Negócios

"Nas favelas o consumo caiu, mas é raro o fechamento de lojas"


Francislei Henrique (foto), presidente nacional da CUFA (Central Única de Favelas), diz que a disposição dos moradores para empreender segue firme. Laços afetivos nas comunidades contribuem para a proliferação de negócios


  Por Fátima Fernandes 16 de Agosto de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Se a crise fez o consumidor reduzir os gastos com a alimentação, também não poupou as despesas com lazer e viagens. Tanto, que as operadoras de turismo - acostumadas com um crescimento anual da ordem de 5% a 6% - faturaram R$ 11 bilhões no ano passado, valor 7,5% menor do que em 2014.

Como consequência, o número de passageiros, que também crescia nos últimos anos, recuou quase 16% no período, de acordo com dados da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa).

Esses números gerais de mercado, no entanto, deixam escapar um segmento de consumidor que, até agora, não deu sinais de que pretende parar de viajar. Trata-se de um público formado por aproximadamente 15 milhões de pessoas no Brasil - o equivalente à população somada da Bolívia e do Uruguai.

É exatamente esse grupo de consumidores que está movimentando agências de viagem como a Vai Voando, que opera principalmente dentro de favelas e nas periferias de grandes cidades. As vendas de passagens da empresa têm aumentado cerca de 20% ao ano, nos últimos cinco anos.

A agência, que opera desde 2013 em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas), possui 414 pontos de vendas em comunidades do país, número que saltou 55% no ano passado. Em 2015, o faturamento da empresa foi de R$ 54 milhões e a expectativa para este ano é alcançar R$ 65 milhões.

“A crise não afetou a Vai Voando. O pessoal da periferia precisa viajar uma ou duas vezes por ano para visitar os parentes, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país”, afirma Uallace Rodrigues, supervisor comercial da Vai Voando.

“O nosso público pode ter cortado os gastos em outros itens, mas não em viagens.”

O modelo de negócio da Vai Voando é diferente do que é praticado no mercado. O cliente pode estar negativado e não precisa ter cartão de crédito. Basta apresentar o RG para fazer o cadastro na empresa. 

A venda da passagem aérea é programada e paga com boleto em até 12 meses. A única exigência da Vai Voando é que o valor seja quitado antes da data da viagem.

Somente no mês de julho, a empresa vendeu R$ 6 milhões em passagens aéreas a consumidores das comunidades. No primeiro semestre deste ano, a média mensal foi de R$ 4,5 milhões.

LOJA DA VAI VOANDO NO RIO DE JANEIRO

As comunidades começaram a sentir os efeitos da crise somente neste ano, de acordo com Francislei Henrique Santos, presidente nacional da CUFA.

A partir de relatos de donos de estabelecimentos comerciais, ele estima que houve uma queda de 30% nas vendas e na demanda por serviços durante esta recessão.

No caso dos supermercados, houve redução nas vendas de alimentos que não são básicos. Também diminuiu, de acordo com ele, a visita de moradores da periferia a bares, bailes de funk e rodas de pagode.

A avaliação dele é a de que houve uma mudança no comportamento de consumo na comparação com o ano passado. Este também é um forte indício de que o consumidor pode estar com menos recursos disponíveis para o lazer ou com com medo de gastar mesmo.

“Por outro lado, não vejo o desemprego crescendo nas comunidades da mesma forma como vem crescendo no resto do país”, afirma.

Em favelas espalhadas pelas regiões Sudeste e Centro-Sul do Brasil, principalmente, são raros os estabelecimentos que fecharam as portas. Ainda é comum ver placas em postos de gasolina, supermercados e lojas anunciando vagas.

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Ainda que as vendas e o lucro dos comerciantes tenham encolhido ao redor de 30%, diz Francislei, é mais vantajoso sustentar o negócio nas comunidades do que ir para o mercado de trabalho convencional e ainda ficar longe da família.

“Dizem que esta é a maior crise da história do Brasil. Mas me lembro, nitidamente, que já houve crise bem maior do que esta.”

Francislei, 38 anos, nasceu e foi criado na comunidade do Alto Vera Cruz, região Leste de Belo Horizonte (MG). Ele conta que, quando tinha de 17 a 20 anos, procurava emprego em construção e não conseguia.

“Cheguei a trabalhar nove meses como coveiro em um cemitério, sem carteia assinada, porque não havia emprego. Hoje, mesmo com a crise, é possível ver placas de contratação em diversos pontos das comunidades.”

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A grande diferença, diz ele, é que hoje há uma exigência maior em relação à qualificação do trabalhador, que precisa ter o segundo grau completo, curso técnico e algum tipo de experiência.

Para Francislei, a crise política e a falta de confiança são o maior problema do país atualmente porque levam o consumidor a ficar retraído e desconfiado. “Mas não acredito que a condição financeira e de trabalho das pessoas nas comunidades tenha se alterado tanto nos últimos 12 meses”, diz.

O que se percebe nos empreendedores das comunidades, de acordo com ele, é que, assim como no caso dos consumidores, eles também estão mais contidos - ou seja, segurando os investimentos em melhorias em seus estabelecimentos e reduzindo os estoques.

LAÇOS AFETIVOS

Para o sociólogo, cientista político e diretor da ONG Instituto Cultiva, Rudá Ricci, o que prevalece na favela é um comércio comunitário, que resiste mais à crise. Entre os membros das comunidades há uma forte articulação de laços de amizade, afetividade, diferentemente do que ocorre em outros estratos sociais.

"Os laços são mais fortes porque estão relacionados com a troca mútua. O pensamento é o seguinte: vou comprar uma roupa de uma pessoa porque ela é daqui do morro, como eu”, diz Ricci.

RUA COMERCIAL DA COMUNIDADE DO ALTO VERA CRUZ, EM BELO HORIZONTE

Diferentemente do que acontecia no passado, diz o sociólogo, hoje os moradores têm um certo orgulho de morar nos morros. Em comunidades de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, de acordo com ele, foram criadas e lançadas grifes de roupas - principalmente esportivas - para atender os times de futebol de várzea.

Há também marcas de roupas femininas, especialmente com motivos africanos. Em São Paulo, por exemplo, os moradores mais velhos passaram a usar chapéu de sambista, uma moda criada dentro das comunidades, o que não se vê em outros locais.

“A pujança que se vê nas comunidades ocorre porque seus moradores têm uma identidade comunitária própria”, afirma o sociólogo.

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Para Renato Meirelles, sócio-diretor do recém- criado Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas, a crise vale para todos os brasileiros, mas é fato que os moradores das comunidades têm mais resiliência, pois estão mais acostumados com a escassez.

“A vontade de empreender nas favelas é maior do que no asfalto”, diz ele.

Os moradores de comunidades não têm reservas financeiros e, por isso, acabam fazendo com que o ecossistema econômico no interior da favela se retroalimente. O resultado é o desenvolvimento de uma economia dentro da comunidade. "Essas pessoas não têm tempo para ficar chorando”, diz.

Pesquisa do Data Favela mostra que a média salarial do morador das comunidades era de R$ 1.068 por mês no final de 2013 - ou seja, 54,7% superior ao valor apurado em 2003.

Para efeito de comparação, a renda média do trabalhador assalariado no Brasil cresceu menos, ou 37,9%, passando de R$ 1.172 para R$ 1.616 no mesmo período.

Dos 20 negócios mais promissores no ano passado, de acordo com o Sebrae, quase todos, de acordo com Francislei, multiplicaram-se nas favelas.

Entre eles, destacam-se os pequenos negócios de preparo de doces e salgados e de serviços para construção e instalações elétricas e hidráulicas.

Houve proliferação de lojinhas de roupas, salões de beleza e oficinas para reparo de carros e motos.O potencial de crescimento de consumo e de negócios dentro das comunidades tem sido enorme, com ou sem crise.

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Fotos: André Cavaleiro