Economia

Roberto Campos é aprovado para o BC em sabatina no Senado


A indicação do economista foi aceita pelos senadores membros da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Ao responder aos parlamentares, Campos disse que 'o Brasil é uma jabuticaba porque tem sistema de metas, mas não tem independência do BC'


  Por Estadão Conteúdo 26 de Fevereiro de 2019 às 17:14

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A indicação do economista Roberto Campos Neto para a presidência do Banco Central (BC) foi aprovada por unanimidade pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. No total, foram 26 votos favoráveis e nenhum contrário.

Também foram aprovados pela totalidade dos senadores presentes as indicações de Bruno Serra Fernandes para Diretoria de Política Monetária, e de João Manoel Pinho de Mello para Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC.

Essa foi a primeira vez na história recente que a sabatina do presidente do Banco Central não se tornou um bate-boca entre senadores.

Na defesa do sistema financeiro, Campos admitiu o alto nível de concentração bancária, mas apostou que as novas tecnologias serão fundamentais para o aumento da concorrência e redução de juros e spread bancário.

Questionado sobre o baixo crescimento do País, mesmo com a Selic no piso histórico, afirmou aos senadores que o mais importante para o crescimento é a estabilidade de preços. "Nos países onde se sacrificou inflação por crescimento, a expansão da atividade durou pouco e depois houve recessão. Isso aconteceu também no Brasil", acrescentou.

CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA

Campos reconheceu que o setor bancário no Brasil é concentrado, mas alegou que ainda assim existe competição. "Precisamos distinguir competição e concentração. Na crise de 2008, vários países aceitaram uma troca de mais concentração por mais segurança", afirmou. "Vários governos estimularam isso no sentido de um sistema mais concentrado, porém mais sólido."

Apesar do crescimento do lucro dos bancos, ele observou que, nos últimos anos, a rentabilidade tem caído. "Não se pode confundir lucro com rentabilidade. O retorno dos bancos já foi maior que 19%, caiu para 12%, e agora voltou para algo em torno de 15%. Apesar dos lucros maiores, a rentabilidade ainda está longe do máximo", disse.

Ao mesmo tempo, Campos Neto sinalizou em vários momentos da sabatina a intenção de estimular as novas tecnologias no setor financeiro, como forma de intensificar a concorrência no mercado financeiro. "O maior instrumento democratizante do século está aqui (mostrou o celular), a tecnologia.”

Lembrou ainda que o mercado de fintechs - empresas de tecnologias que atuam no setor financeiro - praticamente não existia há dois anos. "E hoje já são mais de 300 empresas. Imagine daqui a dois anos; isso é exponencial", afirmou aos senadores. "

CARTÕES

Campos citou medidas que a autoridade monetária vem tomando nos últimos anos no mercado de cartões de crédito no sentido de reduzir as taxas cobradas no rotativo

"Pretendo me aprofundar nisso. Uma grande evolução para o sistema financeiro será o pagamento instantâneo, automático, sem depender de nenhum processo", disse.

Entre as medidas citadas por ele está a abertura do mercado de credenciadores de cartões. "Tivemos quase 30 credenciadoras entrando no mercado, o que reduziu a taxa de intermediação. O processo em curso vai reduzir ainda mais as taxas do cartão", completou.

AUTONOMIA

O indicado ao posto de presidente do BC defendeu também a autonomia operacional da autoridade monetária para perseguir a meta de inflação. "Não se fala em o BC criar suas próprias metas, mas sim poder segui-las. A autonomia permite que os juros sejam mais baixos para uma mesma inflação, porque é retirada uma componente de risco na curva", explicou.

"O Brasil é uma jabuticaba porque tem sistema de metas, mas não tem independência do BC", completou.

CADASTRO POSITIVO

O economista foi questionado pelos senadores quanto ao spread bancário. Segundo ele, grande parte do spread no País não se deve ao lucro dos bancos, mas a outros fatores que elevam os custos. "Em outros países, o componente lucro é maior que no Brasil", afirmou.

Entre os fatores que contribuem para um spread maior, Campos afirmou que, atualmente, os agentes financeiros no Brasil têm menos informações que seus pares em outros países. "Tema da informação é importante. No Brasil, existe informação assimétrica muito grande", disse.

"Na parte de informação, temos o Cadastro Positivo, que é uma forma de disseminar a informação”, afirmou

Ele falou ainda que, concedido o empréstimo, há um problema maior relacionada ao spread. "Por que a inadimplência caiu e o custo não baixou? Não baixou porque a parte depois do recurso contratado continua problemática. De cada R$ 1 emprestado, recupera-se R$ 0,13."

REFORMAS

O indicado para assumir a presidência do BC defendeu a aprovação de reformas, em especial a da Previdência, e a criação de uma cultura para que haja mais empreendedores e menos atravessadores.

"Parece haver certo consenso hoje na sociedade que o Estado brasileiro se tornou grande demais, ineficiente, excessivamente custoso e não atende a muitas das necessidades básicas de nossa população", avaliou.

O economista deu destaque especial à necessidade da reforma da Previdência, mas citou outras medidas para que balanço do setor público entre em trajetória sustentável. "A estabilidade fiscal é fundamental para a redução das incertezas, o aumento da confiança e do investimento, e o consequente crescimento da economia no longo prazo. Estou certo de que avançaremos nessa direção", completou.

SUBSÍDIOS

Questionado por senadores a respeito de subsídios concedidos pelo governo - algo que vem sendo criticado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes - Campos afirmou que o governo não é contra estes instrumentos, mas sim contra a falta de transparência.

"É importante que os subsídios sejam transparentes e mensurados, e que se mostre para a sociedade qual é o retorno deles", disse o presidente indicado do BC. "A rede de subsídios foi feita com os juros em 14%, mas hoje estão em 6,5%. Gostaríamos de reavaliar os subsídios justamente para colocar mais recursos onde é mais necessário."

 

IMAGEM: Marcelo Camargo/Agência Brasil