‘O resto era a sombra de árvores alheias’

Enquanto muito se discutiu a respeito do ‘conflito’ entre árvores e rede elétrica após as tempestades do final do ano passado, pouco se tem falado sobre a urgência de se plantar rapidamente novas árvores no lugar das muitas que tombaram nos últimos anos

Vitor França
16/Jan/2024
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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‘O resto era a sombra de árvores alheias’

Saio para caminhar pela Pompeia em mais um dia de sol abrasador e logo ali na esquina da Rua Tucuna com a Coronel Melo de Oliveira sinto falta da sombra de duas árvores que tombaram já faz uns anos. No caso da primeira, um pequeno canteiro ainda clama pelo plantio de uma nova árvore. No caso da outra, porém, o espaço já foi coberto por cimento.

Na Rua Desembargador do Vale, paralela à Coronel Melo, uma enorme árvore caiu sobre a fiação elétrica após a ventania daquele apocalíptico 3 de novembro, quando boa parte da cidade ficou por quase três dias sem energia. O espaço onde ficava a árvore também já foi coberto por cimento. Ganhou a área para estacionamento em frente ao estabelecimento comercial; perdeu o verde do bairro.

Na Rua Caraíbas, descendo em direção ao estádio do Palmeiras, sinto falta da sombra de uma árvore que havia ali até o início de 2022. Mais adiante, na esquina da Caraíbas com a Ministro Ferreira Alves, outra grande árvore também já não está mais lá, vítima de uma tempestade, se bem me lembro.

Em um pequeno percurso de cerca de dois quarteirões, portanto, ao menos quatro árvores tombaram nos últimos anos e ainda não foram substituídas. Elas fazem parte das mais de duas mil árvores que caem em média por ano em São Paulo, segundo pesquisa realizada pela USP durante os anos de 2013, 2014 e 2015 – de acordo com a pesquisa, as ruas da cidade contavam com cerca de 650 mil árvores.

Altura do número 300 da Rua Coronel Melo de Oliveira, na Vila Pompeia, em dois momentos: em fevereiro de 2019, quando ainda se podia contar com a sombra de duas árvores; e em março de 2023, sem as duas árvores. (Fonte: Google Street View)

 

Preocupado com a qualidade de vida no bairro onde vivo, tentei utilizar o Portal 156 para solicitar o plantio de novas árvores no lugar daquelas quatro que tombaram ou foram removidas. Para quem nunca utilizou, se trata de um excelente canal de atendimento da Prefeitura, através do qual já solicitei serviços como a poda da árvore em frente de casa, a instalação de lixeiras em postes e a pintura de sinalização de trânsito na minha rua, entre outros – em todos os casos, os serviços foram devidamente prestados.

Desta vez, contudo, não foi possível solicitar o serviço. No Portal 156, na lista de serviços disponíveis relacionados a “Árvore”, até há um relacionado à solicitação de plantio de árvores em passeio público ou calçada. Contudo, só pode requerer o serviço quem deseja plantar uma árvore em frente ao próprio imóvel. O Portal destaca ainda que “esse serviço não deve ser solicitado para reposição de árvores onde já havia alguma e ela foi removida ou caiu –  nesses casos solicite o serviço ‘denúncia de falta de plantio de uma nova árvore após remoção’”. Este serviço, contudo, não está (mais?) disponível no leque de opções do Portal. Labirinto kafkiano...

Meu objetivo aqui, porém, não é questionar o Portal – que, pela minha experiência, de maneira geral, presta um excelente serviço –, mas, principalmente, chamar atenção para o problema da queda frequente de árvores na cidade e para o fato de que o plantio de novas mudas não pode mais ser encarado como uma escolha individual de cada morador.

Altura do número 483 da Rua Caraíbas, na Vila Pompeia, em dois momentos: em março de 2022, quando ainda se podia contar com a sombra de uma árvore; e em dezembro de 2022, sem a árvore. (Fonte: Google Street View)

 

Afinal, se na metáfora de Fernando Pessoa (sob seu heterônimo Ricardo Reis) que dá título a este artigo* as árvores são “alheias”, “de outros”, na acalorada realidade dos dias atuais, o plantio de árvores deveria ser pensado não somente pela ótica individual, mas também a partir dos benefícios coletivos que gera. Diante da crise climática, nem seria preciso relembrar a importância da arborização para o microclima das ruas e para a qualidade de vida na cidade.

Sabemos que muitas das árvores atualmente nas ruas de São Paulo não são mesmo as mais adequadas para o ambiente urbano. Se, por um lado, a queda delas representa riscos e prejuízos, surge também daí a oportunidade para o plantio de novas árvores mais adequadas às calçadas, garantindo-se, com isso, o verde, a sombra, a umidade, o espaço de drenagem de água da chuva e maior qualidade de vida para quem caminha pelas ruas.

Esta oportunidade não pode ser desperdiçada e a manutenção do verde e das sombras deve ser priorizada, com todas as árvores que caem devidamente repostas por espécies mais adequadas ao ambiente urbano.

A Prefeitura desenvolveu um Plano Municipal de Arborização Urbana, que define o planejamento e a gestão da arborização no município, apontando, por exemplo, quais espécies são mais adequadas para cada região. Ainda assim, tenho notado muito poucas ações de reposição de árvores tombadas ou removidas nos últimos anos. Minha impressão foi confirmada por recente reportagem do SP2, segundo a qual, em muitos distritos paulistanos, foram removidas mais árvores do que plantadas novas em 2023. 

Se a Prefeitura é acionada sempre que há uma queda de árvore, para remoção e liberação da rua, por que não integrar este serviço ao de plantio, com uma solicitação automaticamente gerada pela equipe responsável pela remoção?

A possibilidade de denunciar a falta de plantio de uma nova árvore após remoção também deveria voltar para o leque de serviços do Portal 156. A pavimentação de um espaço na calçada onde antes havia uma árvore, por sua vez, deveria exigir avaliação e aprovação prévia da Prefeitura – e também deveria haver algum tipo de canal para denunciar esse tipo de construção irregular.

Devido às questões relacionadas ao microclima, permeabilidade e diversidade biológica local, o plantio de novas árvores também não deveria mais ser pensado apenas em termos compensatórios, com cada árvore removida de um território sendo substituída por outra em qualquer lugar da cidade. Uma nova árvore deveria ser plantada necessariamente no lugar de outra tombada ou removida.

Por fim, a arborização ou mesmo a criação de pequenos canteiros nas calçadas não podem mais ficar apenas por conta dos proprietários dos imóveis, sem o devido planejamento ou incentivo por parte do setor público. Ações estruturadas e coordenadas poderiam colaborar bastante para o microclima e a qualidade de vida de quem utiliza esses espaços públicos, conforme também chamei atenção em artigo no Caos Planejado no qual comparo a densidade populacional, a densidade vegetal e o preço do metro quadrado nos distritos paulistanos – para quem procura argumentos econômicos que justifiquem o plantio de árvores nas ruas, saiba que densidades vegetais mais altas estão associadas a preços mais elevados dos imóveis.

Ruas arborizadas tornaram-se definitivamente um item indispensável para a sustentabilidade e a qualidade de vida em São Paulo. E, por se tratar de uma questão que envolve externalidades positivas (quando os benefícios sociais superam os individuais), o papel do setor público na coordenação e realização de ações que promovam a arborização é fundamental.

* Referência a “Segue o teu destino, / Rega as tuas plantas, / Ama as tuas rosas. / O resto é a sombra / De árvores alheias”, trecho de poema do livro "Odes de Ricardo Reis", de Fernando Pessoa (heterônimo Ricardo Reis).

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

IMAGEM: Alex Ribeiro/DC

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