Finanças

O Nobel de Economia e o rotativo do cartão de crédito


De acordo com os pressupostos do economista Richard Thaler (na foto), consumidores plenamente racionais não optariam pela modalidade, que cobra taxa média de juros de mais de 10% ao mês


  Por Vitor França 26 de Outubro de 2017 às 08:00

  | Economista, é professor universitário e consultor da Boanerges & Cia., especializada em varejo financeiro


O cartão de crédito tem uma série de vantagens para o consumidor quando comparado a outros meios de pagamento.

Além de praticidade e segurança, a modalidade traz benefícios exclusivos como maior prazo de pagamento, parcelamento sem juros e possibilidade de acumular pontos em programas de fidelidade.

Estas vantagens, contudo, costumam ser ofuscadas no noticiário pelas taxas do rotativo, que, apesar das mudanças recentes na modalidade –parcelamento automático do saldo devedor, com taxas menores, após 30 dias –, continuam bastante elevadas. 

 

Se o saldo de cerca de R$ 34 bilhões do crédito rotativo representa apenas 4% da oferta de empréstimos com recursos livres às pessoas físicas – de R$ 828 bilhões em agosto, de acordo com dados do Banco Central (BC) –, a taxa média de juros de 14% ao mês ainda é a maior entre as modalidades acompanhadas pelo BC – e gera uma receita média mensal de quase R$ 5 bilhões aos emissores, 14% das receitas totais decorrentes de empréstimos com recursos livres às pessoas físicas.

Para tentar combater o problema do endividamento no cartão de crédito, o BC e a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) firmaram acordo para promover ações nas áreas de educação financeira e de proteção aos usuários de serviços financeiros.

A medida é, sem dúvida, louvável, uma vez que muitos consumidores ainda não compreendem exatamente como funciona a cobrança dos juros do cartão.

Entretanto, certas características da modalidade e do mercado brasileiro ainda me mantém cético quanto à possibilidade de observarmos uma queda estrutural e duradoura da taxa média do rotativo no país, 10 vezes superior à observada, por exemplo, no Peru, o segundo colocado em um ranking de países da América Latina elaborado pela PROTESTE.

Sem qualquer tipo de garantia, o empréstimo no rotativo do cartão de crédito representa uma operação de maior risco para o emissor quando comparada a outras operações como crédito consignado, imobiliário ou financiamento para aquisição de veículos, por exemplo.

Além das maiores taxas de juros, o rotativo também apresenta os maiores índices de inadimplência na comparação com as demais modalidades.

 

As elevadas taxas de juros do cartão, por sinal, podem estar por trás de uma seleção adversa neste mercado: os clientes menos informados e de maior risco seriam exatamente os mais propensos ao financiamento rotativo, o que explicaria, ao menos em parte, a maior inadimplência na modalidade. 

 

No entanto, mais do que uma simples fonte de financiamento, o cartão de crédito é também um meio de pagamento, de forma que a concessão adequada de limites – realizada na emissão do plástico e revisada periodicamente ou sob demanda do cliente – é fundamental para garantir a atratividade do produto. Limites baixos, afinal, restringem o uso do cartão. 

Os empréstimos sem juros (pagamento em uma ou mais parcelas), para se ter uma ideia, representam 73% dos saldos das operações de crédito com cartões, contra somente 18% do rotativo, composto pelo rotativo regular (7%) – quando o pagamento parcial da fatura é realizado dentro do prazo – e pelo rotativo não regular (11%) – que inclui os ativos em atraso, inclusive os gerados nas operações sem juros.

Assim, parte do risco dos empréstimos sem juros – modalidade que não é observada em outros países – acaba embutido na taxa do rotativo.

Por outro lado, não há como negar o fácil acesso ao rotativo, visto que o limite de gastos mensais no cartão de crédito já está preestabelecido pelo emissor e basta ao cliente optar pelo pagamento parcial da fatura para obter o financiamento – situação agravada pelo fato de que, muitas vezes, a soma dos limites de diferentes cartões de crédito chega a superar a renda mensal do consumidor.

Diante de taxas de juros de dois dígitos ao mês, fosse o consumidor plenamente racional, ao perceber que, por conta de algum gasto inesperado, não teria recursos para pagar a fatura integral de um cartão, ele procuraria imediatamente empréstimos com taxas mais baixas.

A hipótese de que os consumidores são perfeitamente racionais, contudo, mostra-se equivocada quando observamos indivíduos atolados nas dívidas do cartão de crédito.

Por sinal, a incorporação do pressuposto de racionalidade limitada aos modelos econômicos de decisão de consumo foi exatamente um dos motivos que deram a Richard Thaler [na foto que abre este artigo] o Prêmio Nobel de Economia de 2017, divulgado em 9 de outubro.

Uma das principais contribuições de Thaler é a ideia de que as decisões de consumo não seriam necessariamente tomadas a partir de uma avaliação perfeita de custos e benefícios –premissa da teoria econômica convencional –, mas teriam normalmente um foco bastante específico, de curto prazo, e não considerariam todas as alternativas disponíveis nem as possíveis consequências.

No caso do rotativo do cartão de crédito, ao optar pelo pagamento de somente parte da fatura, o cliente provavelmente não calcula os juros sobre o saldo devedor, tentando basicamente fechar o mês no azul e acreditando que seu desequilíbrio financeiro será temporário.

Além disso, procurar outro empréstimo mais barato – o que exigiria pesquisa e negociação – pode ser considerado um custo elevado ante a praticidade do financiamento via rotativo.

Sem reduzir suas despesas recorrentes ao longo dos meses seguintes, o cliente tenderá a recorrer novamente ao rotativo, até enfim perceber que não terá mais condições de pagar a dívida. Neste momento, ao buscar, enfim, um empréstimo com taxas mais baixas, terá uma dívida muito maior do que a dívida que teria se tivesse simplesmente evitado o rotativo desde o início.

A medida do BC que estabeleceu o parcelamento automático do rotativo após 30 dias, com taxas de juros menores –em vigor desde abril deste ano –, tinha exatamente o objetivo de evitar o tipo de descontrole financeiro descrito acima, assumindo, portanto, que os consumidores têm racionalidade limitada.

Os novos modelos de financiamento adotados pelos emissores, porém, estão longe de resolverem o problema. Afinal, ainda é possível seguir rotativando novas compras – pagando o mínimo de 15% do valor dos novos gastos no cartão, por exemplo – desde de que as parcelas das dívidas anteriores continuem sendo pagas.

A margem para endividamento diminui, é verdade, já que parte do limite do cartão estará comprometida pelas dívidas anteriores, cujos juros são menores que o do rotativo –embora ainda maiores que os de outras modalidades.

A praticidade do parcelamento automático e do pagamento mínimo de 15%, por outro lado, ainda mantêm atraente a opção pelo rotativo ao consumidor, que tende a continuar adiando a busca por empréstimos com juros baixos para saldar a dívida do cartão.

A educação financeira tem aqui um papel crucial, mas talvez não baste – especialmente quando encaramos o fato de que boa parte da população brasileira de baixa renda tem dificuldade para interpretar textos simples e efetuar operações matemáticas básicas.

Afinal, além da questão da praticidade, a demanda pelo financiamento rotativo é bem pouco sensível às taxas de juros, visto que se trata de uma modalidade emergencial, ou seja, de um empréstimo que normalmente não foi planejado pelo cliente – vale lembrar que dificilmente um consumidor adquire o cartão de crédito atraído pelas taxas de juros oferecidas.

Isto, somado à elevada concentração do mercado em poucos emissores, limita a competição e o espaço para a redução da taxa de juros do cartão, a qual tende a subir mais do que as taxas de outras modalidades em momentos de aumento do custo do crédito por causa tanto da baixa sensibilidade da demanda dos consumidores quanto da relevância, para os emissores, da receita do rotativo, que representa 14% das receitas com os juros dos empréstimos com recursos livres às pessoas físicas – apesar de a carteira de crédito rotativo responder por apenas 4% da carteira total.

Os diversos subsídios cruzados – prazo de recebimento dos lojistas subsidiando prazo de pagamento dos consumidores, risco das vendas parceladas sem juros embutidos na taxa do rotativo, entre outros –, por fim, fazem com que medidas tentadoras como a diminuição do prazo de recebimento dos lojistas, o estabelecimento de um teto para a taxa de juros ou o aumento do valor mínimo de pagamento da fatura tenham efeitos adversos na concessão de limites e na inadimplência, comprometendo, com isso, a migração dos pagamentos para os meios eletrônicos e a própria inclusão financeira dos clientes de baixa renda. 

A elevada taxa do rotativo observada no país, portanto, não é um problema simples de ser resolvido.

Assumindo-se, contudo, que a racionalidade dos consumidores é limitada, programas de educação financeira deveriam ao menos ser acompanhados por ações proativas dos emissores, como alertas para as altas taxas de juros da modalidade e a apresentação de alternativas mais baratas de financiamento, de modo a evitar que a simples entrada no rotativo do cartão de crédito se transforme em uma verdadeira armadilha.

 

FOTO: Chicago University