Mercado de roupa usada cresce e vira negócio de grandes players

O modelo de brechó conhecido há décadas começa a ser repaginado, dando espaço a lojas como as da Peça Rara (foto). Esse mercado tem potencial para ultrapassar a moda fast fashion, criada pela Zara, em pouco tempo

Fátima Fernandes
06/Abr/2023
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Mercado de roupa usada cresce e vira negócio de grandes players

Se as pesquisas e as projeções de empresas que já disputam ou prospectam o mercado de second hand estiverem certas, o varejo de moda está prestes a passar por uma revolução.

O modelo de negócio baseado em levar novidades diariamente às lojas, o tal fast fashion, deve dar lugar à moda identificada com sustentabilidade, reutilização, isto é, às roupas usadas.

Levantamento da ThredUp, empresa on-line de moda dos Estados Unidos, mostra que 36 milhões de pessoas adquiriram roupas usadas pela primeira vez em 2020.

Revela ainda que 76% dos consumidores consultados pretendem ter um mix maior de peças de segunda mão no guarda-roupa nos próximos cinco anos.   

Em 2021, o mercado global de roupas usadas era da ordem de US$ 15 bilhões, e deve chegar perto de US$ 80 bilhões em 2025, de acordo com a TredUp.

Outras pesquisas mencionam valores próximos a US$ 50 bilhões já neste ano, de tão rápido que tem crescido este mercado, que tenta reduzir o descarte desenfreado de produtos.

Há 14 anos, James Reinhar, fundador da ThredUp, achou que este era um bom negócio ao ver o seu armário lotado de roupas sem uso e não achar empresa interessada em comprar.

Aliás, este foi o pontapé inicial de muitos empreendedores no Brasil.

Deu certo, pelo menos até agora. A ThredUp, com faturamento anual da ordem de US$ 290 milhões, ganha dinheiro ao cobrar uma comissão por peça vendida em sua plataforma.

PLAYERS MUNDIAIS

Desde então, não param de surgir novos empreendedores, e até gigantes mundiais do varejo, interessados em disputar o mercado formado pelos conhecidos brechós. 

Em 2019, a Macy´s, rede norte-americana fundada em 1858, deu os primeiros passos ao firmar uma parceria com a ThredUp para vender usados no canal on-line e em lojas físicas.

O grupo sueco H&M já é acionista majoritário na Sellpy, plataforma de e-commerce especializada em revenda de roupas e acessórios de segunda mão.

A Burberry lançou um programa piloto no qual oferece certo prêmio para clientes que vendem peças da marca britânica que costumam ficar no armário na plataforma The RealReal.

Fundada por Julie Wainwright em 2011, a The RealReal, com sede em São Francisco (CA), comercializa roupas consignadas, além de joias, relógios, obras de arte e artigos de decoração.

PLAYERS BRASILEIROS

No Brasil, o mercado, também chamado de moda circular, segue o mesmo caminho.

Com 15 anos, a rede de franquias de brechó Peça Rara, com 85 lojas, deve terminar 2023 com 140 unidades espalhadas pelo país.

Marcello Corrêa e a esposa Bruna Vasconi abriram a primeira unidade em Brasília (DF), com foco em peças e acessórios infantis. Hoje, a marca atende todos os públicos.

Desde 2021, a Peça Rara faz parte do grupo Semenzato (SMZTO), um dos maiores investidores em franquias do país. A atriz Deborah Secco é sócia da empresa desde 2022.

“A nossa intenção é estar em todas as capitais do país e em cidades com mais de 500 mil habitantes. Estamos fechando entre cinco e seis franquias por mês”, afirma Corrêa.

Para ele, o crescimento da Peça Rara, que faturou R$ 86 milhões no ano passado, se deve à repaginação dos brechós, com lojas semelhantes às que comercializam produtos novos.

Na outra ponta, os consumidores estão cada vez mais comprometidos com sustentabilidade e responsabilidade social, o que faz a venda de second hand prosperar.

“Estivemos na Galeria Lafayette, em Paris, para ver todo o andar de revenda de usados e não vimos nada de diferente do que já oferecemos no Brasil”, diz.

Os clientes da Peça Rara, de acordo com Corrêa, são de todas as classes socias. Os cerca de 158 mil fornecedores ativos de roupas pertencem mais às classes A e B.

PROJEÇÕES

Projeções do Boston Consulting Group (BCG) citam crescimento de 15% a 20% ao ano até 2030 para o mercado de moda circular no Brasil.

O Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), prevê que o mercado de roupas usadas pode ultrapassar o de varejo de moda já no ano que vem.

Pesquisas da ThredUp sobre hábitos de consumidores indicam que cresce a preferência por marcas que possibilitam a troca de peças velhas por novas ou por crédito nas lojas.

Todos esses dados e o desejo de contribuir para reduzir o impacto da indústria da moda no meio ambiente levaram Luanna Toniolo, fundadora e CEO da TROC, a desistir da carreira de advogada e a empreender no mercado de roupas usadas.

Diferentemente da Peça Rara, que está laçando agora a sua plataforma para a conexão do mundo físico com o digital, a TROC começou o negócio pelo e-commerce em 2016.

Com sede em Curitiba (PR), onde também está localizado o Centro de Distribuição (CD), a TROC recebe de 20 mil a 30 mil peças por mês de pelo menos seis capitais, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre e Florianópolis.

A empresa dá orientação sobre o tipo de peça que pode ser comercializada na plataforma e faz a busca na casa do fornecedor, que recebe um percentual sobre o valor pós-venda.

Cerca de 120 profissionais trabalham desde o processo de curadoria dos produtos, a partir da chegada das peças ao CD, até o cadastramento, fotos e exibição no site.

Os preços das roupas são a partir de R$ 35, podendo chegar a R$ 30 mil, no caso de um vestido de festa de uma marca de luxo.

“Costumamos dizer que somos resolvedores de sonhos. Para muita gente ter uma peça da Animale, por exemplo, é um sonho”, afirma Luanna.

A TROC, que desde 2020 faz parte do grupo Arezzo, já tem dois pontos físicos, em São Paulo e Curitiba. No ano passado, criou uma célula exclusiva para artigos de luxo.

A clientela da TROC é formada por pessoas das classes A e B que buscam oportunidade e preço, por pessoas com consciência socioambiental e por profissionais de produção moda.

“A percepção que temos é que este mercado está em vasto crescimento”, afirma.

O empresário Mauro Nomura, dono de franquias da Adidas, Arezzo e Schutz em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina concorda com Luanna.

Ele acaba de inaugurar em Florianópolis a Reverte, uma loja de usados em um espaço de 350 metros quadrados na Rua Felipe Schmidt, a principal rua de comércio da cidade.

Assim como outras empresas, a Reverte busca as peças nas casas dos fornecedores, que recebem 40% do valor pago. Algumas lojas da Adidas e da Arezzo são pontos de coleta.

Para surpresa de Nomura, em três dias, a loja comercializou R$ 60 mil. O preço médio de cada peça é de R$ 150 de marcas como Animale, Zara, Le Lis Blanc.

“Decidimos pegar a linha do meio das peças usadas. Vamos ter produtos novos também, mas que não devem ultrapassar 20% do mix”, afirma.

Nomura diz que decidiu entrar no mercado de second hand também porque quer ajudar o mundo a acabar com a enxurrada de lançamentos.

“Há muito desperdício na indústria da moda. O negócio de segunda mão deixa o mundo mais sustentável e um futuro mais justo e consciente”, afirma.

Foi essa crença que levou Jini Nogueira, ex-diretora da BrMalls, a criar a Iramaia Vintage, que opera há cerca de dois meses pelo Instagram.

Por enquanto, Jini, que decidiu tirar um período sabático na Ásia, está em fase de aprendizado do negócio e já sentiu o seu potencial com a venda de 50 peças próprias em pouco tempo.

“Participo de eventos de varejo há muitos anos e vejo que o segmento de moda circular ganha cada vez mais espaço nas operações. Isso chamou minha atenção”, afirma.

No mundo do varejo há 28 anos, Juliana Santos, proprietária da Dona Santa, loja de multimarcas de luxo situada em Recife (PE), também ficou surpresa com a venda de usados.

Durante a fase mais crítica da pandemia do novo coronavírus, Juliana decidiu vender peças próprias e da mãe por meio do Instagram, como se fosse um bazar.

O sucesso foi tão grande que hoje as roupas usadas estão no espaço de 1.700 metros quadrados da Dona Santa, que vende multimarcas e a marca Juliana Santos.

“Nesses três anos de experiência com second hand deu para sentir uma mudança enorme em relação ao comportamento de fornecedores de peças e clientes”, afirma Juliana.

Quem fornecia as peças não queria ser identificada, e clientes só compravam peças usadas por meio do Instagram, não na loja física.

“Isso era o que acontecia há três anos. Hoje, não existe mais constrangimento nem no fornecimento nem na compra, tanto que as peças usadas já ocupam área nobre na loja.”

O preço médio das peças nacionais de segunda mão é de R$ 300 e, das importadas, de R$ 2 mil. As roupas da Juliana Santos custam, em média, R$ 700 e, de multimarcas, R$ 1.500.

Os usados já participam com 5% do faturamento da Dona Santa, com perspectiva de chegar a 10% em um ano, de acordo com a empresária.

“É notório, em curto tempo, a mudança das pessoas tanto em vender como em consumir peças usadas, e como isso está veloz”.

MICROEMPREENDEDORES

Por necessidade, oportunidade ou consciência socioambiental, há muita gente de olho neste mercado, não somente as grandes empresas.

No primeiro semestre de 2021, a abertura de estabelecimentos que vendem produtos de segunda mão foi 48,5% maior do que em igual período de 2020.

Em 2020, foram abertos 1.298 MEI (microempreendedor individual, que trabalha por conta própria) e 118 pequenas empresas.

Em 2021, foram abertos 1.875 MEI e 229 pequenas empresas. Os números foram levantados pelo Sebrae, com base em dados da Receita Federal.

O percentual de aumento é o maior em seis anos, e inclui, além do comércio de roupas, o de móveis, o de eletrodomésticos, o de material de demolição e o de livros.

Esses dados constam da análise de mercado feita pela Reverte antes de entrar no mercado.

 

IMAGEM: Fátima Fernandes/DC

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