquista sob a qual vivemos, desde que o Barroco das artes e das letras do século XVII se extrapolou para a vida jurídica, política e moral de nossa cultura nesses últimos três séculos. Senão, vejamos em três atos exemplares como está vivo o gênero burlesco da farsa onde todos insistem em querer enganar a todos durante todo o tempo:

Primeiro ato: o golpe de tentar sobrepor um artigo do regimento interno do Senado sobre o voto secreto, que protege os parlamentares de uma eventual hipótese de retaliação, sobre o princípio constitucional da publicidade, como norma geral da administração pública, que protege todos os cidadãos eleitores da traição de seus representantes.

Segundo ato: o golpe da imposição de destituição da mesa legitimamente formada pela presidência de um suplente da mesa anterior, que encaminhava à soberania do plenário a decisão de mudança do regime de votação, por recurso externo ao Poder Judiciário, na calada da noite, e pela figura do caricato ministro-plantonista, afrontando a independência dos poderes.

Terceiro ato: o golpe da renúncia do senador Renan Calheiros, como maior representante da velha política fisiológica de conchavos, barganhas e trapaças, como tentativa de tumultuar e anular o processo eleitoral em curso, que acabaria por eleger o candidato da nova política, o senador Davi Alcolumbre.

Mas impressionantes são as “análises” dos comentaristas políticos das grandes redes de televisão que, querendo aparecer mais do que os senadores, tagarelando suas matracas por sobre as falas dos parlamentares, se precipitam em narrativas jurídico-normativas que mais confundem do que esclarecem as inúmeras manobras dos protagonistas.

Como a da ameaça de cassação do mandato dos senadores que abrissem seu voto, declinando o nome de seu candidato e mostrando a cédula de votação, num ato de desobediência à determinação do ministro-plantonista, o mesmo que, de acordo com a conveniência da vez, tanto pode vetar como estimular a intervenção interna corporis no regimento de outro Poder.

Um pequeno intermezzo no ato final da grande farsa da eleição do novo presidente do... “Se nado não me afogo, se me afobo não nado”. Pois é de se perguntar se realmente o torcionismo esquerdista que domina as instituições da república e distorce os valores morais nas últimas décadas, não será mais difícil de se expurgar da vida política do que pensa as trupes de nossos ainda desarticulados conservadores e liberais.

Definidas as direções das casas legislativas, que terão a responsabilidade de tramitar os projetos de reformas de que o país necessita com urgência, resta avaliar as estratégias de argumentação com que o Executivo, particularmente as equipes política e econômica conduzirão o processo de sua aprovação.

Em sua fala de posse o ministro Paulo Guedes foi claro e objetivo. Mas de pouco adianta apontar as corporações dos que legislam, julgam e fiscalizam como inimigos preferenciais, ou culpar “as figuras do pântano, os burocratas corruptos e os empresários piratas do Estado”.

Nem limitar a aliança com a parte sobrevivente dos políticos, os melhores da administração e das instituições públicas e a “mídia que deve ajudar a explicar as medidas”. Por seu viés esquerdista, a mídia tem demonstrado uma profunda má vontade para com o sucesso do governo ignorando seu dever cívico para com o país. E seria ingênuo pensar o contrário.

Tanto para Paulo Guedes como para chefe da articulação política do governo, Onyx Lorenzoni, falta o principal de uma estratégia de argumentação que não pode se limitar aos elementos políticos e econômicos em si.

Falta levar em conta o componente cultural da estratégia, o que verdadeiramente constrói o convencimento argumentativo: o chamamento para a aliança com os mesmos agentes de cidadania que elegeram este governo, os 5 milhões de “marqueteiros” que foram para a rua fazer a campanha de graça na dramática ausência de seu candidato.

Se o chefe da equipe econômica e o articulador político não se municiarem de uma excelente estratégia de argumentação cultural, ficarão nas mãos da grande mídia. Note-se que seus comentaristas políticos tratam o chefe da economia apenas como “um brilhante economista com excelentes ideias”, mas com déficit de capacidade de articulação e trato político com o Congresso.

A guerra é cultural como tenho afirmado aqui e desenvolvi no último capítulo de meu novo livro, quando apresento a proposta de um programa de agentes de cidadania, não apenas nas redes sociais, mas sobretudo numa rede de mídia aberta, nem que seja a própria rede pública, para o engajamento dos cidadãos na crítica e avaliação das políticas públicas e sobretudo nos critérios de cortes do orçamento público de subsídios setoriais e de privilégios das corporações.

Recomento o programa proposto no livro, e já testado nas redes sociais com 323 agentes de cidadania que se dispuseram a identificar uma questão de política pública e, no espaço de 1min e 30seg, apresentar uma proposta de resolução, com vistas à repercussão na grande mídia, sempre intoxicada com a cobertura do poder formal dos políticos.

Pois é ingenuidade privilegiar exclusivamente as redes sociais como se fez na campanha eleitoral e hostilizar a grande mídia no governo como pretendem alguns setores mais “radicais, porém sinceros”.

Pode-se ganhar uma eleição pelas redes sociais, mas não se sustenta um governo se não se buscar aliança com setores da grande mídia. A guerra cultural que acontece no front das redes sociais, não se repete magicamente na grande mídia. Deve-se buscar os representantes do jornalismo mais cívico exatamente para atacar o jornalismo dito “investigativo”, enviesado e intoxicado de gramscismo e demais esquerdismos.

E atacar com uma proposta clara: como os 5 milhões de agentes de cidadania poderão sustentar a política econômica na sua guinada liberal, denunciar as distorções dos valores morais pela esquerda e se manifestar contra os privilégios das corporações, promovendo as reformas independente da guerra ideológica.

Por exemplo, as corporações empresariais: não adianta criticar o Sistema S, mas propor uma aliança com a CACB, a Confederação Nacional das Associações Comerciais, que não depende das tetas do orçamento público, para recrutar os agentes de cidadania que irão arbitrar entre os privilégios corporativos e a farsa dos “direitos sociais” ilimitados do povo.

Com o apoio inicial das redes de TV pública, é fatal que pelo menos uma rede de televisão privada acabe por aderir. E não precisa ser a maior que, por suposto, é a mais infestada pela praga esquerdista, expressa em campanhas comprometidas com “o Brasil que você quer para o futuro” e não com “o Brasil que você constrói no presente”.

A proposta de uma campanha de agentes de cidadania descrita no último capítulo de meu novo livro chama os cidadãos a se pronunciarem sobre a alocação de recursos concretos do orçamento público para cada setor ou corporações envolvidas.

E convida para que elas mesmas abram mão de uma cota parte de seus privilégios para alocação nos serviços públicos que se destinam à grande maioria de cidadãos sem corporação, uma vez que nossos representantes representam mais suas corporações do que a nós mesmos como seus eleitores.

Vejam que a proposta nada mais é do que um embate efetivo no campo simbólico da cultura da retórica barroquista de nossos representantes da velha política, seus burocratas e empresários corruptos, contra o bom senso iluminista dos agentes de cidadania que participam efetivamente da ação política brasileira. Visitem a página de apresentação da tese do livro aqui, bem como aqui a proposta inicial em artigo deste mesmo Diário do Comércio.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio