Startup une indústria e varejo contra o desperdício

De olho em práticas ESG e no conhecimento de clientes, a Mimoo distribui gratuitamente em quiosques de shoppings e supermercados produtos descartados pela indústria

Fátima Fernandes
23/Mar/2023
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Startup une indústria e varejo contra o desperdício

Dados da FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, revelam que mais de 30% da produção mundial de alimentos é desperdiçada anualmente.

Esse volume é considerado a partir do pós-colheita dos produtos até a venda no varejo, sem contar o que é jogado no lixo por famílias e restaurantes.

Não por acaso, num planeta onde mais de 800 milhões de pessoas passam fome, jogar alimento fora gera um grande desconforto, para dizer o mínimo, em qualquer ser humano.

De olho nesses números e na adoção de práticas ESG, sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança de empresas, o empreendedor Ernesto Villela criou a Mimoo.

A Mimoo é uma startup que fica dentro do Cubo Itaú, espaço criado pelo banco, em 2015, em parceria com o fundo Redpoint Ventures, para conectar empreendedores e investidores.

O objetivo da empresa é coletar os produtos que as indústrias têm de jogar fora por diversas razões e distribuí-los, gratuitamente, em quiosques montados em lojas e shoppings.

Villela, fundador e CEO da Mimoo, diz que fontes globais revelam que 2% da produção da indústria é descartada e, não necessariamente, os produtos são impróprios para consumo.

Se estão dentro do prazo de validade e há tantos famintos no mundo, afirma, por que não distribuir esses produtos para quem precisa em locais frequentados por consumidores?

O teste foi feito em 2019, antes da pandemia. A Mimoo montou um quiosque no shopping Metrô Tucuruvi com produtos da AmBev (cerveja) e da BIC (lâminas de depilação).

“A loja explodiu de gente, com filas enormes, de horas”, diz Villela. Com a pandemia do novo coronavírus, o projeto quase morreu. Villela decidiu retomá-lo há um ano.

Desde então, os quiosques da Mimoo já estão no Grand Plaza, Cidade São Paulo, Tatuapé e SP Market. Há menos de um mês, a startup abriu outros dois em lojas da rede D´Avó.

O Boticário, Ajinomoto, Procter & Gamble, Unilever, Peccin, Kimberly-Clark, Hershey´s são algumas das indústrias parceiras da Mimoo em fase de teste.

Os produtos distribuídos aos consumidores nos quiosques, afirma ele, têm no mínimo 30 dias de validade e são descartados pelas indústrias por diversas razões.

“Assim que um chocolate é produzido, a validade é de um ano. Se ainda estiver no estoque da fábrica após 90 dias, o sistema bloqueia a venda. Em vez de jogar fora, por que não doar?”

Para ter acesso aos produtos gratuitos, o consumidor precisa baixar o aplicativo da Mimoo e fazer um cadastro. Para pegar os produtos gratuitamente, precisa fazer reserva.

Chegando à loja, ele abre a câmera do celular, escaneia o código de barra do produto e faz o resgate. Um funcionário da Mimoo coloca os produtos em sacolas para o consumidor levar.

Sem a reserva no aplicativo, o cliente nem entra na loja. Por essa razão, a maioria das 350 mil pessoas cadastradas na cidade de São Paulo para ter acesso aos produtos tem de 18 a 25 anos.

O projeto da Mimoo é sustentado pelas indústrias, que pagam de R$ 1,20 a R$ 1,50 por item distribuído, como chocolates, cremes, fraldas.

Os produtos são entregues pelas indústrias em um centro de distribuição da Mimoo, localizado no bairro da Moóca. A startup se encarrega de levá-los até os quiosques.

ESG

As indústrias que participam do projeto, afirma, estão em linha com as práticas sociais e ambientais, cada vez mais observadas pelos consumidores e investidores.

Para os shoppings e supermercados, uma das vantagens da distribuição gratuita de produtos, diz Villela, é o aumento do fluxo de pessoas nos estabelecimentos.

Quando tem lançamento de produto, diz, os seis quiosques chegam a atender entre 5 mil a 6 mil pessoas por dia.

Sem lançamentos, de 2 mil a 3 mil pessoas passam diariamente pelos quiosques, quando as filas para atendimentos são de aproximadamente 15 minutos.

PERFIL DO CLIENTE

O projeto da Mimmo também contribui, de acordo com Villela, para um dos maiores desafios do varejo nos dias de hoje, que é conhecer cada vez mais o cliente.

No momento do cadastro, os consumidores respondem algumas perguntas que identificam o perfil de quem vai atrás dos produtos e, consequentemente, frequenta o shopping ou a loja.

Cerca de 80% das pessoas que fizeram o download do aplicativo, de acordo com Villela, são das classes C e D, 18%, da B, e 0,8%, da A.

A Mimmo também atrela a entrega de alguns produtos à participação de diferentes pesquisas, de acordo com demandas de lojistas e shoppings.

O cliente responde algumas perguntas e leva o produto para a casa.

GRAND PLAZA

Parceiro no projeto da Mimoo desde 2019, o shopping Grand Plaza, de Santo André (SP), tem mais interesse em conhecer o consumidor do que em trazer fluxo para o empreendimento.

“Com a distribuição e divulgação dos produtos, a Mimoo consegue identificar hábitos de consumo”, afirma Fábio Oliveira, superintendente do Grand Plaza.

O shopping deixou de ser um centro de compra, diz, para virar um centro de experiência. As pesquisas, afirma Oliveira, contribuem para melhorar cada vez mais essas experiências.

O shopping Grand Plaza recebe a visita de cerca de 50 mil pessoas por dia, número que chega a 60 mil em datas comemorativas.

Villela diz que novos negócios estão sendo discutidos na Mimoo, como a distribuição de novos produtos para a experimentação dos consumidores.

A empresa também trabalha em um projeto de collab, abreviação de collaboration (colaboração), no qual o consumidor paga uma espécie de pedágio para a retirada de produto.

“O cliente pode receber uma missão, como tirar a foto da sua geladeira, produzir um vídeo para o Tik & Tok, responder uma pesquisa, assistir a um vídeo”, diz.

A startup emprega hoje 21 pessoas na administração e outras 24 em lojas. Nos quiosques, a preferência é pela contratação de jovem aprendiz.

Os contratos com as indústrias, de acordo com Villela, ainda são piloto, de um a dois meses, com possibilidade de renovação, o que tem acontecido no último ano.

O plano é firmar contratos de mais longo prazo para expansão do negócio. Além da rede D´Avó, outros dois supermercados negociam com a Mimoo a instalação dos quiosques.

Além de contribuir para evitar o desperdício, a ideia da startup é criar uma máquina de dados e de engajamento. “A troca de produtos por colaboração, não por dinheiro.”

 

IMAGEM: Mimoo/divulgação

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