Indicadores econômicos são positivos. Mas, cadê os clientes?

Lojistas de SP dizem que vendas diminuíram, apesar da proximidade do Natal, e há dificuldade até para pagar o 13º salário. Para economistas, país vive uma ‘reordenação’ de consumo

Fátima Fernandes
30/Nov/2023
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Indicadores econômicos são positivos. Mas, cadê os clientes?

Um dos indicadores mais importantes para dar pistas se o varejo pode ter bom ou mau desempenho em um determinado período é a massa real de rendimento do trabalhador.

Eis uma boa notícia. Neste ano, este indicador deve acumular alta de 8,8% em relação a 2022, mais do que cresceu em 2019 sobre 2018 (3,7%), de acordo com a MacroSector Consultores.

Como base de comparação, em 2020 e 2021, a massa real de rendimento dos trabalhadores caiu 6,1% e 0,3%, respectivamente, e, em 2022, cresceu 8,5%.

Nos números deste ano também estão incluídos os recursos do Bolsa Família, que praticamente dobraram de 2022 para 2023, de R$ 6,9 bilhões para R$ 13,2 bilhões por mês.

Em 2023, portanto, a massa real de rendimento, que é a relação entre o pessoal ocupado e o rendimento médio do trabalhador, deve ter o melhor desempenho dos últimos quatro anos.

A inflação oficial do país (IPCA), outro termômetro importante para o varejo, que chegou a 10,1% em 2021 e 5,8% em 2022, deve terminar o ano em 4,5%, de acordo com a MacroSector.

A taxa básica de juros também dá sinais de diminuição, terminando o ano em 11,8%, assim como a inadimplência que está sob controle e em queda, de acordo com dados do Banco Central (BC).

CADÊ O CLIENTE 

Os indicadores acima, porém, não têm reflexo no varejo popular e nas ruas de comércio de São Paulo, que costumavam lotar nesta época do ano por conta do Natal.

“Os comerciantes da Rua 25 de Março, da Rua Santa Ifigênia, do Brás e do Bom Retiro estão se queixando porque o movimento está fraco demais”, diz Aldo Macri, presidente do Sindilojas.

Não há pesquisa com comerciantes desses locais, mas as conversas deles nos cafés nos arredores das lojas, diz, dão o tom de que os clientes sumiram neste fim de ano.

“O que eles dizem é que as vendas estão entre 30% e 40% abaixo do que eram antes da pandemia. Não sei onde são feitas pesquisas que indicam crescimento de vendas”, diz.

Na última quinta-feira (23), a Rua José Paulino, a principal do Bom Retiro, estava vazia, de acordo com Macri, algo que não acontecia, especialmente na semana da Black Friday.

Com uma loja no Brás e outra no Bom Retiro, Nelson Tranquez, diretor da confecção Loony e conselheiro da Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, confirma que o consumo esfriou.

“As vendas para o atacado da Loony até que estão melhores do que antes da pandemia, mas para os consumidores finais estão de 5% a 6% menores do que em 2022”, afirma.

Tranquez diz que os consumidores reduziram a frequência de compra. “Tinha cliente que comprava a cada 30, 40 dias. Ou o período esticou ou eles não vêm mais.”

Uma das explicações dos lojistas para o comércio estar mais fraco é o elevado endividamento das famílias - cerca de 78%, de acordo com estimativa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) para este final de ano.

No caso do centro de São Paulo, outra razão é a proximidade das lojas com a Cracolândia. Na medida em que as notícias ganham espaço nas mídias, os clientes evitam a região.

“Não existe uma razão e, sim, várias. Houve um deslocamento do consumo de alguns setores, como vestuário, para outros, como o de alimentos, que estão mais caros”, diz Fábio Silveira, diretor da MacroSector.

Além disso, dados indicam que os consumidores estão utilizando mais serviços e quitando dívidas. “Tudo isso faz com que haja uma reordenação do consumo no país”, afirma.

Em 2021, diz, o setor de serviços cresceu 11%, e, em 2022, 8%. “Há quatro anos, o varejo cresce cerca de 1% apenas”, diz.

A projeção da MacroSector para este ano é de alta de 2% para o varejo e de 2,3% para os serviços.

DESAFIO E SORTE

Um dos lojistas que mais conhece o comércio popular na cidade de São Paulo, Marcelo Dória, dono da rede Depósito das Calcinhas, afirma que o momento é desafiador.

Com 16 lojas na Zona Leste de São Paulo, ele diz que o consumo neste final de ano está “horroroso”, pior até do que durante a pandemia. “Não tem dinheiro no mercado.”

Depois da pandemia, o tíquete médio de suas lojas caiu cerca de 30%, para R$ 70, e o parcelamento das compras aumentou. “Acirrou a concorrência pelo bolso do cliente.”

Quem também sente falta de ver o empurra-empurra de clientes nesta época do ano é Ondamar Ferreira, gerente da loja da Rua 25 de Março da Armarinhos Fernando.

“O movimento está uns 3% abaixo da expectativa e uns 5% a 6% abaixo do que era antes da pandemia”, afirma.

A loja também identificou que o cliente prefere parcelar em mais vezes a compra. Nos gastos acima de R$ 300, a rede divide o pagamento em até três vezes. 

“O comércio hoje vive uma nova realidade. Pode ser que o varejo virtual esteja tirando um percentual das vendas do presencial”, diz.

Nesta época do ano, a Armarinhos Fernando da Rua 25 de Março costumava receber entre 6 mil e 7 mil pessoas por dia, número que caiu pouco mais de 10%, de acordo com Ferreira.

“Neste momento, não tem muito o que fazer, temos que contar com a sorte”, diz. Com 15 lojas, a rede não tem intenção, pelo menos por enquanto, de abrir venda pelo e-commerce.

13º SALÁRIO

Uma das principais preocupações de lojistas consultados pelo Diário do Comércio, que até previam um final de ano bom de vendas, é com o pagamento do 13º salário.

“A expectativa é vender para pagar o 13º salário neste período. Agora, a dificuldade é grande, pois parte dos lojistas vai ter de recorrer a bancos”, diz Macri, do Sindilojas.

Se as vendas não reagirem neste final de novembro e início de dezembro, de acordo com ele, os comerciantes vão ter de parcelar o pagamento, por semana, por exemplo.

“Nós dividimos o bolo, segura o pagamento de contas de luz, água e vai cumprindo os compromissos mais importantes. Aliás, isso é praxe no pequeno comércio”, diz Macri.

Dória, do Depósito das Calcinhas, é um dos empresários preocupados com o pagamento do 13º. “Eu e outros lojistas estamos apreensivos. Estou fugindo de bancos”, diz.

Dória tem cerca de 60 funcionários nas suas 16 lojas. 

IMPORTADOS 

A desaceleração das vendas do comércio de rua não é de hoje, de acordo com Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

“Produtos mais populares não são essenciais. Com mais necessidade do que recursos, o consumidor acaba canalizando as compras para bens necessários”, diz.

Os supermercados, de acordo com ele, têm pego uma parte das vendas das lojas de roupas, eletroeletrônicos, assim como as plataformas que vendem produtos de fora do país.

“Os importados chegam ao Brasil pagando 17% de ICMS, menos do que todos os encargos pagos pelos nacionais. Produtos vendidos aqui até R$ 300 foram atingidos em cheio.”

Lojas do Bom Retiro, do Brás e da Rua 25 de Março, diz Solimeo, estão sofrendo com a concorrência legal e ilegal dos importados e as mudanças de hábitos de compra dos brasileiros.

“O fato é que a desaceleração nas vendas neste período já era esperada, já se sabia que o carry over da economia duraria pouco”, diz Fábio Pina, assessor econômico da FecomercioSP.

Para ele, erros de projeções explicam parte da frustração de lojistas com o desempenho dos negócios neste final de ano.

“No começo de 2023, havia um pessimismo até infundado em relação à economia e a surpresa foi boa para os negócios no primeiro semestre. Agora, aconteceu o contrário, houve um otimismo exagerado para este segundo semestre”, diz Pina.

Segundo o assessor econômico da FecomercioSP, havia expectativa de desaceleração dos negócios a partir de outubro porque a comparação com o ano passado já se daria com um período mais aquecido de consumo.

Além disso, diz, o consumidor está pegando gosto pelas compras on-line. Os lojistas que esperavam ver as vendas crescerem dois dígitos neste final de ano, afirma, vão se frustrar.

“O grande problema deste ano é que os efeitos positivos da macroeconomia estão se esgotando justamente perto do Natal, daí a grande frustração”, diz.

ESFORÇO DE VENDAS

O esforço de vendas nas lojas físicas, de acordo com Dória, do Depósito das Calcinhas, vai ter de ser muito maior neste final de ano.

“Os comerciantes vão ter de ficar muito mais atentos em relação à exposição de produtos, gestão de pessoas, treinamento de equipes”, diz.

Na sua rede, diz, há um encontro de funcionários líderes todas as segundas-feiras, encontro que já está no número 583, para troca de experiências e treinamento.

Cada semana um tema pauta a reunião, como desenvolver liderança, selecionar pessoas, melhorar atendimento ao cliente e lidar com situação de estresse.

2024

Para os lojistas que esperam um 2024 melhor do que 2023, a notícia não é boa. Pina diz que a tendência é de que o consumo mais morno deste final de ano se estenda para 2024.

“Será que vai ter nova rodada de contratações nas empresas? Será que os juros e a taxa de câmbio vão cair bem mais? Por enquanto, não enxergo que isso venha a acontecer”, diz Pina.

Nas projeções de Silveira, da MacroSector, a massa real de rendimento, que cresce 8,8% neste ano, aumenta 2,5% em 2024. A inflação prevista é de 4,3% e a taxa de juros, de 10%.

Com essas projeções, os lojistas têm algumas pistas do que vem por aí em 2024.

 

IMAGEM: Paulo Pampolin/DC

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